Invasão Zumbi 2 (2020)

Invasão Zumbi 2
Original:Train to Busan 2: Peninsula
Ano:2020•País:Coreia do Sul
Direção:Sang-ho Yeon
Roteiro:Sang-ho Yeon, Ryu Yong-jae
Produção:Dong-Ha Lee
Elenco:Dong-Won Gang, Jung-hyun Lee, Re Lee, Hae-hyo Kwon, Min-Jae Kim, Gyo-hwan Koo, Do-Yoon Kim, Ye-Won Lee

Criaturas canibais ávidas pela carne dos viventes a bordo de um claustrofóbico trem foi o mote de um dos melhores filmes de zumbis deste século. Invasão Zumbi estreou em 2016, no mesmo ano de outro filmaço, O Lamento, evidenciando uma ascensão cada vez mais notada do cinema sul-coreano. Aliás, é o país que mais evoluiu no que se refere ao cinema fantástico de 2000 para cá com obras como o recente oscarizado Parasita (2019), além de Mr.Vingança (2002), Oldboy (2003), Medo (2003), Lady Vingança (2005), O Hospedeiro (2006), Sede de Sangue (2009), Eu Vi o Diabo (2010), Expresso do Amanhã (2013), entre outros, sem contar a belíssima série Kingdom, em sua segunda temporada. Contudo, os zumbis contorcionistas de Sang-ho Yeon realmente chamaram a atenção, seja pela movimentação assustadoramente criativa ou no enredo dramático que levou muitas pessoas às lágrimas em seu ato final. E meses antes ele já tinha explorado uma Coreia apocalíptica com seu cartão de apresentação Seoul Station, o pontapé de uma trilogia que culminou com o lançamento de Invasão Zumbi 2: Península, atrapalhado ironicamente por uma pandemia.

Pela qualidade apresentada em Invasão Zumbi, que inclusive abafou as intenções de Hollywood de produzir uma refilmagem, havia uma grande expectativa pelo novo filme, confirmada ainda mais com a divulgação do primeiro trailer. Desta vez, o cineasta tinha em mãos um orçamento maior e todas as ferramentas de elenco e equipe técnica para promover uma experiência ousada, afastando-se da claustrofobia por uma terra-zumbi, com perseguições de carro e combates inteligentes entre vivos e mortos além das mensagens sobre ganância e, mais uma vez, egocentrismo. Se houve uma melhora nos efeitos e cenário, ainda houve espaço para algumas doses de drama, algo comum na franquia, sem, é claro, a mesma carga narrativa que fortaleceu a breve convivência entre o pai ausente Seok-woo (Yoo Gong) e a fofíssima Soo-an (Su-an Kim). No entanto, apesar de tudo o que possuía, Sang-ho Yeon entregou um produto comum, repetindo fórmulas e situações já vistas anteriormente nesse subgênero. Ainda assim, vale uma conferida!

Logo no epílogo, há uma situação que poderia ter sido conduzida na proposta ao apresentar uma sequência tensa em um navio repleto de refugiados da Coreia do Sul. Depois que o oficial Jung-seok (Gang Dong-won) descarta ajudar uma moça que pedia ajuda na estrada com sua filha, ele embarca no cargueiro com sua irmã, o marido dela Chul-min (Kim Do-yoon) e seu filho, deixando-os com outros passageiros para questionar uma mudança de rota. Não percebe que entre os presentes, há um homem apresentando os primeiros sintomas da doença, e que levará o local a um inferno de sangue e mortos-vivos em poucos minutos. A perda da irmã e do sobrinho é mostrada de uma maneira extremamente chocante e bem realizada, tanto que, se viesse um pouco mais para frente no filme, faria o público se destruir em emoção.

Quatro anos depois, desempregados em Hong Kong, Jung-seok e Chul-min ainda mantêm na lembrança o episódio, com a culpa pesando na relação entre os dois. Ambos são contratados por um bandido local para retornar à Coreia do Sul, no porto Incheon, para resgatar um caminhão que estaria repleto de dinheiro. Parece um trabalho fácil quando já se notou que os zumbis são cegos à noite, embora tenham uma audição bastante elevada. Porém, as coisas não saem como imaginam e os dois se separam: Jung-seok é abrigado por uma família – e que, óbvio, possui relação com o seu encontro no começo; enquanto Chul-min é preso por uma milícia local, que diverte seus soldados em uma arena sangrenta de apostas no combate entre os mortos e os vivos.

São esses cenários, situações repetidas e coincidências narrativas que diminuem a força de Invasão Zumbi 2. Parece uma mistura de fácil digestão de perseguições de carro em um GTA zumbi no encontro com Mad Max e até influência de Terra dos Mortos (paralisação dos zumbis, fogos de artifício, combate mortal…), mas soa como uma releitura, sem um pingo da intensidade criativa do primeiro. Sem o mesmo desenvolvimento de personagem, até porque a complicação inicial entre Jung e Chul não serve ao roteiro, o que resta é um combate entre a família e os rebeldes, com os zumbis funcionando apenas como um breve incômodo e não a verdadeira ameaça. Há uma sequência final emocionante, mas que opta por se afastar da ousadia para entregar uma solução simples e adequada à proposta.

Com tudo o que se esperava, Invasão Zumbi 2 soa obviamente decepcionante. Pode-se recomendar pelos efeitos e cenas de ação e perseguição, mas não como um filme de horror inesquecível e que poderá figurar entre os destaques de 2020.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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