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Mortal arrogante! Você está em meu mundo agora e você nunca sairá deste sótão vivo! Eu irei destruir você, e depois irei possuir aquela que você mais ama. E não há coisa alguma no mundo que poderá me impedir.” (Conde Drácula)

Desde sua concepção absoluta em 1897, na clássica obra gótica de Bram Stoker, Drácula fez uso de inúmeras vestimentas. Seja na representação macabra do húngaro Bela Lugosi, seja na expressiva do inglês Christopher Lee ou até mesmo na agressiva de Frank Langella, o Conde sanguinário evidenciava uma elegância aristocrática no contraponto de uma voracidade animalesca e uma atormentada paixão sobrenatural. O empalador Vlad Tepes partiu de seu imenso castelo nas montanhas dos Cárpatos, entre a Transilvânia e a Moldávia, para o território inglês, mais precisamente em Whitby, em muitas adaptações cinematográficas no século XX, em enredos que, em sua maioria, souberam respeitar suas origens, até mesmo quando o gênero horror esbarrava em outros como a ficção científica e a comédia, do humor ácido ao pastelão. O inevitável encontro com o satírico Mel Brooks talvez tenha sido o seu mais inusitado.

Pela admiração que detém pelo cinema fantástico, Brooks sempre teve um olhar atento aos pormenores que permeiam boa parte do estilo, brincando com os clichês, expressões exageradas, diálogos marcantes e até mesmo com a atmosfera, conduzindo o espectador a um passeio ao conteúdo original de maneira bem humorada. Em 1974, ele comandou o excepcional O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein), com piadas e situações que homenagearam os clássicos em preto e branco da Universal Pictures, tendo como principais referências o extraordinário Frankenstein (1931) e a continuação A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935), ambos de James Whale e com a icônica atuação de Boris Karloff. Posteriormente, ele invadiria o universo de Star Wars e das produções sci-fi com o divertido S.O.S.: Tem um Louco Solto no Espaço (Spaceballs, 1987), gozaria das aventuras heroicas com A Louca! Louca História de Robin Hood (Robin Hood: Men in Tights, 1993), para, por fim, deixar a cadeira de diretor com Drácula, Morto Mas Feliz (Dracula, Dead and Loving It, 1995).

Voltar ao humor específico, desta vez com o vampirismo, não havia momento mais oportuno. Em 1992, Francis Ford Coppola desenvolveu o premiado Drácula de Bram Stoker (Dracula), em uma adaptação grandiosa com um excelente elenco encabeçado por Gary Oldman; mesmo ano do longa adolescente Buffy, A Caça-Vampiros (Buffy), de Fran Rubel Kuzui, que seria o pontapé para uma série de sucesso; e também da comédia Inocente Mordida (Innocent Blood), de John Landis; no ano seguinte, foi lançado o sucesso Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire), de Neil Jordan, inspirado na literatura de Anne Rice, com nomes como Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas. Assim, os dentes afiados e a busca por sangue humano fizeram dos anos 90 o acessório adequado para a carruagem que levaria um jovem advogado para o encontro com o monstro que domina as criaturas da noite. Mas, sob a perspectiva humorada de Brooks, contando com a canastrice ingênua de Leslie Nielsen, referência para produções do estilo.

O enredo, co-escrito pelo próprio Brooks, Rudy De Luca e Steve Haberman, distorce criativamente as ações originais ao conduzir para o Castelo o futuro insano Renfield (numa atuação bipolar de Peter MacNicol), na árdua missão de visitar o temido Conde Drácula (Leslie Nielsen) para ajudá-lo na finalização da compra da Abadia de Carfax, na Inglaterra. Ele ignora o alerta dado pelos locais, em trejeitos divertidos como a da cigana Madame Ouspenskaya (interpretada pela esposa de Brooks, Anne Bancroft), cujo nome traz uma homenagem à atriz Maria Ouspenskaya, que assumiu a vidente Maleva em O Lobisomem (Wolf Man, 1941) e Frankenstein Encontra o Lobisomem (Frankenstein meets the Wolf Man, 1943), mesmo quando eles antecipam os perigos que o viajante terá pela frente.

