
![]() Você Não Estará Só
Original:You Won't Be Alone
Ano:2022•País:Austrália, UK, Sérvia Direção:Goran Stolevski Roteiro:Goran Stolevski Produção:Kristina Ceyton, Samantha Jennings Elenco:Sara Klimoska, Leontina Bainovic, Anamaria Marinca, Alice Englert, Félix Maritaud, Anastasija Karanovich, Carloto Cotta, Genc Jakupi, Noomi Rapace, Arta Dobroshi, Nikola Ristanovski |

O folk horror encontrou nos últimos anos um nicho confortável no cinema de arte, especialmente a partir do impacto de A Bruxa (2015), de Robert Eggers, que estabeleceu quase um manual visual e temático para o subgênero: paleta desbotada, cotidiano opressivo, religiosidade como prisão, e o sobrenatural como a única saída possível para mulheres sufocadas por um mundo que não lhes deixam pertencer. Goran Stolevski conhece essa fórmula muito bem e, em seu longa de estreia, faz questão de se distanciar dela em vários aspectos, com resultados ora deslumbrantes, ora frustrantes. Você Não Estará Só é um filme que sabe exatamente o que quer dizer, mas nem sempre sabe quando parar de dizê-lo.
A história se passa na Macedônia do século XIX e acompanha Nevena, uma jovem que passou a vida inteira confinada em uma caverna por sua mãe, numa tentativa desesperada de protegê-la de uma Devoradora de Lobos chamada Maria (interpretada por Anamaria Marinca), uma bruxa que queria o sangue de uma recém-nascida e, em troca, recebeu da mãe da criança a promessa para reclamar a garota como sua herdeira quando chegar à adolescência. Quando finalmente a bruxa leva Nevena consigo, começa uma jornada de descoberta do mundo exterior que o filme narra de forma completamente singular: Nevena aprende sobre a vida humana habitando corpos alheios, assumindo a forma de pessoas mortas e vivendo, por dentro de suas peles, experiências que nunca teve. Trata-se de uma premissa de rara beleza conceitual, e Stolevski a usa para construir algo que é menos um filme de terror e mais uma meditação sobre o que significa existir, sentir e pertencer a um corpo.
A maior conquista do filme está exatamente nessa construção de Nevena como personagem contínua, apesar de interpretada por diferentes atores ao longo da projeção. Sara Klimoska, responsável pelo primeiro ato, entrega uma performance de presença quase animalesca: Nevena recém-saída da caverna não sabe sorrir, não sabe segurar um objeto com intenção, não reconhece o próprio rosto. É uma atuação construída inteiramente na linguagem corporal, sem nenhum apoio de diálogo convencional, e Klimoska a executa demasiadamente bem. Quando Noomi Rapace assume o papel, o desafio é diferente e igualmente alto: ela precisa convencer o espectador de que ainda é a mesma criatura que acabou de conhecer, agora dentro de outro corpo. E consegue. Rapace reconstrói os mesmos tiques, a mesma relação com o espaço, a mesma ingenuidade encostada num instinto primitivo, mas que está aprendendo. A fluidez entre as duas intérpretes é um dos maiores trunfos da produção, e prova que Stolevski trabalha muito bem com seus atores.
A fotografia merece atenção particular. Sim, há tons terrosos e uma certa frieza em determinados planos, especialmente nas cenas de interior das casas da aldeia e nos momentos de maior brutalidade, onde a câmera parece se encolher junto com os personagens. Mas o filme não é, de forma alguma, uniformemente desbotado. Nas florestas, os verdes ganham uma saturação quase excessiva, deliberadamente viva, que transforma a natureza em algo entre o sagrado e o ameaçador. Essa escolha tem coerência narrativa direta: é no mundo externo, na mata, que Nevena começa a desenvolver sua percepção sobre cores e beleza, e o espectador vê a floresta com os olhos dela, exatamente em função dessa riqueza cromática. A variação entre planos fechados, que nos colocam dentro de sua cabeça, e planos abertos, que revelam a imensidão da paisagem ao redor, também é muito bem orquestrada. O uso da câmera em constante movimento suave, quase flutuante, reforça a ideia de uma criatura que observa o mundo com a curiosidade de quem nunca pertenceu a ele.
