Horror Sugestivo: O Medo (quase) Invisível

O fã de filmes de terror contemporâneos está acostumado com excesso de informações nas obras do gênero exibidas em salas multiplex. Salvo pouquíssimas exceções, estes filmes têm no excesso sua força narrativa, seja na “velocidade” da trama, com uma edição com cenas cada vez mais curtas, assim como no som, com sustos provenientes muito mais do barulho do que da construção do clima. Além disso, os efeitos especiais passaram a ditar a regra em filmes de terror, principalmente os de altos orçamentos.

Infelizmente todo este excesso pode acabar comprometendo o resultado final da película, que acaba dando susto muito mais por questões de edição, como a inserção de uma alta nota musical ou um movimento de câmera inesperado. Esse mesmo público deve se perguntar como alguns filmes considerados clássicos figuram nas listas dos grandes filmes de terror se não possuem estes elementos.

A verdade é que alguns títulos do passado trabalham muito mais com um medo construído através da sugestão. Um fã defensor do excesso nas produções atuais pode alegar falta de verba e ou tecnologia para criar certas cenas. A defesa se dá na criatividade que alguns diretores tiveram para contar suas tramas em uma época onde a computação gráfica, o CGI e a Industrial Light and Magic de George Lucas não existiam.

A Bruxa de Blair (1999)
A Bruxa de Blair (1999)

De uma forma bem clara, estes diretores do passado pareciam saber qual era um dos principais elementos capaz de deixar as plateias de cabelo em pé: o medo do escuro. A maioria de filmes antigos, das décadas de 1930, 1940, 1950 e 1960, trazia histórias envoltas em mistérios. Muitas vezes a ideia de manifestação sobrenatural vinha muito mais através de uma sugestão. Para este público, o Boca do Inferno preparou uma lista de cinco filmes antigos onde o medo é construído muito mais pela ausência do que pela presença de fantasmas ou monstros.

Nosferatu (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens, 1922) – Este filme é mudo e preto e branco. Ou seja, já isso já serve para assustar plateias acostumadas com filmes repletos de efeitos especiais e inserções sonoras de minuto em minuto. Aqui temos o medo de um ser diferente da normalidade, envolto por uma áurea maligna e capaz de levar morte por onde chega. Esqueça o charme de Drácula lançado na década de 1930, o vampiro aqui é feio e chega a parecer um rato. Perto de completar 100 anos desde o seu lançamento, Nosferatu continua forte na sua proposta de criar medo em um ambiente orquestrado pela angustia.

Nosferatu (1922) (5)

O Vampiro (Vampyr, 1932) – Os primeiros filmes de terror costumavam trazer histórias com a representação de um mundo diferente do real. Não necessariamente algo feio, mas sim que fugisse da normalidade. Este é o universo de O Vampiro, onde um jovem viajante chamado Allan Gray (Julian West) estuda sobre a evolução do mal e dos vampiros dos séculos passados. Por causa da sua obsessão com aparições sobrenaturais, ele visita uma antiga pousada e encontra diversas evidências de que ali existem vampiros.

Zumbi Branco (White Zombie, 1932) – Esta dica vai para os fãs de The Walking Dead ou dos zumbis super atletas de Madrugada dos Mortos. Considerado o primeiro filme com zumbis, esta película de 1932 acompanha as desventuras de Neil (John Harron) e Madeleine (Madge Bellamy), um jovem casal apaixonado que viaja até o Haiti para visitar Beaumont (Robert Frazer), um amigo que conheceram num trem e que ofereceu sua mansão para a realização do matrimônio. Mal sabem eles que Beaumont está apaixonado por Madeleine e que resolveu pedir a ajuda para conquistar a garota com Legendre (Bela Lugosi), um feiticeiro que revive os mortos.

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Os Inocentes (The Innocents, 1961) – Deborar Kerr interpreta uma babá inglesa que vai para uma propriedade no campo cuidar dos sobrinhos de um homem rico. Não demora muito para Kerr perceber que existe algo, ou alguém, de estranho na casa. Filmes de terror com criança geralmente são assustadores. Agora imagine em um castelo no meio do campo na Inglaterra? Aqui até temos alguns fantasmas, mas eles aparecem por alguns segundos e geralmente no meio de sombras ou na escuridão.

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Desafio ao Além (The Hauting, 1963) – Antes de encantar o mundo com A Noviça Rebelde, o diretor Robert Wise rodou um dos mais importantes filmes de casas assombradas da história. Desafio ao Além tem um roteiro até sem grandes inovações ao apresentar um grupo de estranhos que vai passar uma noite em uma casa supostamente assombrada. Mas o mérito do filme está em como apresentar estas assombrações. No caso de Wise, ele optou pelo som. Não vemos nenhum fantasma, mas escutamos diversos seres sobrenaturais pelos longos e escuros corredores do antigo casarão.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

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