Renfield se aproxima da morada do vampiro, numa belíssima combinação de Desenho de Produção (Roy Forge Smith) e Fotografia (Michael D. O’Shea), mantendo os tons góticos e avermelhados em um fundo bem desenhado, até alcançar o hall principal e encontrá-lo no alto da escadaria. Aproveitando a memória recente do espectador, Drácula é visto com um penteado que remete a Gary Oldman em sua concepção inicial em Drácula de Bram Stoker. Numa repetição da piada de S.O.S.: Tem um Louco Solto no Espaço, envolvendo a Princesa Vespa (Daphne Zuniga) e o “cabelo fone de ouvido”, logo revela-se que o vampiro utiliza uma peruca, sendo acompanhado também pela sombra independente, vista no longa de 1992, culminando na queda pelas escadas no tradicional estilo do cineasta de valorizar também o humor físico.

Depois, o advogado conhecerá as noivas de Drácula – Darla Haun e Karen Roe -, movimentando-se em plataformas escondidas, acompanhadas de uma trilha atmosférica numa alusão aos filmes da Hammer, e ajudará seu mestre na viagem à Inglaterra a bordo do The Demeter. Na embarcação, Renfield se esforça para controlar o caixão de seu mestre até ser descoberto e conduzido ao asilo administrado pelo Doutor Seward (Harvey Korman), pai de Mina (Amy Yasbeck), futura esposa de Jonathan Harker (Steven Weber), e começar a se alimentar de insetos. Como no romance de Stoker, Drácula irá vampirizar Lucy (Lysette Anthony), o que pedirá a presença no local do experiente Professor Van Helsing (Brooks, numa interpretação fantástica).

Com sua experiência em impressionar seus estudantes na dissecação de corpos, Helsing chega ao local somente para identificar a condição da jovem e tentar protegê-la com alhos. Ainda sem saber quem poderia ser o inimigo sobrenatural, ele e Jonathan são obrigados a dar um fim digno a ela, na sequência mais hilária da produção. Além do banho de sangue surpreendente a cada golpe de estaca, a cena diverte nos diálogos afinados: “Ela está viva?”, questiona Jonathan para a resposta de Van Helsing: “Ela é Nosferatu.”. Ele então retruca: “Ela é italiana?

Outro momento divertido envolve a tentativa de Drácula de hipnotizar Mina e levá-la para o lado de fora da morada. Ele erroneamente também influencia a empregada Essie (Megan Cavanagh), causando uma confusão entre movimentação e comando, até resultar no choque entre as duas. Nielsen entrega aquela expressão característica de suas paródias na reação aos seus próprios tropeços.

Assim, para descobrir a identidade do vampiro, os caçadores organizam uma festa para que o espelho revele uma ausência, numa referência bem-vinda ao clássico A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski. Quando descobrem o óbvio, partem numa jornada para um combate com a criatura em seu território, aproveitando os raios solares para encerrar definitivamente sua maldição. No entanto, nada seria possível se não fossem as trapalhadas de Renfield na tentativa de driblar os caçadores.

Como as produções com o lendário vampiro, o grande momento é, sem dúvida, o encontro entre Drácula e Van Helsing, ainda mais por envolver dois grandes nomes do humor, com filmografias de destaque. Antes de vestir a capa preta, Leslie Nielsen (1926-2010) já havia até feito algumas participações em filmes de terror como Baile de Formatura (Prom Night, 1980) e a antologia Creepshow: Show de Horrores (Creepshow, 1982), de George A. Romero, mas tornou-se conhecido pelo clássico de humor satírico Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (Airplane!, 1980), a sensacional série “Esquadrão de Polícia” (Police Squad!, 1982) e os filmes Corra que a Policia Vem Aí! (The Naked Gun: From the Files of Police Squad, 1988), Corra que a Polícia Vem Aí 2 ½ (The Naked Gun 2 ½: The Smell of Fear, 1991) e Corra que a Polícia Vem Aí 33 1/3: O Insulto Final (Naked Gun 33 1/3: The Final Insult, 1994), além de A Repossuída (Repossessed, 1990), Mr. Magoo (1997) e Todo Mundo em Pânico 3 (Scary Movie 3, 2003), entre muitos outros.

