Zumbi Branco (1932)

Zumbi Branco (1932)

Zumbi Branco
Original:White Zombie
Ano:1932•País:EUA
Direção:Victor Halperin
Roteiro:Garnett Weston, William Seabrook
Produção:Edward Halperin, Phil Goldstone
Elenco:Bela Lugosi, Madge Bellamy, Joseph Cawthorn, Robert Frazer, John Harron, Brandon Hurst, George Burr Macannan, Frederick Peters, Annette Stone, John Printz, Dan Crimmins, Claude Morgan, John Fergusson, Velma Gresham

Zumbis. Pessoas mortas que se levantam de suas tumbas para devorar a carne (ou cérebro) dos vivos, causando caos e destruição à humanidade e liderando o Apocalipse. A única maneira de matá-los é destruindo o cérebro ou separando o cérebro da cabeça.

Agora esqueça tudo isso acima e qualquer outra coisa que tenha aprendido sobre zumbis assistindo aos filmes de Romero, Fulci e afins. Esqueça o apocalipse, cidades destruídas e o proverbial tiro na testa. Esqueça os efeitos sangrentos, corpos putrefatos e pessoas mordidas se transformando lentamente em mortos cambaleantes sedentos por carne humana. Esqueça isso por um instante e vamos voltar ao ano de 1932, quando Bela Lugosi estrelou o filme Zumbi Branco.

Ao longo da história do cinema, diversos atores se destacaram no gênero horror. A lista é imensa, mas se tivéssemos que fazer um top 5 de astros do horror clássico, poderíamos citar Bela Lugosi, Boris Karloff, Christopher Lee, Peter Cushing e Vincent Price. É claro que há vários outros (Claude Rains, Lon Chaney, Basil Rathbone, só para citar alguns), mas creio que estas são as maiores lendas.

Pessoalmente, sou fã de todos estes, mas há um que sempre me fascinou mais: o ator húngaro Béla Ferenc Dezső Blaskó, mais conhecido pelo nome artístico de Bela Lugosi. Bela, sem dúvida, é o exemplo mais injustiçado da lista acima. Vindo do teatro húngaro, ele chegou nos EUA sem saber falar uma palavra de inglês. Fez várias peças decorando seus papéis foneticamente até que caiu no seu colo o papel do Conde Drácula. Dizem as más línguas que ele só foi selecionado porque a companhia teatral estava sem grana e precisou contratar um desconhecido. Seja como for, não haveria ator melhor. Com seu acentuado sotaque europeu e jeito afetado e deliciosamente artificial, Bela era Drácula.

Quando a peça migrou para o cinema, o resultado não foi diferente. Ironicamente, Bela a princípio não foi chamado para o filme, cujo papel foi oferecido para Lon Chaney. Com a morte de Chaney, entretanto, Bela chegou à tela em sua performance clássica no primeiro filme de terror falado, Drácula (1931), de Todd Browning.

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Infelizmente, Bela nunca alcançou o merecido estrelato por causa do elemento que fazia seu Drácula tão famoso: o forte sotaque húngaro. Por mais que tentasse, ele não era capaz de se livrar do maldito sotaque, o que prejudicou sua carreira, fazendo com que fosse aprisionado para sempre no papel de nobre estrangeiro ou cigano, até que fosse descoberto por Ed Wood e transformado em astro trash nos filmes Glen ou Glenda, A Noiva do Monstro e o infame Plan 9 from Outer Space.

Apesar disso, Bela ficou para sempre conhecido como Drácula, o que não deixa de ser uma injustiça, pois ele entregou diversos outros papéis marcantes, como o corcunda Ygor (O Filho de Frankenstein, O Fantasma de Frankenstein), o cigano Bela (O Lobisomem), o Dr. Vitus Werdergast (O Gato Preto), o Dr. Eric Vornoff (A Noiva do Monstro) e o feiticeiro Legendre em Zumbi Branco, o alvo desta análise.

O ano era 1932, e Bela estava em pleno vapor. Seu Drácula era um sucesso e ele era um astro do cinema de horror. Nesta época ele estrelou filmes da Universal como Filho de Frankenstein, O Corvo e Os Crimes da Rua Morgue. Foi também quando ele estrelou Zumbi Branco, um filme independente dirigido por Victor Halperin.

