O Satânico Dr. Zabor (1952)

O Satânico Dr. Zabor (1952)
O Fundo do Poço para o Eterno Drácula

O Satânico Dr. Zabor
Original:Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla
Ano:1952•País:EUA
Direção:William Beaudine
Roteiro:Tim Ryan, Leo 'Ukie' Sherin
Produção:Maurice Duke
Elenco:Bela Lugosi, Duke Mitchell, Sammy Petrillo, Muriel Landers, Al Kikume, Mickey Simpson, Milton Newberger, Martin Garralaga

Quem me conhece sabe que eu tenho uma verdadeira adoração por Bela Lugosi. O maior Drácula do cinema, o homem que mostrou para o mundo como um vampiro deveria ser. O homem que deu vida a alguns dos maiores personagens do horror. Então, dá pra entender porque dói meu coração ter que falar sobre esse filme vagabundo, onde Lugosi é apenas muleta para uma história ridícula, produção horrorosa e dois dos piores comediantes que já pisaram na face da Terra.

Qualquer um que conheça de cinema clássico sabe que Lugosi, depois de ver sua vida pessoal e sua carreira desabarem, se tornou o ator principal dos filmes de Ed Wood, o tão falado “pior diretor do mundo”. Então, com uma bagagem destas, por que eu estou com tanto nojo de Bela Lugosi meets a Brooklyn Gorilla? Será realmente pior do que Glen ou Glenda ou Plan 9 from Outer Space? Bem, vejamos as palavras de Martin Landau, que ganhou o Oscar por interpretar Bela no filme Ed Wood.

“Eu tive que assistir a este filme três vezes, porque não conseguia acreditar. É tão ruim! Quer dizer, faz os filmes de Ed Wood parecerem ‘E o vento levou… ’ ”

Faço das suas palavras as minhas. O próprio Bela Lugosi parece se dar conta de que está destruindo completamente o pouco que restava de sua reputação. Com um pouco de história de horror, alguma suposta comédia e o resto de tédio, você tem este filme de William Beaudine, lançado nos cinemas do Brasil com o título O Satânico Dr. Zabor. O diretor, aliás, era conhecido também como “Uma Tomada” Beaudine, porque nunca repetia uma tomada, por pior que ficasse. O que explica muita coisa, como por exemplo a cena em que um dos personagens fica parado tentando lembrar sua fala.

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Este filme foi feito em 1952, pegando carona no sucesso da dupla Jerry Lewis/Dean Martin em diversos filmes. Mas acontece que os atores principais, Duke Mitchel e Sammy Petrillo não estão apenas copiando uma piada ou repetindo algum trejeito de Lews e Martin: eles estão literalmente personificando os astros, em cada mínimo detalhe. O resultado é um filme estrelando Duke Mitchel interpretando Dean Martin interpretando Duke Mitchel e Sammy Petrillo interpretando Jerry Lewis interpretando Sammy Petrillo. Ou alguma coisa do tipo. Bela a essa hora já devia ter chutado o balde, e aparecia em qualquer papel que lhe permitisse pagar as contas. Outro nome mais conhecido era o produtor Herman Cohen, o inventor do “horror adolescente”, que deve ter se arrependido pelo resto de seus dias por ter desperdiçado Bela Lugosi deste jeito. Além deles, o único envolvido deste filme que teve alguma carreira foi a chimpanzé Ramona, que interpretou a Cheetah nos filmes do Tarzan (!!!).

Enfim, vamos ao filme em si. Ele já começa cuspindo na cara do espectador que vão ser dolorosos 70 minutos pela frente: um narrador fala sobre a vida na selva, onde somos brindados com cenas de documentário da vida selvagem. É sinistro, mas até estas cenas de arquivo são malfeitas. Em uma delas um tigre abocanha um porco selvagem, mas parece que ela está puxando um pernil tirado direto de algum açougue, e não um animal vivo. Nesta selva  um grupo de selvagens (leia-se: pessoas sem nenhum traço indígena vestidos em camisetas e saias havaianas, segurando lanças e usando tocas de pelúcia simulando pele de onça) dão de cara com uma dupla de homens barbados caídos entre as árvores. Os homens são enviados para a tribo, onde a filha do chefe, Nona (interpretada por Charlita, que pelo menos tem um belo corpo) impede que eles sejam mortos. Ela sugere que eles sejam barbeados, vestidos e bem tratados até acordarem.

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Então, infelizmente os dois acordam e os nativos descobrem que eles são os dois piores comediantes do mundo: Duke Mitchel e Sammy Petrillo. Se você assistir ao filme até o final e não tiver vontade de matar Petrillo, procure o hospício mais próximo. Eu falo sério: não há nada, nada de bom, nada de aproveitável, nada redentor em Sammy Petrillo. Pode até não ser o pior comediante do mundo, mas no mínimo está no segundo lugar. Já Mitchel só serve para se apaixonar por Nona, cantar músicas sem graça e desfilar por aí usando a calça na barriga, estilo Nerso da Capitinga.