A boa atuação como Jonathan Harker não é o único bom papel de Steven Weber. Com mais de 150 filmes, o ator fez o popular thriller Mulher Solteira Procura (Single White Female, 1992), Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995) e a minissérie O Iluminado (The Shinning, 1997), de Mick Garris. Já Peter MacNicol, o Renfield, é bastante lembrado pela sua adoração a Vigo (Wilhem von Homburg) em Os Caça-Fantasmas 2 (Ghostbusters 2, 1989), mas sua carreira vai bem além disso, com a participação no drama A Escolha de Sofia (Sophie´s Choice, 1992), A Família Addams 2 (Addams Family Values, 1993) e Mr. Bean – O Filme (Bean, 1997).

Quanto ao elenco feminino, Amy “Mina” Yasbeck já tinha experiência com o estilo de humor de Mel Brooks ao ter atuado em A Louca! Louca História de Robin Hood (1993), e pelo papel em O Máskara (The Mask, 1994), porém ela também pode ser vista na comédia de terror A Casa do Espanto II (House II: The Second History, 1989) e no romance Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990); enquanto a intérprete de Lucy, Lysette Anthony, apareceu novinha em Krull (1983), nas comédias Olha Quem Está Falando Agora! (Look Who’s Talking Now, 1993) e O Médico, a Mulher e o Monstro (Dr. Jekyll and Ms. Hyde,1995) e nos longas de terror B Trilogy of Terror II (1996), O Enigma de Talos (Tale of the Mummy, 1998), Strippers Vs Werewolves (2012).

Embora já não tenha o mesmo fôlego no humor de seus trabalhos anteriores, Mel Brooks faz de seu Drácula, Morto mas Feliz um passatempo divertido para toda a família. Alternando piadas infantis com diálogos inspirados – como no debate do “sim e não” ou quando Renfield recebe as vampiras e ao falar da voluptuosidade das garotas pergunta ao Drácula se ele já esteve em Paris –, o longa traz uma deliciosa homenagem às produções da Universal e da Hammer, com um bom elenco e interessantes efeitos especiais (o morcego com a face de Nielsen e a transformação são impagáveis). Mesmo não sendo tão eficiente no humor quanto Brooks foi em outras sátiras, ainda assim é sempre uma satisfação ver e rever seus trabalhos e o respeito dedicado aos clássicos de horror.

É uma pena que o longa não tenha recebido boas críticas, encerrando definitivamente seu interesse pelo comando de produções do estilo. Depois de Drácula, Morto Mas Feliz, Mel Brooks passaria a se dedicar mais à atuação, emprestando sua voz para personagens animados como o ranzinza Vlad, da franquia Hotel Transilvânia, voltando à temática do vampirismo.

Curiosidades:

– Muitos dos diálogos de Drácula (1931) foram reproduzidos no filme, com Leslie Nielsen atuando como uma caricatura de Bela Lugosi;

– A transformação de Drácula em morcego foi inspirada no modelo cartunesco de Abbott e Costello Encontram Frankenstein (Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein, 1948);

Mel Brooks inicialmente pretendia deixar a fotografia do filme preta e branca, tal qual O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein, 1974), para deixar o longa com aspecto de uma produção antiga da Universal Pictures. De acordo os comentários em áudio de Steve Haberman no lançamento do DVD, a ideia foi descartada pelo fato de existirem muitos bons filmes de Drácula coloridos, como os da Hammer com Christopher Lee, e até mesmo Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola;

– Boa parte do elenco – Amy Yasbeck, Chuck McCann, Avery Schreiber, Mark Blankfield, Matthew Porretta e Megan Cavanagh – esteve presente em A Louca! Louca História de Robin Hood (Robin Hood: Men in Tights, 1993), de Mel Brooks;

