Lobisomens e vampiros em entrevista com as estrelas de Hemlock Grove

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Hemlock Grove - SP (2014)
Produtor e atrizes tiveram uma conversa descontraída com a imprensa.

por Silvana Perez

No último dia 20, Famke Janssen, Maddie Brewer e Eli Roth estiveram em São Paulo para divulgar a segunda temporada de Hemlock Grove, série original do Netflix. O Boca do Inferno foi convidado para participar das mesas-redondas com as atrizes e o produtor, e o resultado (com spoilers de Hemlock Grove e Orange is the New Black) você confere agora!

Famke Janssen

Hemlock Grove - Famke Janssen (2014)

Janssen interpreta Olivia Godfrey, a fria matriarca da família Godfrey e uma upir. A atriz falou sobre sua personagem, sua carreira, os filmes que dirigiu e pretende dirigir e a posição das mulheres em Hollywood.

A personalidade de Olivia mudou muito entre a primeira e a segunda temporadas de Hemlock Grove. Até mesmo as cores de suas roupas mostraram isso. O que você pode falar sobre a personagem?

Eu gosto da forma como Olivia se desenvolveu e como, talvez merecidamente, terminou em um saco para cadáveres no fim da primeira temporada. Na época ela parece fria e calculista, mas é possível que a Olivia da segunda temporada é a verdadeira e sua atitude anterior era apenas um mecanismo de defesa. É muito divertido interpretar um personagem racional, que nunca teve emoções antes, e agora, pela primeira vez que ela as experimenta, ela fica impressionada, sem saber como lidar com isso. Ainda assim, há momentos em que o lado má de Olivia reaparece. Talvez ela não consiga evitar.

O que você procura em um personagem? Você parece muito atraída por mulheres fortes e independentes.

Eu interpretei todo tipo de personagem nos cerca de 20 anos em que venho atuando. Mas acho que, olhando para mim, dificilmente alguém me contrataria para ser uma garota comum, uma dona de casa. Mas eu acabei de terminar um filme em que interpreto a mãe de uma criança autista. Ela ainda é forte, mas é um tipo de personagem bem diferente. É legal encontrar diferentes personagens e ver quais qualidades minhas posso acrescentar a eles, e há personagens como a Olivia, que não são nada como eu.

Parece que você sempre escolhe os projetos mais interessantes, nada que seja tedioso.

O primeiro papel grande que tive foi em Goldeneye, e era uma personagem tão ousada, e acho que isso deu o tom para tudo o que eu fiz depois, todo mundo pensou “ela pode ser meio louca, o que mais podemos oferecer”?

Mas isso é algo que você gosta de fazer?

Eu gosto. Faço vários filmes independentes, mas vocês provavelmente não os assistem por aqui.

Entre grandes projetos de Hollywood e filmes independentes, o que você procura em cada um?

Eu tento fazer ambos. Eu adoro fazer filmes independentes porque, normalmente, os personagens que interpreto são mais desafiadores, são diferentes dos que interpreto nos grandes estúdios. Eu gosto de apoiar cineastas independentes e gosto da natureza pequena desses filmes. Mas nos grandes filmes, como em X-Men, você tem todos esses eventos acontecendo ao seu redor, é espetacular. Então é legal equilibrar as duas coisas.

Depois de Goldeneye, você passou a selecionar os papéis que aceitaria para não ser encaixada em um rótulo específico. Por quanto tempo você teve que fazer isso?

Ainda faço, porque acho que Hollywood tende a rotular todo mundo. São decisões que você deve tomar de forma muito consciente. Nos grandes estúdios há um tipo específico de personagem que me chamam para interpretar. Em filmes independentes, eu faço algo bem diferente.

Que tipo de personagem você acha que os grandes estúdios veem para você?

Personagens fortes, sci-fi, alien, mulheres loucas, fênix (risos). Personagens maiores que a vida, talvez por eu ser tão alta.