Petrillo e Mitchel explicam que foram parar na ilha caindo de paraquedas de um avião, e são adotados pela tribo. Mitchel se engraça por Nona, e em menos de uma semana os dois já estão planejando se casar. E Petrillo? Ele é perseguido por uma mulher gorda que se apaixona por ele, é claro! Afinal de contas estamos falando de humor de quinta. E ainda vai piorar muito antes de melhorar. Na verdade, não vai melhorar.

Então, depois de muitas piadas sem graça, Nona sugere aos dois amigos que vão pedir ajuda ao Dr. Zabor (Bela Lugosi, e isso se soletra “d-e-c-a-d-ê-n-c-i-a”), um médico branco que vive num castelo na ilha. E não me perguntem quem construiu um castelo medieval numa ilha deserta. Nona é assistente do Dr. Zabor, e ele, obviamente, está apaixonado por ela, e morre de ciúmes ao saber que ela está se agarrando com Mitchel. Então bola um plano maligno que consiste em transformar Mitchel num gorila para tirá-lo do caminho. É no laboratório que aparece Ramona, a chimpanzé que se apaixona por Petrillo (macaca de mau-gosto). E lá vem mais gags sem graça.

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Então, com Mitchel transformado em gorila, Zabor pensa que pode conquistar Nona. Mas lá vem Petrillo ferrar o esquema todo de novo. Porque, aparentemente, mesmo com um corpo de gorila, Mitchel ainda consegue cantar (mas não consegue falar!) e é solto pelo amigo, que reconhece a música. Então, correria, cenas de perseguição chatas… até que vem o inesperado! (ATENÇÃO: SPOILERS!) Aquilo que todos queríamos durante o filme todo finalmente acontece! Bela Lugosi aponta uma espingarda para Mitchel, mas Petrillo entra na frente, e finalmente o desgraçado morre com um tiro certeiro! Hooray!!!

Mas é claro que isso era bom demais para ser verdade, não? Sim, pois infelizmente o filme inteiro acaba sendo um sonho de Petrillo (e um pesadelo para o espectador). Então, temos o típico “final Mágico de Oz”, e tudo termina, para nosso alívio. (FIM DOS SPOILERS)

Acho que não adianta falar mais nada. Bela Lugosi já havia feito pelo menos um bom filme de gorila assassino (Assassinatos na Rua Morgue) e é uma pena que tenha acabado neste tipo de coisa. Este não é daqueles filmes tão ruins que ficam bons,como aqueles que faria com Ed Wood depois. Não, esse aqui é só ruim mesmo. Além de Lugosi, a única coisa que se salva é a presença de Charlita, que tem aquela beleza clássica de uma época em que as mulheres não precisavam vomitar para serem consideradas bonitas. Mas nem se compara a uma Ava Gardner ou Greta Garbo

Petrillo e Mitchel foram processados por plagiar Lewis e Martin, e nunca mais fizeram outro filme de comédia juntos. Ainda bem, porque daqui a pouco estariam humilhando Boris Karloff e Lon Chaney Jr. É incrível, mas quando eu mostrei o trailer desta bomba para meu irmão, ele perguntou na maior inocência se Jerry Lewis tinha feito um filme com Bela Lugosi. Mas não precisei explicar muito, pois logo a grande diferença entre Petrillo e Lewis se tornou óbvia: PETRILLO NÃO TEM GRAÇA NENHUMA. Quer dizer, dá até para aturar Duke Mitchel, mas Petrillo faz os Irmãos Wayans parecerem os Irmãos Marx! Será que os produtores não repararam quando contrataram esse bastardo? Será que eles conseguiram achar alguma piada dele engraçada? Por que, meu Deus, por quê?

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E quanto ao horror? Bem, o fato de Bela Lugosi interpretar um cientista louco que transforma um homem em gorila seria, alguns anos antes, sinal de clássico. Mas não naquela época. Não há cenas assustadoras ou climáticas, e nenhum personagem morre “de verdade”. Mesmo assim o filme possui alguns elementos do gênero, como o laboratório do Dr. Zabor, cheio de aparelhos e tubos de ensaio, o que pelo menos é algum atrativo. Talvez se o filme tivesse optado por uma abordagem séria, sem os comediantes chatos, e se focando na figura do Dr. Zabor, teríamos uma obra com um pouco de qualidade.

Bem, já chega. Talvez você até tenha ficado com alguma curiosidade, Bela Lugosi meets a Brooklyn Gorilla ele está em domínio público, e pode ser visto neste link. Mas eu aviso: tenha medo. Tenha muito medo. Porque você vai ver até que ponto a queda de uma lenda do cinema pode ir. Dava para ter passado sem essa, Bela.

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Matheus Ferraz

Matheus Ferraz

Mineiro, autor publicado e mestre em Biografia pela University of Buckingham

3 comentários em “O Satânico Dr. Zabor (1952)

  • 22/07/2015 em 22:53
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    O Bela Lugosi não teve em vida o respeito e reconhecimento que merecia. Se tivessem dado oportunidade ele teria sido muito mais que um ícone de horror com um fim de carreira decadente. Também fico triste quando lembro de filmes como esse.

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  • 08/06/2013 em 20:53
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    encaro não velho,passo….. (2)

    Resposta
  • 08/06/2013 em 08:41
    Permalink

    encaro não velho,passo…..

    Resposta

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