Army of the Dead: Invasão em Las Vegas (2021)

3.9
(12)

Army of the Dead: Invasão em Las Vegas
Original:Army of the Dead
Ano:2021•País:EUA
Direção:Zack Snyder
Roteiro:Zack Snyder, Shay Hatten, Joby Harold
Produção:Wesley Coller, Deborah Snyder, Zack Snyder
Elenco:Dave Bautista, Ella Purnell, Omari Hardwick, Ana de la Reguera, Theo Rossi, Matthias Schweighöfer, Nora Arnezeder, Hiroyuki Sanada, Garret Dillahunt, Tig Notaro, Raúl Castillo, Huma Qureshi, Samantha Win, Richard Cetrone, Michael Cassidy, Steve Corona, Chelsea Edmundson, Zach Rose, Brian Avery

Quando Zack Snyder concebeu seu primeiro longa-metragem, Madrugada dos Mortos (2004), refilmagem de Despertar dos Mortos (1978), ele ainda não evidenciava uma personalidade cinematográfica, apenas um olhar diferenciado para um conceito conhecido. Mesmo os mortos velocistas já tinham sido vistos em Extermínio – os tais infectados -, restando apenas boas ideias como a fantástica sequência de abertura, os zumbis clones e a ótima trilha sonora, e ainda assim estava distante dos moldes snyderianos, que distinguiriam seus trabalhos seguintes. A partir de então, o cineasta americano, oriundo da realização de clipes para o Soul Asylum, Rod Stewart, Peter Murphy e Morrissey, abraçaria de vez os filmes de ação com excessivos chroma keys, no comando de 300 (2006), Watchmen: O Filme (2009), Sucker Punch: Mundo Surreal (2011), O Homem de Aço (2013), Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e Liga da Justiça (2017). Depois de alguns anos de inatividade na direção, Snyder retornaria aos holofotes ao disponibilizar uma versão de mais de 4 horas de Liga da Justiça, apontada por muitos como “um novo filme“, o que colocou seu “snydercut” em evidência nos trending topics do twitter. Era óbvio que todo o processo chamou a atenção para seu novo trabalho, seu retorno aos zombie movies com Army of the Dead.

As intenções de realização do projeto começaram ainda em 2007, quando Zack Snyder apresentou seu conceito a Warner Bros. Com um roteiro co-escrito por Snyder e Joby Harold, o filme só não ganhou luz verde na época porque o diretor ainda era lembrado por Madrugada dos Mortos, e o argumento de envolver um novo apocalipse zumbi poderia marcar sua carreira; na época, alguns sites questionavam se o filme não seria uma continuação direta de Madrugada, embora o próprio cineasta defendia que somente o título seria uma referência ao universo de George Romero – pelo término em “of the dead” – e que se tratava de uma história completamente original (nem tanto, como poderá ser lido a seguir). Envolvido em outros trabalhos, o longa ficou em banho-maria por um bom tempo, apenas com algumas falas de executivos sobre o alto custo de produção, que o levou da Warner Bros. a Legendary Entertainment até a Netflix comprar os direitos em janeiro de 2019, liberando um orçamento de U$90 milhões.

Zack Snyder, então, reescreveu o roteiro e passou a se dedicar exclusivamente à sua realização – por isso o longo tempo sem novos trabalhos -, com as filmagens acontecendo entre julho e agosto de 2019, com locações ocorrendo em Albuquerque, no Novo México, Atlantic City, em New Jersey, além de Las Vegas, Nevada e Los Angeles, Califórnia. Em 2021, teve início o processo de divulgação do projeto, com pôsteres coloridos com destaque aos principais personagens, e depois, com o relançamento de Liga da Justiça, Army of the Dead finalmente já tinha todos os holofotes que precisava. O filme foi disponibilizado pela plataforma no dia 21 de maio, conquistando críticas, em sua maioria, positivas, com destaque para a fala de RogerEbert.com, que apontou o trabalho como “melhor que Madrugada dos Mortos, mas pior que qualquer filme de zumbis do Romero“, o que é absolutamente questionável. Explico as razões abaixo.

A história começa com um acidente a la A Volta dos Mortos-Vivos 2: um comboio militar, enquanto atravessa a lendária Área 51, colide com o veículo de um casal recém-casado em Vegas, com a excitação pela noite de núpcias. Alertados para não se aproximar da carga, os guardas são atacados por um zumbi malhado – com uma referência também a sequência clássica de Um Lobisomem Americano em Londres – e a doença rapidamente se espalha. Nos criativos créditos iniciais, com o já conhecido slow motion de Snyder, os personagens são dispostos em uma salada rítmica, com tiros e explosões, dançarinas seminuas, clone de Elvis (referência a Madrugada) em um balé de cores na apresentação bem-humorada de uma Las Vegas em caos absoluto. Sem conseguir controlar a expansão do canibalismo e contágio, o governo americano resolveu, então, isolar Las Vegas do restante dos EUA, com imensos containers ao redor e soldados armados para evitar qualquer vazamento da zona de quarentena.