O que você acha do formato Netflix, em que não há um piloto, toda a temporada é gravada de uma vez? Isso influencia seu trabalho?

Não é tão diferente de fazer um filme. Nós gravamos treze episódios na primeira temporada e dez na segunda, foram entre quatro e seis meses de filmagens, e fazer um filme leva mais ou menos o mesmo tempo. A única diferença é que em um filme você recebe o roteiro inteiro antecipadamente, você sabe exatamente o que está fazendo e grava uma hora e meia em seis meses, e nós gravamos treze horas nesse tempo. É muito mais rápido, e você não recebe o roteiro do episódio seguinte enquanto não terminar de filmar um episódio. Em termos de preparação não há diferença, é como se eu fizesse um filme de dez horas.

Outra diferença do Netflix é que não há tanta interferência de executivos. Isso afeta os atores durantes as filmagens?

Eu já estive em programas ou filmes em que havia mais interferência do estúdio, e eu sempre prefiro quando não é o caso. O artista deve ter liberdade para se expressar. É claro que não se pode fazer o que bem entender, há showrunners e produtores nos orientando, mas é um ambiente de trabalho mais calmo.

Como foi a experiência de dirigir seu primeiro filme? Isso é algo que você planeja fazer por muito tempo?

Sim. Há cerca de quinze anos eu fiz um curta que dirigi, produzi e, um grande erro, estrelei.

Por que?

Quando você está na sala de edição fica se vendo várias e várias vezes e tudo o que você quer fazer é te tirar das cenas. Não era bem o que eu queria fazer. Eu queria escrever, dirigir e produzir, mas estrelar meu próprio filme não foi tão interessante para mim. É mais difícil para mulheres, porque nós temos que passar muito tempo fazendo o cabelo e a maquiagem, longe do set. Então, quando eu dirigi meu longa metragem, não quis estrelar, quis estar todo o tempo no set e não perder tempo no trailer de maquiagem, me preocupando com o figurino e com o que quer que fosse que me mantivesse afastada do set. Essa foi uma das melhores e mais difíceis experiências que já tive, foi uma das experiências em que mais aprendi, foi difícil, desafiador, e eu aprendi porque também era produtora do filme. Aprendi que tempo é dinheiro, e isso nunca me deixou e levo a todo projeto de que participo. Em João e Maria: Caçadores de Bruxas, minha maquiagem levava quatro horas para ficar pronta, e eu me preocupava com o tempo e com a equipe estar me esperando para começar a gravar. A todo momento tínhamos que parar para consertar a maquiagem e eu ficava ansiosa o tempo todo, o que não é saudável. Então eu tive que começar a separar as coisas: quando estou atuando, levo o tempo que for necessário, diferente de quando estou produzindo ou dirigindo.

Você está otimista para uma terceira temporada de Hemlock Grove?

Tudo depende da história que eles criarem. Vocês puderam ver a grande diferença entre a primeira e a segunda temporadas, então qualquer coisa pode acontecer. Se os roteiros forem bons e nós tivermos uma boa equipe, então, sim, será ótimo.

Você disse que vai dirigir um segundo filme. O que você pode dizer sobre o projeto?

Eu estou adaptando um livro, é isso que quero fazer em seguida. Eu venho trabalhando nisso há algum tempo e o projeto está prestes a ser apresentado a produtores. É um processo longo, toma bastante tempo.

Que tipo de diretora é você?

Do tipo com que eu não gostaria de trabalhar (risos). Quando entro no set como atriz, gosto de fazer exatamente o que eu quero fazer. É meu personagem e são minhas ideias. Como diretora, eu já tenho tudo em mente porque sou uma controladora.

Você aprendeu algo novo sobre si com essa experiência?

Não, eu já sabia que era uma controladora… (risos)

Você disse que não usa redes sociais. Há alguma pressão para que você passe a usar essas mídias?

Até agora, não. Talvez, quando eu dirigir meu próximo filme eu fique desesperada o suficiente para abrir uma conta para promover o projeto, mas agora, não. Eu acho que há uma linha muito tênue entre se auto-promover e ser narcisista nas redes sociais, e eu não quero encorajar isso.