– Quando Renfield (Peter MacNicol) chega ao hospital no final do filme, o modo como ergue as mãos para o alto e gargalha é uma referência ao personagem Herman Munster da série “Os Monstros” (The Munsters, 1964-1966), estrelada por Fred Gwynne. Ele também homenageia Renfield, interpretado por Dwight Frye em Drácula (1931), na cena final, ao comer insetos;

– A primeira vez em que Drácula morde Lucy, usando a capa para esconder o ato, é uma homenagem ao vampiro encenado por Christopher Lee;

– Na cena em que Lucy é morta pelos caçadores, Van Helsing diz que a estaca era uma alternativa para não precisar degolar a garota, encher sua boca de alho e cortar suas orelhas. Essa é uma menção ao próprio livro de Bram Stoker, uma vez que a cabeça é realmente cortada, assim como o alho e colocado em sua boca. Além disso, a Lucy original recebeu uma estaca no peito;

Mel Brooks pretendia lançar o filme no Halloween de 1995, mas teria que competir outra comédia com vampiros, o longa Um Vampiro no Brooklyn (Vampire in Brooklyn, 1995). Com a demora no término das filmagens, o filme chegou aos cinemas em dezembro, e foi um imenso fracasso, estreando em décimo lugar com uma arrecadação de pouco mais de U$10 milhões – ele custou três vezes mais;

– O condutor da carruagem que leva Renfield ao castelo é interpretado pelo comediante italiano Ezio Greggio, amigo pessoal de Brooks;

– No livro de Bram Stoker, o Doutor Seward atua como um dos pretendentes de Lucy. No filme, ele é pai de Mina. Harvey Korman ainda faz uma referência na sua atuação à Nigel Bruce, que fez Dr. Watson nos filmes de Sherlock Holmes;

– O roteirista Rudy De Luca atuou como um oficial de polícia no filme sério de vampiros A Volta do Conde Yorga (The Return of Count Yorga, 1974);

– Nos comentários em áudio, os roteiristas dizem que o conceito básico da produção era apresentar os homens como idiotas e as mulheres como beldades;

– No artigo que promovia o filme, lançado na revista Fangoria 149, os roteiristas Steve Haberman e Rudy De Luca revelaram que ambos estavam trabalhando em um filme de terror e ficção científica intitulado “Not Human“, tentando ao máximo incluir cenas de paródia nele. Para ter certeza que o roteiro seria realmente sério, eles também trabalharam no rascunho de uma comédia que depois viria a ser Drácula, Morto Mas Feliz. A base do roteiro seria satirizar Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, seja nos cabelos do vampiro, no movimento das sombras e até no sotaque inglês exagerado de Keanu Reeves;

Leslie Nielsen estava com 68 anos quando fez o filme, tornando-se assim, ao lado de Bela Lugosi, os atores mais velhos a interpretar Drácula no cinema. Lugosi até começou bem mais novo, na casa dos quarenta, em seu primeiro filme, mas foram tantas atuações como o vampiro em sua carreira, até chegar aos sessenta, como Nielsen;

Drácula, Morto Mas Feliz foi lançado próximo do aniversário de lançamento de um dos melhores filmes de Mel Brools, o hilário O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein), de 1974;

– Há no filme referências a livros fictícios como “Transavia Folk Law“, “The Theory and the Theology of the Evil Undead“, “The Vampires of Prague” e “Nosferatu“. “The Vampires of Prague” faz uma alusão ao clássico A Marca do Vampiro (Mark of the Vampire, 1935), enquanto “Nosferatu” é uma evidente homenagem ao longa homônimo, lançado em 1922, dirigido por F.W. Murnau;

Kelsey Grammer foi o primeiro a ser considerado para interpretar Drácula, antes do papel pertencer a Leslie Nielsen.

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3 Comentários

  1. Comédia pastelona, que ñ envelheceu com o tempo. Boa p/tardes e início das noites de Halloween. Ñ fosse o texto risível dava p/acreditar q seria 1 filme da Hammer.

  2. Concordo, muito bom. Injustas as críticas.

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