Coração Satânico (1987)

0
(0)

Coração Satânico
Original:Angel Heart
Ano:1987•País:Uk, Canadá, EUA
Direção:Alan Parker
Roteiro:Alan Parker, William Hjortsberg
Produção:Elliott Kastner, Alan Marshall
Elenco:Mickey Rourke, Robert De Niro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling, Michael Higgins, Dann Florek, Kathleen Wilhoite, Judith Drake

Nas ruas acinzentadas da Nova York de 1955, que ainda traziam resquícios do pós-guerra, o detetive Harry Angel (Mickey Rourke) recebe uma proposta financeiramente mais interessante do que tratar de divórcios e casos de adultério: encontrar o músico Johnny Favorite, que tem um acerto de contas com o rico empresário Louis Cyphre (Robert De Niro). Ele está desaparecido desde seu retorno da guerra, quando foi gravemente hospitalizado e estaria necessitando de um tratamento específico de reconstrução da face. Harry vai ao hospital e descobre que uma transferência irregular foi feita pelo fisioterapeuta Albert Fowler (Michael Higgins), que permitiu que um casal retirasse o paciente da instituição.

Ao fazer uma visita ao doutor, com a temperatura fria de janeiro e a evidência de um ventilador ativo, ele o tranca em sua morada para que ele reflita sobre as informações que mantêm escondidas. Horas depois, ele o encontra no mesmo local, envolto em manchas de sangue decorrentes de um possível suicídio. Assim começa a viagem rumo ao inferno de Harry Angel em busca de uma pessoa desaparecida, entre cadáveres e sinais de ocultismo e rituais macabros. Enquanto se aproxima de seu objetivo, novos personagens virão para selar seu destino sangrento, e a deterioração gradual do protagonista se torna evidente. Ele conhece um caso rentável de Johnny com a vidente Margaret Krusemark (Charlotte Rampling) e um namorico com Evangeline Proudfoot, que deu fruto à belíssima Epiphany (Lisa Bonet), alguém cujos encantos lolitianos atraem os interesses de Harry, ocasionando uma tórrida cena de sexo que trouxe ao filme restrições da censura pelo banho de sangue proporcionado no ritmo dos movimentos, acompanhados sempre com os ventiladores e os posicionamentos ágeis das câmeras de um cineasta inspirado.

Quando escreveu sua obra-prima em 1978, William Hjortsberg já imaginava uma versão cinematográfica. Desenvolveu o roteiro e tentou vendê-lo a vários estúdios, com a ajuda do produtor Richard Sylbert. A Paramount era uma opção interessante para uma versão para as telas grandes, com direção de John Frankenheimer e estrelado pelo ator em ascensão Dustin Hoffman. Mas, a produtora se esquivou do projeto, assim como os demais envolvidos, fazendo o autor levantar a questão: “Por que não podemos ter um final feliz?“. Em 1985, foi a vez do produtor Elliott Kastner imaginar uma adaptação, levando o tema para Alan Parker pela Pinewood Studios. Parker viu ali potencial, mas sentou-se com Hjortsberg para discutir mudanças necessárias, envolvendo até mesmo a ambientação – não apenas Nova Iorque, mas aproveitando o ocultismo de New Orleans; e o ano ideal seria 1955, ao invés de 1959, período considerado mais otimista para os americanos.

Foram feitas algumas alterações, e o roteiro ficou no comando exclusivo de Parker, que deu o toque melancôlico exigido como fizera em O Expresso da Meia-Noite (1978). Além dos ventiladores, nota-se a batida do coração de Harry Angel em situações extremas, o espelho desfocado e a sempre descida no elevador, simbolizando sua caminhada ao Inferno. A caracterização de Robert De Niro é óbvia como o nome de seu personagem, mas não seria necessário esconder sua identidade até porque a intenção é perturbar o espectador, mostrando que sua única base de confiança é o Anjo Caído. De Niro constrói um alicerce sólido para o protagonista, com uma atuação diabólica, sem estereotipar seu Louis Cyphre além do visual. Lisa Bonet também surpreende pela ingenuidade e carisma sedutor, diferente de seus papéis até então cômicos. Contudo, Coração Satânico não teria a força expressiva necessária se o anti-herói fosse alguém diferente de Mickey Rourke.

Sex symbol da época, Rourke ainda tinha um rosto atraente e era lembrado pelo erotismo de 9 1/2 Semanas de Amor (1986). Sua interpretação se altera de maneira incrível na proporção da queda de seu personagem, exigindo emoções extremas e convincentes. Depois ele ainda faria Orquídea Selvagem (1989) e filmes de ação, enquanto destruía seu rosto pelas feridas adquiridas em sua carreira no boxe, quase como acontecera com Johnny Favorite, conduzindo seu perfil para a obscuridade.

Coração Satânico recebeu muitas críticas negativas na época, condenando a produção ao status de cult. Alguns diziam que ela não se definia entre thriller, filme noir e terror sobrenatural – como se a mistura dos subgêneros fosse algo não muito bem digerido. Há mistérios a serem descobertos, mas eles estão envoltos em uma maldade absoluta, incômoda e degradante. Sequências de tensão e sangue em profusão são alguns dos ingredientes desse ritual orquestrado por Alan Parker para a receita de William Hjortsberg. E o resultado só poderia ser depressivo, pessimista e extremamente satisfatório, contrariando o questionamento do próprio autor.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

(Visited 3.056 times, 1 visits today)

Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

4 thoughts on “Coração Satânico (1987)

  • 01/01/2019 em 17:56
    Permalink

    A história de um terrível acerto de contas…filmaço!

    Resposta
  • 20/02/2018 em 13:52
    Permalink

    Filmaço!! Um dos filmes mais subestimados do gênero.

    Resposta
  • 17/02/2018 em 16:13
    Permalink

    Marcelo, sua análise desse clássico foi perfeita: assino embaixo!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.