Na série, seu personagem não envelhece. Como você lida com a pressão de Hollywood sobre o envelhecimento?

Isso é algo que não afeta apenas Hollywood. Você estabelece um exemplo para as mulheres. Há muita pressão sobre as mulheres em nossa sociedade para que elas sejam bonitas, estejam em forma, saudáveis etc., e essa não é uma boa forma de viver. Para os homens é diferente, vocês não sentem essa pressão todo o tempo, não são tão julgados pela sociedade. Então não é algo saudável, e eu gostaria que houvesse uma forma de mudar isso. Como mulher, eu não sou guiada apenas pela forma como envelheço, bem ou mal, quantas cirurgias plásticas eu faço ou se alguém ainda me quer ou não em seus filmes por causa da minha aparência. É por isso que eu escrevo e dirijo. As mulheres têm muitas capacidades, não se deve focar apenas na nossa aparência.

Maddie Brewer

Hemlock Grove - Maddie Brewer (2014)

Miranda Cates é apenas o segundo papel de Maddie Brewer na televisão. Antes, a atriz participou da bem sucedida Orange is the New Black, também do Netflix. Descontraída, ela confessou ter vontade de experimentar caipirinha e pão de queijo.

Como sua personagem de Orange is the New Black se relaciona com a de Hemlock Grove?

As duas são bem parecidas comigo, as duas são amáveis, simpáticas, apaixonadas. O que eu gostei nas duas personagens foi que pude trazer a elas uma parte de mim. Antes de interpretar Tricia (em Orange) eu me orgulhava de ser meio durona, e a personagem era assim. Era um espelho para mim. Já a Miranda é mais aberta e sente amor pelos dois meninos. Sem Tricia, eu não teria conseguido interpretar Miranda.

Foi uma coincidência você estar em outra produção do Netflix?

Sim, eu participei de audições por oito meses depois de terminar Orange is the New Black e a série ainda não tinha estreado, então ninguém sabia do que se tratava ou quem eu era. Eu fazia de cinco a oito audições por semana e trabalhava como garçonete. Eles estavam procurando por Miranda havia cinco meses, e não encontravam ninguém que combinasse com o papel ou que aceitasse fazer cenas de nudez. Eu estava doente quando meu agente me ligou para avisar sobre a audição de Hemlock Grove, e precisei ir para o Brooklyn no dia seguinte. A audição foi muito boa, eu gostei da personagem, sabia alguma coisa sobre a série. Mais tarde eu estava no trabalho e meu agente me enviou uma mensagem avisando que eu tinha passado no teste. Na mesma hora aposentei o avental.

Você já pensou em fazer comédia?

Não. As pessoas riem porque eu sou meio boba, mas acho que eu ficaria muito nervosa se fizesse algo cômico, porque eu não sou tão engraçada. Eu não tenho o timing cômico. Mas não sei, talvez eu tente algum dia.

Você esteve em Orange is the New Black e agora está em Hemlock Grove. Você é uma fã de séries?

Todo o dinheiro que eu recebo do Netflix volta para eles, porque eu assisto tudo. Depois que Breaking Bad acabou eu assisti a toda a série e adorei. Eu gostava muito de Dexter, até que ficou meio estranho. Mas eu nunca me foquei apenas uma série, eu gosto de procurar e ver o que está passando. Gosto de The Walking Dead. Não assisti Game of Thrones porque estou lendo os livros. E eu adoro Family Guy. Algumas das piadas me deixam um pouco nervosa, mas é assim que funciona, não há o que fazer.

Quanto tempo levou para você perceber que estava em duas produções grandes, com fãs a seguindo online, talvez até a perseguindo? Como foi?

