O Retrato de Dorian Gray (1945)

4.6
(5)

O Retrato de Dorian Gray
Original:The Picture of Dorian Gray
Ano:1945•País:EUA
Direção:Albert Lewin
Roteiro:Albert Lewin, baseado em livro de Oscar Wilde
Produção:Pandro S. Berman
Elenco:George Sanders, Hurd Hatfield, Donna Reed, Angela Lansbury, Peter Lawford, Lowell Gilmore, Richard Fraser, Douglas Walton, Morton Lowry, Reginald Owen, Miles Mander, Lydia Bilbrook, Mary Forbes

“Enviei minha alma através do invisível, para soletrar alguma carta dessa pós vida, e aos poucos minha alma voltou para mim e respondeu: Eu mesma sou céu e inferno”.”

Muitos consideram a década de 40 como um período fraco para o cinema fantástico – tanto para o horror quanto para a ficção científica. Entretanto, algumas pérolas do horror foram produzidas nesse período, inclusive nos EUA, que apesar de estarem envolvidos diretamente na Segunda Guerra Mundial, não eram o palco central dos acontecimentos.

A Universal estava decaindo, é verdade… Seu período áureo já havia passado, e agora sufocava em produções cada vez mais tendentes ao humor, até culminar em Abbott & Costello. Mas a RKO estava entrando em cena com produções extremamente sutis e sérias, sob a batuta competente porém discreta do mestre Val Lewton, produtor de algumas preciosidades baratas mas marcantes, como Cat People (42), Curse of the Cat People (44), The Body Snatcher (45), Isle of the Dead (45) e Bedlan (46) – o primeiro dirigido por Jackes Torner, o segundo e terceiro por Robert Wise e os dois últimos por Mark Robson.

Contudo, apesar de não ter nada a ver com Val Lewton, O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray, 1945) pode ser considerado como um dos mais genuínos e sofisticados exemplares do gênero dessa época, e, assim como os demais, não apresenta monstruosidades explícitas ou aberrações científicas, mas é marcado sobretudo pela elegância fina e requintada, sem deixar de apresentar um clima de mistério e terror extremamente apurados.

Dirigido por Albert Lewin para a Metro Goldwyn Mayer, esse filme apresenta uma sutileza tão discreta, mas com um horror tão profundo, que não seria exagero dizer que pertence a uma linha gótica singularmente rara, delineada especificamente por produções únicas e sem referentes, como é o caso também dos ótimos O Médico e o Monstro (41), Na Solidão da Noite (45), e até mesmo Os Inocentes (61). Produções que mergulham no inconsciente humano, trazendo à tona horrores indizíveis, e a verdadeira essência do gótico e do sobrenatural.

Baseado no clássico romance homônimo do poeta e romancista irlandês Oscar Wilde (1854-1900), que já havia publicado um pequeno volume de tendências fantásticas no estilo europeu de histórias de horror do século XIX, “O Fantasma de Canterville“, “O Retrato de Dorian Gray” conta exatamente a história do jovem Dorian Gray (Hurd Hatfield), que, inspirado nos ideais excêntricos e mórbidos do amigo “dandy bom vivanLord Henry (George Sanders), faz uma espécie de pacto inconsciente com a estátua de um antiquíssimo Deus egípcio representado por um gato, onde propõe a troca de sua “alma” pela juventude eterna.

Atendido o seu pedido, sua alma e sua velhice natural são transmitidas ao retrato que estava sendo pintado por Basil Haward (Peter Lawford). Assim, Dorian Gray poderia manter-se sempre jovem e imaculado, dissimulando seus atos de crueldade na sempre pura e singela máscara da juventude, enquanto seu retrato se dobrava em feições grotescas, indizíveis, inimagináveis e assustadoramente mórbidas. O tempo passa, os outros envelhecem, a jovem sobrinha do pintor Basil (Donna Reed) se torna uma mulher de beleza inigualável, mas Dorian Gray, porém, continua intocado, sem um cabelo branco, sem uma ruga, sem uma símile de maldade que o pudesse trair sobre os atos de crua perversidade que cometia nos bairros baixos de Londres. Chega a se apaixonar por uma cantora de bar, levando-a, posteriormente, ao suicídio. Causa, também, ainda que de forma indireta, a morte do irmão dessa cantora de bar, que pretendia vingar-se dele. A trama vai desenrolando, as coisas vão acontecendo, as pessoas vão envelhecendo, algumas começam a suspeitar, mas Dorian permanece “puro” e intocado.

