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por Matheus Santos Rangel

Edgar Allan Poe já tinha inventado o detetive moderno quando decidiu fazer algo ainda mais ambicioso: usar a ficção para resolver um crime real. Não como metáfora ou inspiração distante, mas literalmente. O Mistério de Marie Rogêt não é só um conto policial — é o momento em que Poe olha para um assassinato verdadeiro, estampado nos jornais, e pensa: “Tenho certeza que consigo resolver isso aí melhor do que a polícia.”

Spoiler: não conseguiu.

O caso real era o de Mary Rogers, jovem funcionária de uma tabacaria em Nova York. Quando ela desapareceu em 1841 e apareceu morta dias depois no rio Hudson, a imprensa norte- americana entrou em frenesi. Cada jornal tinha sua teoria, cada colunista um palpite, e todos juntos produziram uma sopa de versões contraditórias, sensacionalismo barato e especulação moral — algo que Poe, jornalista experiente, conhecia muito bem. Imaginando ser capaz de solucionar o problema, o autor pegou o caso, mudou o cenário para Paris (porque nada diz “não me processe” como trocar Nova York por França), rebatizou Mary Rogers como Marie Rogêt e colocou seu álter ego intelectual, o detetive C. Auguste Dupin, para ler jornais com atenção obsessiva e desvendar o enigma de uma vez por todas. Aqui, a ideia não era escrever uma dramatização sobre o crime, mas sim chegar à solução correta.

O problema é que a realidade não respeita cronogramas editoriais. Enquanto Poe publicava o conto em partes, novas informações sobre o caso real surgiam; especialmente a hipótese de que Mary Rogers teria morrido após um aborto clandestino malsucedido, algo que desmontava boa parte das conclusões que Poe vinha cuidadosamente construindo. Resultado: O Mistério de Marie Rogêt termina de maneira extremamente anticlimática e – que me perdoem os fanboys de Poe – constrangedora.

Não há a grande revelação, perseguição ao culpado ou as tão famosas tiradas irônicas de Dupin à incapacidade policial, que Poe parecia se divertir bastante escrevendo. Em vez disso, o autor basicamente pisa no freio e corta o clímax. Quando Dupin e seus colegas parecem prestes a rumar em direção à conclusão, o texto corta para uma nota editorial, da época. Até hoje, leitores chegam ao fim do conto com a sensação de que faltou uma página (eu pelo menos fiquei, quando terminei de ler o conto no fim de semana passado e comecei a investigar o que diabos havia acontecido para terminar daquela forma.)

Com toda certeza, isso não é um atestado de fracasso. Esse é um conto sobre um crime, mas também sobre os limites da razão. Serve como uma espécie de monumento para a arrogância do intelecto. São diversos os estudos produzidos sobre O Mistério de Marie Rogêt, demonstrando o valor acadêmico da obra. Além disso, é o fucking Edgar Alan Poe escrevendo, então o material obviamente entretém. No fim das contas, Poe não errou a solução por burrice, mas excesso de confiança. O que, convenhamos, é tão poético que só ele mesmo para errar dessa forma.

Felizmente, logo depois dessa tentativa de bancar o Scooby Doo, Poe retornou aos contos investigativos ficcionais, produzindo A Carta Roubada, que particularmente é meu conto favorito de todos de Dupin.

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