A ficha ainda não caiu. Eu vou ao Emmy. Como assim? Mas eu tenho alguns seguidores no Twitter, inclusive uma fã brasileira que me envia tweets todos os dias. E tipo… eu sou só uma pessoa. Na maior parte do tempo eu não estou fazendo nada interessante. Algumas pessoas acham que eu sou uma super estrela, e isso é assustador porque as pessoas me tomam como modelo.

Como foi interpretar uma pessoa normal em Hemlock Grove? Você ficou decepcionada por não interpretar um monstro?

Quando eu entrei na série, os produtores me disseram que a Miranda estava envolvida em coisas estranhas, mas que ela não era um ser sobrenatural. Eu queria que a Miranda acabasse se transformando em um híbrido de lobisomem e vampiro e se tornasse a personagem mais legal da série, mas isso não aconteceu. Eu acho que em programas sobrenaturais e programas de TV em geral, é ficção, fantasia, e você acaba ficando confortável com a ideia de que essas pessoas são vampiros e lobisomens, achando que é algo normal. E a Miranda está lá para lembrar as pessoas de que não é normal. É legal chegar como uma novata na segunda temporada de uma série que já está estabelecida e interpretar a novata da cidade na série. Tudo o que acontece nos primeiros episódios era eu estando totalmente perdida e tentando me adaptar ao novo ambiente.

E o que você acha de gravar uma terceira temporada?

Eu adoraria fazer uma terceira temporada, adoraria interpretar uma personagem que dure mais que uma temporada, porque eu nunca fiz isso. Eu estou animada para ver o que acontece, porque aquele final foi tão ridículo. Eu não sei se a Miranda está viva ou não, mas eu espero que ela continue e tenha uma boa vida.

Os espectadores devem ser constantemente lembrados que aquele ambiente é assustador e bizarro. Você está consciente de que você funciona como os olhos do espectador às vezes?

Eu acho que o que eu estava fazendo era tentar lidar com o que eu recebi. A Miranda era uma forasteira, essa não era sua cidade, e é ela quem faz os espectadores perceberem que a situação em que ela se encontra é bizarra. Eu só percebi isso depois porque, no set, eu estava muito concentrada em estar surtando… e cuidar do bebê.

Você é uma jovem atriz, passando por várias audições. Como funciona hoje em dia? Nós lemos sobre isso, há histórias de sexismo…

Até agora, eu só tive ótimas experiências, nunca aconteceu nada negativo. A única coisa desagradável é estar em uma sala de espera com várias outras meninas tentando o mesmo papel e com aparências parecidas. No início eu odiava audições. Minha audição para Orange is the New Black foi a primeira para a TV. Até então, eu fiz quinze anos de teatro musical, então não entendia esse novo mundo. Foi assustador, mas acabou dando certo.

Eli Roth

Hemlock Grove - Eli Roth (2014)

Diretor de filmes como Cabana do Inferno e O Albergue, Eli Roth dispensa apresentações. Produtor de Hemlock Grove, ele havia estado no Brasil pela última vez em 2005, quando estava promovendo O Albergue. Dessa vez, havia acabado de voltar do Chile, onde estava gravando seu novo longa, Knock, Knock.

O que você pode dizer sobre a segunda temporada de Hemlock Grove?