Basil Haward, o pintor, também percebe fatos estranhos com relação ao seu jovem amigo e numa noite nevoenta, quando estava prestes a partir para a França, resolve lhe fazer uma visita de última hora para tentar passar a história a limpo. Porém, sua curiosidade vai além dos limites, obrigando Dorian a matá-lo, com uma punhalada nas costas. Nada acontece ao jovem, que tinha um álibi perfeito. A perversidade do ato, contudo, acentua-se apenas no retrato, que se expande cada vez mais numa massa disforme de hedionda configuração. Mas o tempo, que não perdoa ninguém, passa incólume para todos, e o jovem Dorian resolve por um término em sua vida desregrada e aventureira.

Numa noite, entediado com tudo e com todos, e com remorso dos atos que cometera no passado, vai até o sinistro retrato, que era mantido trancado, longe da visão humana, no velho sótão, e lhe dá uma facada na altura do coração. Cai instantaneamente no chão, tomado de dor e remorso, enquanto a morte se apossa lentamente de seu corpo. Ao arrombarem a porta e entrarem no aposento, Lord Henry, a sobrinha do pintor Basil e um amigo se deparam com uma cena grotesca: no chão está Dorian, corroído por úlceras, rugas, deformidades, por todo o rigor da velhice e da podridão, cujas marcas infectam seu corpo sem vida no ambiente gelado do sótão; na parede, o seu retrato, colorido, belo e puro tal como fora concebido por Basil Haward. Uma cena clássica, que consegue captar toda a essência fantasmagórica e original do livro de Oscar Wilde, além de transmitir toda a sutileza perversa que era a característica das produções sugestivas da década de 40.

Mas, em termos gerais, a temática gira basicamente em torno de um velho artifício: o eterno medo humano de envelhecer e morrer. Explorada por Bram Stoker em seu “Drácula“, que aspirava a imortalidade através dos séculos; pelos deuses imemoriais de H. P. Lovecraft, que existiam por incontáveis eras galácticas e inumanas; pela fábula de Goethe, cujo personagem “Fausto” vendera a alma ao diabo em troca de juventude e vida eterna; e, num sentido mais amplo, até o próprio livro de Mary Shelley, já que o objetivo do cientista Victor Frankenstein era criar um ser que driblasse as doenças e a morte, os flagelos comuns da humanidade; e por uma diversidade de outros exemplos análogos, a derrota da morte e do envelhecimento sempre esteve latente nos confins perdidos do cérebro humano.

Oscar Wilde apenas se aproveitou da ideia, utilizando a arte como pano de fundo, assim como fez Edgar Allan Poe muitos anos antes com o seu clássico conto “O retrato oval“, que, inclusive, apresenta algumas similaridades interessantes com “O retrato de Dorian Gray“.

Mas o grande mérito desse filme é que ele segue praticamente à risca o livro de Wilde, recriando passagens e diálogos de forma fantástica. A fotografia luminosa só ajuda a criar um clima ainda mais impressionante, inclusive as cenas onde é mostrado o retrato são em cores, formando um belo contraste com as luminosas imagens em preto e branco. O elenco, formado por atores não muito conhecidos, também está muito bem proporcionado, com destaque para George Sanders, que consegue ser tão arrogante e influente quanto o Lord Henry que desfila nas páginas do livro; Hurd Hatfield, o Dorian, às vezes parece distante, mas o personagem do livro também tem essa característica, deixando a dúvida se o ator o fez propositadamente ou se foi um simples acaso de sua atuação.

Algumas cenas memoráveis de puro suspense e terror podem ser apreciadas; como o assassinato do pintor Basil, que, antes de cair ao chão, bate com a cabeça na luminária do sótão, causando aquele frenético e vertiginoso movimento de luz e sombra que tão bem sintetizaria as obras de suspense daí em diante – como em Psicose (60), na cena em que o cadáver da mãe de Norman Bates é descoberto nos porões da mansão; ou mesmo a cena final, em que Dorian Gray toma todas as características do quadro momentos antes de morrer; ou ainda o momento em que o quadro é mostrado pela primeira vez. Todas típicas da época e bastantes representativas como marcos históricos da expressão gótica e sua verdadeira essência de sugestão, sutileza e terror.

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E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

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