A trama é a seguinte: Neil (John Harron) e Madeleine (Madge Bellamy) são um jovem casal apaixonado que viaja até o Haiti para visitar Beaumont (Robert Frazer), um amigo que conheceram num trem e que ofereceu sua mansão para a realização do matrimônio. Mal sabem eles que Beaumont está apaixonado por Madeleine e que resolveu pedir a ajuda para conquistar a garota com Legendre (Lugosi), um feiticeiro que revive os mortos para ter mão de obra em sua fábrica.

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Legendre, usando de um cachecol de Madeleine, faz um feitiço vudu, matando e trazendo-a de volta dos mortos para os braços de Beaumont. O problema é que ela volta como uma zumbi (o Zumbi Branco do título, no caso uma zumbi branca), incapaz de sorrir, chorar ou demonstrar qualquer sentimento. Enquanto isso, Neil se transformou num bêbado amargurado, e quando descobre que sua amada pode estar viva, se volta contra Beaumont e Legendre.

Visto hoje em dia o filme envelheceu bastante, e nem poderia ser diferente para uma produção de quase 80 anos. Os zumbis, por exemplo, não representam grande ameaça, sendo apenas escravos de Legendre, sendo que nem ao menos um comportamento muito agressivo têm. Mas ainda assim ele traz todo aquele charme das produções em preto e branco estrelados por atores clássicos.

Tecnicamente falando, Zumbi Branco se desenvolve como um filme mudo. Ao contrário de Drácula, que não tinha trilha sonora, a música aqui é dominante e contínua, especialmente na segunda metade. O filme também é bem curto, e poderia ter sido mais bem desenvolvido em termos de roteiro. Muitas cenas são bastante antiquadas tecnicamente, como a cena em que Neil e o Dr. Bruner conversam por longos minutos sem cortes de câmera, como uma peça teatral.

Mas, quer saber? Mesmo com todos estes defeitos, basta um motivo para assistir ao filme: Bela Lugosi. Como sempre, o ator húngaro é dono do filme, e cada vez que aparece compensa qualquer momento mais chato por parte dos boçais personagens secundários. Diz a lenda que ele teria ganhado apenas 800 dólares para fazer o papel, o que é uma tremenda injustiça, ainda mais se tratando de um sucesso de bilheteria como Zumbi Branco.

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Zumbi Branco ganhou uma espécie de refilmagem pelas mãos da Hammer Filmes, intitulado Epidemia de Zumbis (The Plague of the Zombies), outro ótimo filme, sendo, além disso, um dos últimos do gênero a não ser influenciado por A Noite dos Mortos Vivo (1968) de George Romero, o filme divisor de águas no gênero, e que ditou as regras em todos os filmes de zumbi a serem lançados a partir de então-com exceção, talvez, de A Maldição dos Mortos-Vivos (The Serpent and the Rainbow) de Wes Craven. Como curiosidade, o filme foi considerado perdido até os anos 60, quando uma cópia foi encontrada e se tornou alvo de disputas judiciais pelos direitos de exibição.

Além disso tudo, o filme tem muitos admiradores. A banda de metal White Zombie, por exemplo, foi dada em homenagem a este filme. E mesmo que os zumbis neste filme sejam apenas escravos de Legendre, e não devorem ninguém , são criaturas macabras, com seu olhar perdido e andar cambaleante. É de se imaginar o impacto que teriam causado na época…

E quanto a Bela Lugosi? Depois de entrar em decadência e se tornar leading actor de Ed Wood, o tão falado “pior diretor do mundo”, entrou em um inferno astral, sendo a primeira celebridade a se internar para reabilitação por conta de seu vício em morfina, o que o levou à morte em 1956. Em 1994, recebeu a devida homenagem através da atuação de Martin Landau, que levou um Oscar por sua performance como Bela no excelente Ed Wood, de Tim Burton. Uma espécie de redenção, talvez, por parte de Hollywood, que desperdiçou o grande talento deste mestre insuperável.

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Matheus Ferraz

Matheus Ferraz

Mineiro, autor publicado e mestre em Biografia pela University of Buckingham

Um comentário em “Zumbi Branco (1932)

  • 05/06/2013 em 19:56
    Permalink

    Belíssimo artigo Matheus. Bem detalhado e pesquisado.

    Não sei se alguém pode me responder, mas acho que Zumbi Branco não foi lançado em DVD no Brasil? VHS?

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