No entanto, o dono de um cassino, Bly Tanaka (Hiroyuki Sanada), em parceria do militar Martin (Garret Dillahunt, fugido de Fear the Walking Dead), contrata o mercenário Scott Ward ( Dave Bautista, o Drax de Guardiões da Galáxia) para recuperar U$200 milhões de um cofre, antes que a cidade seja completamente destruída por um míssil nuclear, no comando do Presidente. Com a boa oferta financeira, Ward, que viveu um trauma clichê ao ter que matar a própria esposa transformada e que o fez se afastar de sua filha Kate (Ella Purnell, de O Lar das Crianças Peculiares, 2016), resolve montar uma equipe para invadir o local, abrir o cofre e escapar de helicóptero antes do ataque militar. Ele então convida sua velha conhecida Maria Cruz (Ana de la Reguera), o soldado Vanderohe (Omari Hardwick), a piloto Marianne Peters (Tig Notaro), o arrombador Ludwig Dieter (Matthias Schweighöfer) e o atirador Mikey Guzman (Raúl Castillo), que leva consigo Chambers (Samantha Win). Com a perspectiva de resgatar a conhecida Geeta (Huma Qureshi), que atravessou os limites com o auxílio da coiote Lilly (Nora Arnezeder), Kate entra para a equipe, assim como o insuportável recruta Burt Cummings (Theo Rossi).

É claro que só essa premissa já transborda ideias já aproveitadas anteriormente, como o recente Invasão Zumbi 2: Península (2020), que envolvia a mesma ideia de contrato de um grupo para invadir uma zona repleta de zumbis; e você pode ir até mais longe ao mencionar a trama de Terra dos Mortos (2005), do Romero, e até as empreitadas de Snake Plissken em Fuga de Nova Iorque (1981) e Fuga de Los Angeles (1996), ambos de Carpenter, com cidades isoladas e a necessidade de combate a inimigos peculiares. Como acontece nesses argumentos similares, as intenções do contratante não são exatamente a que se espera – e, no caso específico de Army of the Dead, acaba por se revelar um furo imenso no roteiro ao ponto de você pensar “se era para isso, por que já não realizou o feito assim que adentraram a cidade proibida?

Quando ultrapassam as barreiras de segurança, o grupo já se depara com um tigre zumbi – animal símbolo de cassinos de Las Vegas – muito bem realizado, e descobre que os zumbis já se separam em castas (como visto em Zumbilândia 2), algumas com exemplares bobalhões e outras com criaturas inteligentes que descobriram um meio de criar novos seres pensantes e se vestem como guerreiros agressivos como os de Fantasmas de Marte (2002). A primeira que aparece, conhecida como Rainha (com a aparência da canibal de The Woman, embora alguns a associem à principal de A Volta dos Mortos-Vivos 3), faz parte do grupo Alfa, e, após receber a oferta de um ferido Burt, ela o conduz ao encontro de Zeus no cassino Olympus.

A partir de então, os sobreviventes encontram diversos desafios até alcançar o cofre. Em um deles, em um dos momentos mais interessantes do filme (mas também não original), eles precisam atravessar um ambiente repleto de zumbis hibernando como manequins, sem que possam fazer barulho ou encostar neles. É uma sequência tensa pela baixa iluminação e pelos incidentes que irão acontecer pelo caminho, revelando a verdadeira natureza (não tão assim surpreendente) de um personagem. Enquanto realizam o percurso problemático, a televisão informa que, para evitar uma associação equivocada com a Independência Americana, a bomba será disparada em 90 minutos, obrigando ações mais rápidas do grupo para completar a missão proposta.

Além do desfile de clichês já vistos à exaustão no subgênero, Army of the Dead revela diversos furos em seu roteiro, além do quanto seus personagens são bastante estúpidos. Só para mencionar mais alguns, sem grandes spoilers: por que a equipe não invadiu a cidade com roupas de proteção à radiação e simplesmente não ficou no cofre, já que o atraso poderia realmente acontecer? Depois que uma bomba explode, quanto tempo demora até que a pessoa possa sair de sua proteção e se considerar segura? Por que tal personagem resolveu trancafiar outro nesse lugar em vez de entrar COM ELE? Como tal personagem iria conseguir salvar alguém, contando apenas com uma arminha, sem saber se terá problemas pelo caminho (e por que ela sumiu de cena durante uns vinte minutos, facilitando o roteiro?) Por que os zumbis inteligentes demoraram para caçar os invasores, esperando a morte de alguém importante?

É claro que a proposta de Snyder é apenas a diversão, sem que o público precise pensar muito. Mas, muita enrolação poderia ter ficado na sala de edição para diminuir o tempo de filme. O diálogo de reconciliação de pai é filha é um exemplo de um longo tempo desperdiçado – e ainda mostra o quanto um simples telefonema poderia resolver todo o problema de comunicação. E há outros episódios de desenvolvimento de personagem que apenas atrasam a dinâmica da narrativa, algo comum também nos filmes de ação de Snyder. E os melodramas também se destoam do tom satírico inicial, quando se imaginava que se veria um filme de zumbis bem-humorado (também visto em Madrugada dos Mortos).

Apesar dessas falhas, realmente Army of the Dead propõe algum entretenimento. Acerta em boa parte dos aspectos técnicos, além da trilha sonora que traz lembranças de The Cranberries, Creedence e quatro músicas do Elvis Presley. É provável que o resultado seria mais satisfatório se o longa assumisse a condição de apenas uma sátira do estilo e cortasse seus excessos (embora, se isso acontecesse, daqui uns anos teríamos mais um snydercut). De qualquer forma, o projeto já nasceu fértil: uma animação prequel e uma série já estão em desenvolvimento pela Netflix, o que irá resultar em mais zumbis estilosos e personagens bobos em cena para a diversão dos infernautas.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 3.9 / 5. Número de votos: 12

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas (2021)

  • 08/06/2021 em 23:43
    Permalink

    Gostei do filme de um modo geral, me diverti com as referencias, longe de se tornar um clássico, mas cumpriu o seu propósito de entreter.

    Resposta
  • 08/06/2021 em 23:00
    Permalink

    Todo resgate com o helicóptero lembra bastante ALIENS, mas apesar de todo mundo ter odio, eu gostei.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.