A Maldição da Chorona (2019)

A Maldição da Chorona
Original:The Curse of La Llorona
Ano:2019•País:EUA
Direção:Michael Chaves
Roteiro:Mikki Daughtry, Tobias Iaconis
Produção:Gary Dauberman, Emile Gladstone, James Wan
Elenco:Linda Cardellini, Raymond Cruz, Patricia Velasquez, Roman Christou, Jaynee-Lynne Kinchen, Marisol Ramirez, Sean Patrick Thomas, Tony Amendola, Irene Keng

As palmas durante uma brincadeira de pique-esconde, no terror claustrofóbico de uma família diante de eventos sobrenaturais, deram início a uma das franquias mais bem-sucedidas do Horror pós virada do milênio. Com direção e produção de James Wan, que já havia desenvolvido outros produtos de sucesso como Jogos Mortais e Sobrenatural, Invocação do Mal (2013) trouxe arrepios e monstros de dar inveja a Universal Pictures – que falhou duas vezes ao tentar recriar seu universo de outrora. Além da maldição de uma bruxa, morta em uma árvore, o longa apresentou a boneca Annabelle, que ganhou seu filme solo no ano seguinte. Ambos os sucessos ainda promoveriam Invocação do Mal 2, em 2016, e o inevitável Annabelle 2: A Criação do Mal, já apresentando elementos de uma Freira demoníaca que contaria sua origem em 2018. Enquanto havia a perspectiva de lançamento de um filme sobre o Homem-Torto, um dos elementos fantásticos introduzidos na franquia, Annabelle 3 era anunciado, assim como um terceiro capítulo para Invocação do Mal. Haveria como expandir esse universo além do que já fora mostrado nos filmes ou teríamos que esperar pelas continuações? A resposta viria novamente de James Wan, produtor do terror A Maldição da Chorona.

Antes mesmo de apresentar imagens e o trailer do filme, a CCXP 2018 atraía olhares curiosos para um casarão assustador, quase na entrada do evento, permitindo a visualização do título do filme, em uma das laterais, dividindo espaço com o de Annabelle. O que essa popular lenda mexicana, um pouco discreta no Brasil – embora existam aqueles que estabeleçam relações dessa história com outros fantasmas em relatos ao redor da fogueira -, poderia trazer além de alguns sustos sonoros e uma maldição a ser destruída pelas irmãos Winchester? Nada mais do que a marca do cineasta australiano, que descobriu realmente a fórmula do medo popular (não genuíno). Mesmo com a ocupação de apenas produtor, Wan deixou vestígios de sua relação direta ao envolver crianças, uma família, um especialista da fé e uma entidade poderosa – se quiser, pode ser mais evidente e considerar cenas que mostram um movimento do Mal para atrair o olhar do espectador e impedir que ele note que o inimigo demoníaco está do outro lado (presente também no trailer de A Freira).

Com a relação já estabelecida com o diretor de Aquaman, bastava apenas um enredo atraente para A Maldição da Chorona se tornar mais um sucesso da Warner Bros. Ele foi concebido por Mikki Daughtry e Tobias Iaconis, ambos com a experiência do roteiro de err.. A Cinco Passos de Você (!!!). Sem a menor experiência com o gênero, eles desenvolveram a trama que seria comandada por Michael Chaves, em sua estreia como diretor de longas. Assim, pode-se dizer que o novo filme, basicamente partiu de uma atitude ousada dos produtores ao envolver nomes sem nenhuma intimidade com o estilo ou mesmo com a função. Mesmo partindo para a contramão do esperado, o resultado não foi tão desastroso como se imaginava, embora ocupe facilmente uma posição favorável somente acima de A Freira. A Maldição da Chorona recicla o gênero e traz poucas surpresas, além das tradicionais toneladas de sustos, mas pode ser recomendado por aqueles que são fãs da franquia e gostaram de A Freira.

A assistente social Anna Tate-Garcia (Linda Cardellini, que fez a Velma nos primeiros live actions de Scooby Doo) está tendo dificuldades para se adaptar à vida sem o marido, um policial morto em serviço. Ela recebe como serviço a visita à residência de Patricia Alvarez (Patricia Velasquez, a Anck Su Namun de A Múmia), que não anda mandando seus filhos à escola há um bom tempo. Repleto de símbolos religiosos e contando com as atitudes suspeitas da mãe, Anna encontra os filhos dela trancados em um closet, com feridas nos pulsos. Ambos alegam que os machucados não foram feitos pela mãe, mas evitam contar a verdade, naquela típica atitude de personagem de filme de terror. Mesmo que haja a descrença, muitas situações seriam evitadas se houvesse uma conversa franca desde o começo, com a apresentação dos problemas verdadeiros. Pelo menos, o desastre seria menor.