Estou muito animado com ela. Ficamos muito animados com a resposta à primeira temporada, principalmente no Brasil e na América Latina. Meus filmes sempre se saíram bem aqui, é um território incrível para o terror. Na primeira temporada de Hemlock Grove nós estávamos adaptando um livro, e precisávamos encaixá-lo em treze episódios. Na segunda temporada, tivemos a vantagem de olhar para trás e ver o que funcionou e o que tínhamos que mudar. Queríamos fazer uma série melhor, mais enxuta, com mais sustos e reviravoltas. Nós já conhecíamos nosso elenco e nossos personagens e não estávamos presos a um livro, então podíamos seguir em qualquer direção. Eu estou muito orgulhoso. A série é uma metáfora para demônios interiores e o que torna alguém um monstro. Eu sempre a vi como uma metáfora para o vício em drogas. Peter era tão cuidadoso ao esconder sua transformação, se transformar apenas na lua cheia e longe das outras pessoas. Agora, ele se tornou tão desleixado que se transforma na frente de desconhecidos. Então, eu queria ver o que aconteceria se ele se transformasse na lua errada, se ele forçasse uma transformação que não deveria acontecer, que vai contra a natureza. Isso começa a destruí-lo, a deixá-lo louco, mas ele continua encontrando situações em que sente que não tem outra escolha e deve fazê-lo, mas isso o deixa cada vez mais louco. Quanto ao Roman, agora que ele se transformou, começou a sentir a necessidade de sangue e o consegue através de animais ou sanguessugas antes de começar a atacar humanos. E ele odeia isso, ele se sente enojado, faria qualquer coisa para se livrar disso. Shelley ainda está viva e quer se livrar de seu corpo e está transtornada por isso. É interessante porque todos têm dons, mas todos lutam contra eles e tentam mudar algo que odeiam em si mesmos. Na primeira temporada tratamos de quem ou o que matou, era isso que você queria saber. Agora você tem toda uma nova mitologia, uma nova força, e eu estou muito orgulhoso.

É divertido ou aterrorizante não ter um livro no qual se basear para a segunda temporada?

É divertido. Nós amamos o livro, mas sentimos que, na primeira temporada, estávamos nos estendendo para terminar os episódios em determinado ponto da história, e a série terminou onde o livro terminou. Na segunda temporada nós estávamos livres, e contamos com o showrunner Chic Eglee, que já trabalhou em The Walking Dead e com James Cameron, e ele abordou o projeto como um fã. Ele assistiu à primeira temporada em um fim de semana e adorou. Então ele disse “como fã, é isso o que eu quero ver”, e trouxe uma visão e uma mitologia totalmente diferentes. Além disso, você pode voltar e assistir à primeira temporada e ver o que funcionou ou não. Nós também tivemos diretores sensacionais na segunda temporada, como Vincenzo Natali, de Cubo e Splice. E nós sempre olhamos para a segunda temporada como um longo filme, sempre pensamos “qual é o filme de dez horas mais incrível que podemos fazer?”.

Vocês receberam críticas ruins na primeira temporada, e na segunda foi um pouco melhor, mas existe essa dicotomia: mesmo se as críticas não forem tão boas, a resposta do público foi ótima. O que você acha que aconteceu?

O trabalho dos críticos é criticar. Eles estão lá para destruir, e eles querem destruir qualquer coisa que não se encaixe em seus padrões. Essa não é uma série feita para agradar um crítico de 50 anos, mas sim para pessoas que amam uma boa história e amam televisão. Eu recebo críticas terríveis. O Albergue dividiu as opiniões dos críticos: alguns acham que é o pior filme do ano, outros que é o melhor filme da década. O que importa para mim é o público, o que importa é que as pessoas ainda falam sobre o filme e ele ainda passa na TV. O tempo é o único crítico com que eu me importo. Daqui dez anos, as pessoas ainda estarão assistindo e falando sobre isso. Quando você pensa, por exemplo, na primeira temporada de Breaking Bad, alguém sabe o que os críticos falaram sobre ela? Ninguém sabe porque ninguém se importa. Os críticos vão atacar a série, e isso não vai afetar a decisão dos fãs de assisti-la. Quando as pessoas se sentam para assistir Hemlock Grove, não estão fazendo comparações; elas só querem assistir a uma boa história. E é por isso que eu faço filmes: para fãs e para contar uma boa história. Então, nós não estamos fazendo um programa para agradar aos críticos, mas sim ao público.

O Netflix é uma base firme para criadores. Na primeira temporada você teve um orçamento grande e não houve tanta interferência, não houve sequer um piloto. Como é criar dessa forma?