O subtexto do filme é ambicioso e, em muitos momentos, genuinamente poderoso. Você Não Estará Só é, em essência, uma história sobre o corpo feminino como território ocupado, reivindicado e moldado por forças externas. A relação entre Maria e Nevena espelha dinâmicas de controle e transmissão de trauma que estão na raiz de muitas estruturas de dominação, disfarçadas aqui sob o verniz da bruxaria. O momento em que Nevena habita o corpo de um lavrador é um dos mais interessantes do filme exatamente por isso: pela primeira vez, ela experimenta o mundo a partir de uma posição de poder não questionado, e a estranheza que sente nessa posição diz muito mais sobre patriarcado e sobre a experiência feminina do que qualquer cena mais explícita poderia. Os efeitos práticos reforçam bem essa camada visceral: o gore existe, é presente e perturbador, mas nunca escorrega para o exibicionismo. A violência serve ao argumento, e isso é raro.
O único tropeço na equipe de arte fica por conta da maquiagem da Maria. O visual da bruxa, que deveria causar um desconforto mais profundo e orgânico, acaba flertando com uma teatralidade um pouco excessiva, quase de fantasia de halloween, numa cobertura que a iluminação não consegue suavizar o suficiente. É um problema pontual, mas que enfraquece um personagem que deveria ser muito mais perturbador do que é.
E é aqui que chegamos nos limites do filme. Stolevski como roteirista não confia no espectador tanto quanto Stolevski diretor parece confiar. A narração em off de Nevena, que atravessa boa parte da projeção, é escrita com uma sensibilidade poética real, em fragmentos que, isolados, são bonitos como poemas:
— Aquilo ali, são… árvores. Aquilo ali, são… pardais. Mas pardais são cobras? Mulheres são vespas? Correntes são beijos? Eu, eu sou um diabo?
O problema é que esses fragmentos não são usados para ampliar o que já estamos vendo, mas para explicá-lo. Quando uma imagem já comunica com clareza o estado interno da personagem, a voz de Nevena chega para garantir que entendemos, retirando do espectador exatamente o espaço de reflexão que tornaria a experiência mais rica. O filme desconfia da própria eloquência visual, e paga um preço por isso. E isso é uma pena, porque o texto é forte:
— Para as mulheres, você é vidro. Para os homens, você é água.
O mesmo problema estrutural contamina o arco narrativo geral. Cada nova identidade que Nevena assume segue uma curva parecida: chegada, descoberta, conflito, perda. A variação entre os corpos é real e interessante, mas os dilemas internos se repetem com variações mínimas, e o filme não consegue construir uma sensação de progressão emocional ou dramática que leve a um terceiro ato satisfatório. O clímax, quando finalmente chega, parece mais um encerramento burocrático do que uma conclusão conquistada. Ficamos com a sensação de que o filme poderia ter dito tudo que disse em menos tempo, com mais força.
Você Não Estará Só é um filme que, nos seus melhores momentos, justifica completamente sua existência: tem atuações acima da média, uma fotografia de personalidade própria, um argumento genuinamente original dentro de um subgênero que tende à repetição e uma coragem temática que muitos filmes mais polidos sequer ousam. Stolevski é claramente um cineasta com visão, e essa visão aparece em quadro com frequência suficiente para que o filme valha o tempo investido. O que ele ainda precisa aprender é que um subtexto forte não precisa se explicar para existir, e que a repetição de estrutura, por mais poeticamente tratada que seja, cobra seu preço em qualquer narrativa. É um primeiro longa de estreia promissor, ainda que seja uma obra que fica um pouco aquém do que poderia ter sido.




