Spree (2020)

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Spree
Original:Spree
Ano:2020•País:EUA
Direção:Eugene Kotlyarenko
Roteiro:Gene McHugh, Eugene Kotlyarenko
Produção:Matthew Budman, Sumaiya Kaveh, Eugene Kotlyarenko, John H. Lang
Elenco:Joe Keery, Sasheer Zamata, David Arquette, Kyle Mooney, Mischa Barton, Frankie Grande, Joshua Ovalle

Nos últimos anos a palavra influencer ganhou muita força. Usada para dar nome aqueles que possuem milhões de seguidores em suas redes sociais, o termo parece ter quase virado um emprego recentemente e não são poucos os que buscam esse tão almejado status moderno. É justamente ao olhar para essa busca que Eugene Kotlyarenko nos entrega Spree um slasher/found footage que vem recheado de críticas a sociedade moderna e seu desejo insaciável de compartilhar cada detalhe de suas vidas em troca de números nas redes sociais.

Kurt Kunkle (Joe Kerry) é um jovem obcecado por mídias sociais. Através dos anos ele tenta de todas as maneiras possíveis viralizar nas redes, mas nunca consegue sucesso na sua missão. Enquanto isso, Bobby, um garoto do qual Kurt costumava cuidar, faz inúmeras lives no Instagram e em outras mídias com um alto número de espectadores, o que vai cada vez mais despertando a inveja de Kurt.

É então que Kurt tem sua grande ideia, o jovem decide começar a trabalhar com motorista de um aplicativo chamado Spree – que aqui serve com um trocadilho com o termo em inglês killing spree, usado para designar uma matança desenfreada – e com isso cria algo que ele batiza de #TheLesson. As suas corridas serão transmitidas no Instagram enquanto ele ensina “lições” para as pessoas que estão assistindo de como viralizar nas redes sociais. A cereja no bolo para o sucesso de Kurt nas redes sociais depende de um fator muito simples: ele irá matar seus passageiros durante as transmissões.

Ao mesmo tempo que o filme apresenta Kurt como um serial killer, ele também constrói o personagem através de um ótica engraçada e quase pateta, o que faz com que o público consiga por boa parte do filme acompanhar as lives de Kurt sem odiá-lo completamente. Em suas primeiras matanças somos apresentados a passageiros desprezíveis, o que faz com que seja possível torcer para que Kurt alcance seus objetivos.

Após algumas mortes somos introduzidos à personagem Jessie Adams (Sasheer Zamata), uma humorista em ascensão que acaba por entrar no carro de Kurt, ao perceber que se trata de uma pessoa famosa nas redes sociais, o jovem psicopata começa a tentar persuadi-la para postar sua #TheLesson no Instagram. É no momento que Jessie resolve sair do carro de Kurt e não postar sobre o garoto no seu Instagram que o personagem começa lentamente a caminhar cada vez mais para se tornar um vilão na trama.

Após ser rejeitado por Jessie e não obter os números que esperava, o filme constrói seu último ato de uma maneira frenética, levando elementos de ação e principalmente de perseguições de carros para dentro da história. Temos aqui um surto completo de Kurt em sequências que são interessantes e que sabem explorar bem o potencial de Joe Kerry, apesar de não colocar o ator em um papel muito distante de Steve de Stranger Things, personagem que o fez ficar conhecido. O tom de sátira e crítica social fica bastante claro o filme inteiro; é no roteiro que o personagem encontra sua força e ao ser bem apresentado para nós desde o início conseguimos entender o motivo pelo qual Kurt toma atitudes tão extremas, que apesar de exageradas, conseguem se sustentar a partir da ideia principal do filme: tudo é válido se o objetivo é se tornar famoso nas redes sociais.

Assim como em Host (2020) o filme escolhe utilizar a própria linguagem da internet para contar sua história; toda a trama é apresentada para nós através de “lives” como se fossemos parte da audiência de Kurt assistindo sua transmissão, mostrando que o gênero found footage ganhou novos ares nessa década. Porém, o formato do filme pode não agradar aqueles que são menos familiarizados com as mídias sociais. Não são poucas as vezes que temos inúmeras lives acontecendo ao mesmo tempo na tela e não sabemos para onde olhar, o que mostra também que o filme sabe muito bem o público alvo que está buscando, ao optar justamente por utilizar uma linguagem que a geração atual parece estar mais acostumada.

O filme se preocupa também em não construir uma crítica apenas àqueles que produzem conteúdo para internet, mas também aos que o consomem. Durante todo o filme acompanhamos constantemente os chats de lives que são colocadas em tela, mostrando um público carregado de ódio e tão vazios quanto Kurt, se aproveitando do anonimato que a Internet pode proporcionar, para tecer comentários que não estão muito longes do dia-a-dia das redes sociais do mundo real. É claro que o filme distorce a realidade e aumenta suas proporções, mas é justamente ao aumentar suas premissas que Spree consegue apresentar bem aquilo que se propõe a criticar.

Spree é exagerado, caótico e em alguns momentos até confuso, mas também vem carregado de um fator único que o torna um filme interessante. É ao apostar no formato de mídias sociais que Eugene Kotlyarenko consegue pavimentar um caminho que talvez inúmeros filmes possam escolher tomar em um futuro próximo. Em um mundo cada vez mais conectado por redes sociais e celulares é natural que o gênero do terror e found footage comece a explorar esse terreno, e Spree pode ser a semente para que futuros diretores utilizem esse formato para criar propostas interessantes que conversem com novas gerações e, dessa maneira, possam convidar um novo tipo de público para explorar o universo do terror.

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Lucas Crizza

Motion designer, apaixonado por tudo que envolve o mundo do horror. Quando criança descobriu a seção de terror nas videolocadoras e nunca mais foi o mesmo.

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