Foi incrível. Faz anos que as pessoas me pedem para fazer terror para a televisão, mas o problema é que eu sempre achei que me diriam “temos que ter estes atores, estes intervalos comerciais, você não pode matar este personagem, é por isso que as pessoas vão assistir”, e eu não sei trabalhar assim. O que faz com que televisão funcione é que as pessoas amam os personagens, e o que faz com que o horror funcione é que as pessoas podem morrer a qualquer momento. Então, como resolver isso? A solução foi o Netflix querer fazer a série como um filme de 13 horas e lançar todos os episódios de uma vez, e eu adorei a ideia. É uma mistura perfeita de criatividade e tecnologia. Custa tanto para lançar um filme, e se alguém surge com uma ideia diferente, é mandada embora. Eles querem continuar fazendo sempre a mesma coisa, e às vezes o resultado é ótimo, outras não. Há ótimos filmes baseados em quadrinhos, e há péssimos filmes baseados em quadrinhos, mas, se é isso o que está funcionando, é isso o que eles vão fazer. Mas na televisão atual se vê todo tipo de programas interessantes de terror, como The Strain, American Horror Story, Bates Motel, e muitos deles estão no Netflix. E eu expliquei ao Netflix como a nossa série se diferencia de Crepúsculo ou True Blood: ela se parece mais com Twin Peaks, ambientada em um universo estranho. Eu queria fazer uma série em que um vampiro dá a uma garota o melhor orgasmo de sua vida no banheiro da escola, em troca de poder consumir seu sangue menstrual, e eles disseram “ok, ótimo”. Quando o lobisomem se transforma, eu queria que fosse como quando você está na quarta série e os professores mostram o vídeo de um parto e toda a classe está gritando, todas as meninas dizem que nunca vão ter filhos. Era isso o que eu queria, que as pessoas pensassem “então é assim que funciona”, e nós fizemos o lobo comer a placenta, e foi ótimo ter o suporte do Netflix. Eles nos disseram para continuar ousando na segunda temporada, para continuar criando momentos que todo mundo vai comentar. Tem sido muito bom fazer parte disso, e a resposta dos fãs tem sido ótima, nós nunca conseguiríamos se as pessoas não estivessem assistindo.

Você já pensou em transformar um de seus filmes em uma série? Talvez uma antologia?

As pessoas já me pediram por um seriado de O Albergue. Agora nós estamos na era de ouro do horror na televisão, várias produções estão sendo repensadas. Poderia haver uma série de O Último Exorcismo, ou uma de O Albergue, mas eu só faria se surgisse uma ótima ideia. Eu adoro a ideia de séries de terror que não são ligadas aos filmes. Veremos! The Green Inferno, Canibais, eu adoraria fazer. O filme será lançado no Brasil no dia 25 de setembro, nós o filmamos no trecho peruano da Amazônia e foi incrível. Eu acho que os fãs de terror aqui irão adorar, porque o filme trata de gringos que querem salvar o planeta e adoram usar hashtags e tweets, eles protestam e salvam os últimos membros de uma tribo que querem viver isolados. Os americanos os ajudam, mas, quando estão indo embora, seu avião cai e as pessoas que eles salvaram pensam que eles são invasores e os comem. Eu adoro fazer filmes, mas a televisão tem sido um ótimo lugar atualmente.

Você está conversando com o Netflix sobre uma terceira temporada?

Eu adoraria… mas depende de vocês. Se blogs, jornais e fãs nos apoiarem…

Quais são seus próximos projetos?

Eu acabo de terminar de gravar meu novo filme, Knock, Knock, com Lorenza Izzo, Ana de Armas e Keanu Reeves. Nós gravamos no Chile e agora voltamos para Los Angeles. Eu adotei filmar na América do Sul, é muito mais divertido do que nos Estados Unidos. Então agora eu estou finalizando a pós-produção de Knock, Knock e depois vou começar a promover Canibais.

O Keanu Reeves também está fazendo TV agora. Vocês conversaram sobre isso?

