A Sombra de Oscar Wilde

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“O prazer para o belo corpo, mas o sofrimento para a bela alma…” – Oscar Wilde

Oscar Wilde foi mais um destes excêntricos que levaram suas paixões muito além da própria realidade. E como comentou Albino Forjaz de Sampaio a seu respeito: “Irmão gêmeo de Baudelaire na excentricidade“. Ele era a imagem da mais pura representação do Dandysmo londrino!

Vaidoso ao extremo, o verdadeiro príncipe da moda insultou sem piedade o dia-a-dia da sociedade em que pertencia. Sua genialidade, porém, fazia-o provocar os “moralistas“, mas com inteligência e estilo próprio e sempre original. Seu jeito galanteiro fez com que ele fosse muito bem falado pelas mulheres, e suas aventuras com elas eram numerosas…Mas não será da sua biografia de que irei tratar neste texto, mas sim de algumas de suas obras, em especial aquelas mais profundas.

O Retrato de Dorian Gray” é sem dúvida nenhuma a obra que o consagrou definitivamente para a imortalidade, e o próprio cinema deu ainda mais vida a ela. O filme, de 1945, ficou perfeito, e foi uma pérola rara, feito é claro, para os raros. Das páginas de seu romance publicado no ano de 1890, tiramos palavras tão profundas que, ouvindo-as serem pronunciadas por uma de suas personagens, em uma imagem de cinema, ficamos diretamente envolvidos no conflito que reflete no seu âmago a cada um de nós na essência… Quem tiver o privilégio de assistir ao filme O Retrato de Dorian Gray ou ler o livro, vai entender o que eu estou falando.

No filme, logo de início aparece uma citação do Rubáiyát de Omar Kháyyám:

“Enviei minha alma através do invisível, para soletrar uma carta desta pós vida, e aos poucos minha alma voltou para mim e respondeu: Eu mesmo sou céu e inferno.”

Direi simplesmente que é profundo… como o próprio Dorian Gray, mas não discutirei sobre a grandeza de Omar Kháyyám, não desta vez. Prossigo portanto com o comentário da obra de Oscar Wilde.

Na leitura do romance, acompanhado de uma boa taça de vinho, fazendo justificar algumas argumentações de um dos personagens:

Nada pode curar melhor a alma do que os sentidos…” Quanto à imagem do filme, é para mim um culto sagrado, e toda vez que desligo-me de toda a realidade para apreciar, levo em minhas mãos o livro e assim acompanho lendo os diálogos dos personagens em perfeita comunhão com as belas imagens do filme!

Lord Henry, um dos personagens principais da obra, chama-nos a atenção por suas geniais ideias, às vezes assustadoras, mas sempre geniais. É ouvi-lo:

“Algum dia, quando estiver envelhecido, enrugado, feio, quando a meditação lhe tiver murchado a fronte com suas rugas e a paixão marcado seus lábios com horríveis estigmas, senti-lo-a terrivelmente. Agora, onde quer que apareça encanta todo mundo, será sempre assim?…”

Completando a forte argumentação do ilustre Lord Henry:

“Mas o que os deuses dão, tomam logo em seguida. O senhor não tem senão uns poucos anos para viver verdadeiramente, perfeitamente, plenamente. Quando sua juventude se desvanecer, a sua beleza ir-se-á com ela. Então descobrirá que nada ficou dos seus triunfos.”

Fechando os argumentos sobre a velhice, o personagem convence com poucas palavras:

“Aproveite a juventude enquanto a tem! Não esbanje o ouro dos seus dias dando ouvidos aos tediosos. Viva! Viva a maravilhosa vida sua!”

Cena espetacular! Merece até um trago de vinho! Mas ver o filme e ler o livro é muito mais que um simples entusiasmo momentâneo, é algo para rever sempre, refletir, analisar.

Então outra personagem nos assombra com as seguintes palavras, e é o próprio Dorian Gray quem as pronuncia:

“Se eu ficasse sempre jovem e esse retrato envelhecesse?! Por isso eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse! Daria até a minha própria alma!”

Um pacto! Uma espécie de “Fausto Goetheano“, mas ainda jovem clamando por seu Mephistopheles… O inimigo da luz, mas o único que nos devolve a nossa juventude que a cada dia se esvai!

Quem de nós em uma noite qualquer de insônia, pelas tantas horas da madrugada, não pensou profundo nesta questão? Velhice, juventude… duas palavras que dá no que pensar, e destas palavras Oscar Wilde criou uma obra excepcional! Isto não é maravilhoso? Sim, Wilde é como Albino Forjaz Sampaio falou: “Sutil autor de ‘The Picture of Dorian Gray‘”

Morreu de meningite e “já tranquilamente apodreceu na escuridão da cova, o luminoso Oscar Wilde morreu já há muito… ” Porém, Harborough Sherard argumenta que “só restam dele alguns dentes furados tapados a ouro e as obras primas“. “O Retrato de Dorian Gray” é uma delas, tanto que eu me estendi entusiasmado no comentário desta obra que acabei esquecendo que outras obras de grande relevância e mérito também imortalizaram o ilustre Dandy. A saber: “O Fantasma de Canterville“, “Salomé” (peça de teatro que foi proibida em sua estrwia em 1892), “Uma Mulher Sem Importância“, “A Duquesa de Pádua“, “Vera“, “Os Niilistas“, “The Profundis” (esta obra, escrita na dura prisão onde pagou pena por dois anos com trabalhos forçados).

Enfim, Oscar Wilde é um gigante da literatura, sua arte fantástica está nos seus livros, e cabe a nós explorarmos este vasto universo. E um bom começo é escolher uma destas madrugadas para assistir ao filme O Retrato de Dorian Gray.

Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine “Juvenatrix” # 44 (Maio de 2000). Já teve uma publicação no Boca do Inferno quando o site ainda era feito em sua versão html.

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Marcos T R Almeida

Historiador, artista alternativo, escritor e pesquisador de cinema e literatura fantastica e de horror, colecionador de filmes e livros raros desconhecidos do grande publico

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