
![]() Hardware: O Destruidor do Futuro
Original:Hardware
Ano:1990•País:UK Direção:Richard Stanley Roteiro:Richard Stanley, Kevin O'Neill, Steve MacManus, Michael Fallon Produção:JoAnne Sellar, Paul Trijbits Elenco:Carl McCoy, Iggy Pop, Dylan McDermott, John Lynch, Mark Northover, Stacey Travis, Paul McKenzie, Lemmy, William Hootkins, Mac McDonald |

“Nenhuma carne será poupada.”
Uma das mais cultuadas amostras da era MTV e da passagem dos anos 80 para os 90, em condição futurista suja, Hardware: O Destruidor do Futuro é um videoclipe de horror que sofreu mutação para um longa. Foi lançado em VHS pela Look Vídeo, sendo uma daquelas fitas em que a loja não sabia se colocava nas prateleiras de ficção científica ou de terror, com pouco interesse do público, muitas vezes deixada abandonada em um deserto marroquino como um crânio de um androide ameaçador. Um erro absurdo por tudo que o trabalho de Richard Stanley representa, além das mensagens televisivas sobre governo ditatoriais e o fascismo, como uma alegoria claustrofóbica.
Inspirado não inicialmente assumido na curta tirinha em quadrinhos “SHOK!“, de Steve MacManus e Kevin O’Neill, publicada na revista “2000 AD“, da Fleetway Publications, Hardware também bebe muito das literaturas de Philip K. Dick e Roger Zelazny, sem contar influências de O Exterminador do Futuro e do thriller sci-fi No Mundo de 2020, de Richard Fleischer. Há muitas outras referências presentes, sem que isso diminua a personalidade do filme de Stanley (A Cor que Caiu do Espaço, 2019). De acordo com o cineasta, um protótipo do que seria o longa foi feito em um curta-metragem na adolescência, uma temática que sempre o atraia, e ele também se inspirou em sua experiência na cobertura ousada de uma facção guerrilheira muçulmana na Guerra Soviético-Afegã. Houve intenção de apresentar um mundo distópico em que a sociedade aceitou uma liderança autoritária, tendo como base a vivência durante o regime do apartheid na África do Sul, sua terra natal.

Assim, Hardware se mostra uma obra de muitas camadas, comandada em um ritmo frenético clipeiro, com participações especiais de músicos como o vocalista da banda Fields of the Nephilim, Carl McCoy, além de Iggy Pop, como o locutor de rádio Angry Bob, e o taxista aquático Lemmy, ninguém menos que o ícone do Motorhead. Também há trilhas do Ministry, do grupo inglês Public Image Ltd., e composições eletrônicas de Simon Boswell. Soma-se a isso a fotografia deprimente — no bom sentido — de Steven Chivers, e a edição acelerada de Derek Trigg, resultando numa lisergia visual, embebida em corpos destroçados e bons efeitos especiais.
Ambientado no ano 2000, depois que o Planeta Terra sofreu com guerras nucleares e vive com intensa radiação e o governo determina leis de esterilização, o filme abre com uma fotografia avermelhada durante a travessia de um nômade (McCoy) por um deserto irradiado. Ele recolhe peças enterradas como a mão e o crânio de um androide, com a intenção de vendê-los para o ferrovedor Alvy (Mark Northover), que, na sua chegada, estava no banheiro. O material é vendido para dois homens em passagem no local, o ex-soldado Moses Baxter (Dylan McDermott, da série O Desafio e de American Horror Story) e seu parceiro Shades (John Lynch), que está sempre de óculos escuros porque trabalhou no espaço na correção de satélites por muitos anos e está com dificuldade de se adaptar aos raios solares.

Enquanto Alvy fica com a mão mecânica e resolve pesquisar a respeito de sua origem, Moses resolve presentear a namorada Jill (Stacey Travis), a quem não visita há muito tempo, com o crânio pela proximidade do Natal. Como a reclusa garota tem como hobby montar esculturas de ferro, ela aceita o presente e ambos têm uma intensa noite de sexo, artisticamente filmada sob os olhares atentos do crânio, com visão de tecnologia da época em tela verde, e do vizinho voyeur Lincoln “Link” Weinberg (William Hootkins). Alvy descobre que as peças são partes de um robô em estrutura avançada de combate chamado M.A.R.K. 13, que remete a uma passagem na Bíblia, em Marcos 13:20, que entre outras coisas diz a tagline principal do longa: “Nenhuma carne será poupada“. Entre suas habilidades, há uma informação importante sobre o robô ser capaz de se refazer no contato com fontes de energia.
Alvy combina um encontro com Moses, mas é morto pela mão mecânica, agora adaptada com agulhas. Quando o rapaz descobre o corpo e a pesquisa do ferrovedor, tenta a todo custo alertar a namorada e pedir ajuda do amigo Shades, vizinho dela, porém este está completamente chapado em seu culto particular e a comunicação com Jill está impossibilitada. Depois que a garota pinta o crânio com as cores da bandeira americana, M.A.R.K. 13 desperta para uma nova condição e se une às peças das esculturas de Jill para agir como foi programado, exterminando qualquer espécie viva a partir de sua visão infravermelha.

A partir de então, cabe a uma Jill, munida com um taco de beisebol, enfrentar a criatura, sem acesso ao mundo exterior. O vizinho babão, Shades, uma equipe de segurança, uma família chinesa e o próprio Moses aparecerão para ajudar ou servir de vítima, em combates sangrentos com cabeças explodindo, corpos partidos ao meio e provocação de automutilação. Armas de fogo e explosões podem ajudar temporariamente, mas o monstro cibernético é capaz de se reconstruir e se adaptar, ainda que tenha uma fraqueza das mais simplórias.
Stanley cria um mundo futurista dos mais degradantes, com pessoas doentes nas ruas, um bairro de vítimas de radiação, animais marcados, comércio, esgoto, sujeira e aglomerações. O próprio rio, com uma travessia realizada pelo taxista Lemmy, ao som de “Ace of Spades“, de sua banda, deixa evidências dessa poluição. Imagens na TV mostram valas e corpos da Segunda Guerra Mundial, clipes e mensagens políticas desagradáveis, numa atmosfera de baixa perspectiva. Nesse cenário, M.A.R.K. 13 é apenas um exterminador de uma realidade apocalíptica em que o Homem é a desgraça do Planeta e precisa ser extinto.

Releituras mostram que Hardware ainda é um filme bem interessante. O cinema mudou bastante de lá para cá, como as formas de enxergar a tecnologia, os efeitos, e a própria concepção do futuro. Deixa uma impressão de um futuro oitentista no visual dos personagens, nos registros das câmeras, dos telefones com visor e nas telas dos computadores, bem distantes do que realmente aconteceria em dez anos, com a ampliação da internet e das redes sociais. Mesmo com sua linguagem datada na expressão de um universo alternativo, vale bastante a pena conhecer essa mistura de horror e ficção científica em retalhos de referências. O sucesso cult da produção quase provocou uma continuação que mostraria a produção em larga escala do robô, com a volta da protagonista no combate à ameaça. Seria uma ideia muito cara e desnecessária, uma vez que Hardware já permite uma imaginação suficientemente pessimista.


Clássico, filmaço.