Sim, nós conversamos um pouco sobre isso. Todo mundo está trabalhando com TV agora, é incrível como o estigma desapareceu rapidamente. Agora atores de cinema estão sendo escalados para fazerem séries de televisão. É muito bom o Netflix ter entrado nesse mercado. As pessoas estão tentando combater a pirataria, e com a televisão todos os melhores roteiristas, todo mundo quer ter programas de televisão. Esta é a forma mais segura de garantir lucros, a audiência é global. Em todo lugar é possível ver alguém com uma camiseta do Heisenberg.

Você acha que a forma de negócios dos grandes estúdios deve mudar? Há filmes que custam o mesmo que o PIB de um país pequeno… Isso é sustentável?

Não é sustentável. Você tem um sucesso, um Guardiões da Galáxia, e eles dizem que um sucesso paga por todo o resto, mas estúdios perdem dinheiro todos os anos. Ter um estúdio não é mais uma fonte de lucro. Parece que é uma máquina grande demais para falhar, o público quer continuar tendo seu entretenimento, faz parte da cultura, mas isso é parte do motivo de tudo permanecer igual. As pessoas têm tanto medo de falhar, que precisam colocar esse ator, ter essa história, essa luta, esse final feliz, essa é a fórmula. Eu fiz Canibais com 5 milhões de dólares, e as pessoas fazem filmes com 200 milhões de dólares. É animador fazer algo diferente e que funcione, mas está ficando mais difícil. Já é bem mais difícil do que na época de O Albergue.

Como você contrata o Keanu Reeves com um baixo orçamento?

Você o coloca como produtor. Em Knock, Knock, nós colocamos Keanu como produtor e as gravações foram rápidas, duraram apenas um mês, ele não precisou de muito tempo para poder voltar aos filmes com um orçamento maior. Basicamente, ele é o produtor e nós dividimos o filme.

Você dirigiu o primeiro episódio de Hemlock Grove. Foi muito diferente de dirigir filmes como Cabana do Inferno e O Albergue?

Muito diferente. Eu percebi que cinema e televisão são mídias completamente diferentes. Eu queria trabalhar com televisão, vou trabalhar novamente, agora que entendo como funciona, mas, quando você dirige um filme, é um deus, tem total controle. Eu faço meus filmes sem interferências e tenho sorte em fazê-lo, e é por isso que faço filmes de baixo orçamento, porque assim tenho o controle de tudo. Hemlock Grove foi uma experiência ótima, mas há interferência do estúdio, do Netflix, de toda parte. Com frequência eu fui a voz principal, e pedi que confiassem em mim. Foi ótimo desenhar o universo da série, decidir qual seria a aparência de Roman, escolher os atores e tudo isso. Mas eu estou trabalhando em uma peça de um quebra-cabeças. Ao chegar no sétimo episódio, havia coisas que não ficaram claras porque não foram bem preparadas no primeiro episódio, então tivemos que voltar e regravar. Essa foi a vantagem de gravar todos os episódios antes que eles fossem ao ar, nós podíamos voltar e mudar alguma coisa. Então, muito do episódio não foram coisas que eu gravei, e outras cenas que eu gravei acabaram indo para o segundo episódio, ou para o nono, e tudo bem, porque não se trata do episódio de Eli Roth para a série, mas sim de fazer com que as pessoas entendam a história. Se houver confusão, é aí que devemos fazer os ajustes. Agora, é divertido assistir a segunda temporada, em que não dirigi nenhum dos episódios, mas eu posso ver que eles estão tentando superar o que eu fiz e estão utilizando o mesmo estilo e tom. Foi bom ver a resposta dos fãs para o mundo que eu quis criar. Quando você vai para Hemlock Grove, como quando eu assisto a Twin Peaks, você está entrando nesse mundo em que há coisas de que você pode gostar e coisas que pode odiar, alguns personagens serão seus favoritos, outros serão chatos, mas isso proporcionará uma experiência de que eu acho que vocês vão gostar, e é disso que tenho orgulho.

A segunda temporada de Hemlock Grove já está disponível na íntegra no Netflix. E você, o que achou da série?

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