Depois que “salva” as crianças, elas são visitadas pela entidade do título e depois encontradas mortas, afogadas em um rio. Na mesma noite de reconhecimento dos corpos, acontece a cena do trailer, quando os filhos de Anna, o talentoso Chris (Roman Christou) e sua irmã Samantha (Jaynee-Lynne Kinchen), são atormentados pela assombração dentro de um veículo. A partir daí, o pesadelo da família tem início, com diversas aparições de uma mulher sinistra (interpretada por Marisol Ramirez), usando um longo véu branco com o aspecto de uma noiva maldita, para marcá-los e tentar mais uma vez alcançar seu objetivo de encontrar seus filhos, como é comum na lenda. Para ajudá-los a enfrentar esse mal, eles envolvem a igreja, na figura do Padre Perez (Tony Amendola), além do xamã Rafael Olvera (Raymond Cruz), com seu humor involuntário.

Para trazer os arrepios que o público almeja, há várias cenas que fazem uso da trilha sonora e expõe a vilã com uma maquiagem exagerada, como fora feito com a freira Valak. Se por um lado há bons momentos como a aparição da assombração na porta da casa, ou coberta pelo pano da mesa e até mesmo rondando os filhos por todos os lugares, por outro é impossível não notar os clichês do gênero (muitos aliás) e os furos no roteiro. A cena da banheira, a pessoa que é arrastada para um ambiente, as portas que se fecham e dificultam a entrada e até a aparição de um inimigo surpresa, entre outras, misturadas como alguns percalços do enredo, como a não justificativa para a demora na ação da Chorona: o episódio do guarda-chuva e a piscina apresentava o momento perfeito para a conclusão dos desejos da fantasma com o afogamento de uma das crianças; e o mesmo se torna evidente em outras oportunidades, como se a Chorona precisasse conhecer os pequenos antes de decidir dar um fim neles.

Pouco se explica sobre o medalhão da entidade. Seria o elemento que a mantém próximo da família ou é apenas um artefato para ser reconhecido futuramente no museu dos Warrens? E por que a narrativa não explorou de maneira mais intensa o fato do filme se passar em 1973, que não seja pelo propósito da referência? Além de algumas exibições da TV, carros e vestimentas, a ambientação foi melhor utilizada em Annabelle, principalmente pela referência aos crimes de Charles Manson. Como a época é sempre lembrada pela desconstrução do american way of life, o que permitiu o surgimento de grupos religiosos e trouxe destaque aos primeiros assassinos em série, infelizmente o roteiro optou pela claustrofobia e tensão em poucos ambientes.

Com suas falhas e sustos frágeis, A Maldição da Chorona peca por ser comum demais. Longe de ocupar as principais listas de destaque de 2019, o filme traz uma história simples de assombração como é a própria lenda envolvida, e um bom elenco, com destaque para o jovem Roman Christou, que soube expressar o medo e angústia de maneira eficaz, levando o público a realmente acreditar que ele temia pela vida. Não sei se voltaremos a ver a Chorona nesse universo ou se teremos mais fantasmas atormentados pelo caminho, mas eu não me importaria de vê-la novamente…apenas na tela grande.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

2 comentários em “A Maldição da Chorona (2019)

  • 09/07/2019 em 23:48
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    Achei o filme bem ”pipoquinha”, se estivéssemos na década de 90 sem dúvidas ele passaria em algum canal aberto, sem sangue, violência sugerida e sustinhos artificiais (ou o ”PAM!” para os íntimos) contei umas duas cenas que achei legais (a do espelho no quarto e a cena da piscina) o resto é sonífero, um desperdício de uma lenda real. Menção (des)honrosa para a fantasma que tem uma maquiagem sem graça e toda sua expressão é feita por computação gráfica, nas sombras ela até dava um arrepio mas debaixo de uma lâmpada acesa ficou parecendo um cosplay de bruxa do 71.

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