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Leopardo Negro, Lobo Vermelho
Original:Black Leopard, Red Wolf
Ano:2021•País:EUA
Autor:Marlon James •Editora: Intrínseca

Pouquíssimo explorada pelas mídias existentes, apesar de riquíssima, a cultura africana é recheada de lendas e mistérios desconhecidos, e possui um folclore igualmente interessante e abrangente. Vampiros, gigantes e sereias já são mais do que conhecidos do público entusiasta do fantástico em geral – que normalmente se utiliza de uma visão mais eurocêntrica em seus enredos -, mas e Sasabonsam, já ouviu falar? Ipundulu, o pássaro trovão? Ou talvez, sabe o que é uma Sangoma? Marlon James nos dá um pequeno vislumbre dessas lendas e da cultura nas mais variadas tribos em uma África fascinante e impiedosa em Leopardo Negro, Lobo Vermelho.

É até difícil dizer como começa, já que são tantas histórias dentro da história. Antes do plot principal, existem diversos outros acontecimentos que serão importantes e necessários. Por exemplo, como nosso narrador se tornou o que é hoje, conhecido simplesmente por Rastreador.

Com um faro único, Rastreador é um homem que pode localizar qualquer pessoa, objeto, especiaria, detectar venenos e enfim, tudo mais que tenha cheiro, desde que ele já conheça o aroma. Sempre implacável e preciso, sua fama é conhecida nas mais diversas tribos e reinos, sendo sua habilidade um tanto cobiçada. Depois de ser traído diversas vezes, vive sozinho como um andarilho, sempre mudando de lugar e completando alguns trabalhos aqui e ali. Alguns muito mais perigosos do que outros.

Após muitos anos, o destino reúne Rastreador com uma curiosa figura de seu passado, o Leopardo. Uma criatura metamorfa, com a habilidade de se transformar em homem ou em fera a qualquer momento, um caçador implacável e frio, mas também um homem bem humorado e carismático. Leopardo tem uma proposta, e precisa do faro ímpar de seu amigo para completar a missão com sucesso. Uma missão que coloca em jogo a paz dos reinos do Sul, Norte e também das tribos ribeirinhas.

Uma criança foi sequestrada, e diz-se que foi a única sobrevivente de um massacre que aconteceu na casa do conselheiro Ancião do Rei Aranha, Kwash Dara. A família foi encontrada destroçada, mutilada de modo que não poderia ser obra de humano algum. Rastreador e Leopardo se juntam a um diverso grupo para sair em busca do menino, composto por uma bruxa, uma poderosa criatura do lago, um traficante de escravos e um ser maior do que um homem, mas menor do que um gigante, um Tristogo. Ao longo da jornada, outros personagens vêm e vão, e bizarras criaturas vão cruzar o caminho do grupo a todo momento. Demônios comedores de carne, bebedores de sangue, seres que tem relâmpagos correndo nas veias e diversos outros também estarão interessados no menino. Mentiras e conspirações rondam essa missão desde o início, e cabe ao Rastreador desvendar o que o garoto tem de especial e se de fato foi um sequestro, já que a cada passo uma história diferente sobre seu desaparecimento é contada. A jornada será mais longa e letal do que se poderia imaginar.

Narrado em primeira pessoa, todos os acontecimentos são contados sob a perspectiva de Rastreador. Temos acesso a todos os seus pensamentos, todo o sofrimento, mágoa e raiva que sentiu a cada traição, a cada morte, a cada descobrimento. O personagem é claramente perturbado e ressentido por tudo que já lhe aconteceu, e aos poucos vai revelando os motivos de seus rancores.

É uma história complexa, sendo um tanto confusa de início, já que não é contada linearmente. Seu começo é diretamente interligado ao final, ambos no presente, enquanto todas as jornadas contadas, de forma fragmentada, são do passado, formando um gigante quebra cabeça cujas peças começarão a se encaixar a partir da metade apenas. Os inúmeros nomes, sejam de tribos, de pessoas ou como eram chamados (por exemplo, crianças ditas “amaldiçoadas” por terem nascido diferentes ou com a pele branca, são chamadas de Mingi) também podem causar estranheza por estarem em uma linguagem diferente, mas logo se acostuma. É importante ler a lista de personagens e seus mapas, logo nas primeiras páginas, para um melhor entendimento.

Além de complexa, também é uma leitura difícil, pesada, em vários momentos. Estupros, mortes e os mais variados tipos de violência são descritos explicitamente, e alguns são culturais de algumas tribos, como por exemplo a mutilação da genitália. O fato de absolutamente toda personagem feminina ser descrita como bruxa, megera ou mentirosa também incomoda, mas vale lembrar que é a visão do personagem principal, longe de ser perfeito ou mesmo totalmente confiável, e não necessariamente do autor. No próprio livro o protagonista é acusado de ter ódio de todas as mulheres por causa de sua mãe, então, como diversos outros problemas, o ódio é apenas um reflexo de traumas e problemas passados mal resolvidos. Nenhum personagem é totalmente bom ou ruim, não há um herói soberano e altruísta ou um mal específico a ser combatido.

Apesar disso, a obra é totalmente a favor da diversidade. Enquanto em alguns lugares é mal visto “homem deitar com homem como se fossem marido e esposa”, em outros isso é absolutamente normal e não faz ninguém ser “menos homem”, pelo contrário. As crianças chamadas de Mingi também fazem alusão a deficiências, sendo acolhidas e mostrando que são capazes de tudo à sua maneira.

São mais de 700 páginas nos apresentando a riqueza do folclore africano e as diferenças culturais entre tribos, suas brutalidades e guerras. Mostra uma África selvagem, livre, assustadora e também fantástica. Tudo é descrito muito detalhadamente, mesclando a fantasia aterradora das lendas e mitos com a realidade agressiva das rivalidades entre reinos e diferentes povos, resultando em uma trajetória de proporções épicas e alucinantes sobre perdas, sangue, traumas e amor, mesmo em meio a todo caos.  Uma fantasia que resgata e apresenta a mitologia africana em toda sua glória.

Leopardo Negro, Lobo Vermelho é o primeiro livro de uma provável saga, chamada de Estrela Negra. Seu final, um tanto agridoce, não é o final definitivo, algumas pontas não foram totalmente amarradas, deixando margem para mais mistérios e seres desconhecidos por vir.

Marlon James é autor de quatro livros, sendo Uma Breve História de Sete Mortes vencedor do prêmio Man Booker de 2015.

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