Savaged (2013)

4.3
(4)

Savaged
Original:Savaged / Avenged
Ano:2013•País:EUA
Direção:Michael S. Ojeda
Roteiro:Michael S. Ojeda, Deon van Rooyen(
Produção:Jason Gurvitz, Lezlie Wheeler
Elenco:Amanda Adrienne Smith, Marc Anthony Samuel, Rodney Rowland, Tom Ardavany, John Charles Meyer, Brionne Davis, Ronnie Gene Blevins, Kyle Morris, Joseph Runningfox, Donnelle Russell, Daniel Knight, Ed Fletcher

Michael S. Ojeda propõe um novo jeito de se fazer vingança no thriller Savaged aka Avenged, de 2013. Com mais créditos em trabalhos como diretor de fotografia – ele tem sua filmografia o fraco The Amityville Terror (2016) -, ele comandou 14 produções, incluindo outro filme de vingança alucinógeno intitulado The Russian Bride, lançado em 2019. Tanto nesta obra quanto em Savaged, nota-se alguns pontos em comum como sequências de violência física com mais intensidade na vingança do que na vítima, e mulheres com papéis fortes e que se transformam diante de atitudes machistas. E há também elementos sobrenaturais envolvidos, seja na invocação de um espírito vingativo ou no apoio de alguma entidade errante.

Apesar da protagonista feminina incorporar a vingança em Savaged, o longa é apontado como parte do subgênero “redsploitation“, que envolve produções que abordam a presença do nativo americano, sem estereotipá-lo. Foi um estilo que surgiu na década de 70 em resposta ao cinema anterior que apontava o índio como vilão em muitas produções, armados para matar os brancos e sequestrar mulheres, comum em westerns diversos. A partir do final dos anos 70 – e o ciclo do canibalismo italiano contribuiu para isso -, eles passaram de seres apenas cruéis para aqueles que se vingam por alguma razão. Assim, no começo desses filmes, era hábito mostrar homens judiando dos índios ou agindo com preconceito e agressividade, sem generalizar, somente para depois vir a consequência disso.

Consciente dessa bagagem, Savaged começa com a bela surda-muda Zoe (Amanda Adrienne) anunciando à mãe que pretende atravessar o país para ir ao encontro do namorado Dane (Marc Anthony Samuel). Mesmo com os alertas de sua progenitora sobre os riscos desse passeio solitário, ela segue viagem de carro, registrando com o celular diversos momentos da jornada, enviando imagens para o rapaz. Em determinado momento em que quase atropela um nativo ferido, ela para o carro somente para testemunhar um grupo de homens perseguindo e matando um outro indígena da mesma tribo. A garota até tenta ajudar o ferido, mas é alcançada pelos verdadeiros “selvagens“, que a prendem numa cama em um celeiro e a estupram – felizmente, sem explicitar o ato, embora a imaginação possa ser tão perversa quanto.

Com muito esforço e dores, ela resolve se soltar dos arames, no exato momento em que sua sorte é decidida em um jogo de cartas. Ela até tenta fugir mas é perseguida, esfaqueada, morta e enterrada no próprio deserto. Contudo, seu corpo é encontrado por um chefe indígena, Grey Wolf (Joseph Runningfox), que realiza um ritual para trazê-la de volta e acaba trazendo também o líder Apache Mangas Coloradas, que realmente existiu. Também conhecido como Dasoda-hae (“ele apenas se senta lá”), ele viveu entre 1793 e 1863 como membro de uma divisão dos Apaches, intitulada Mimbreño, e realizou confrontos contra mexicanos e americanos, selando a paz e a união em alguns momentos. No filme, o crânio dele, com uma caracterização própria, é mostrado e serve como elemento que justifica a vingança.

Possuída pelo espírito guerreiro, Zoe volta a escutar e até mantém a memória sobre sua vida anterior e o namorado. Ela consegue entrar em contato com Dane, que resolve ir ao seu alcance enquanto a garota realiza uma vingança sangrenta contra os agressores, arrancando seus órgãos, esfaqueando-os e flechando-os. Não demorará para ela perceber que está morta e seu corpo está apodrecendo, o que pede uma ação rápida antes que não tenha mais forças para combater os inimigos.

A ideia do título que reflete sobre quem seria o verdadeiro selvagem é bastante adequada. Os rapazes que a agridem e a moça vingativa pode até fazer o público esquecer que o estopim da violência, nesse caso, é o nativo americano. Seu espírito guerreiro pode também se tornar uma ameaça até para quem não tem ligação com os criminosos, o que torna a proposta ainda mais ousada. O que compromete o longa e o impede de se enquadrar entre as obras populares do subgênero “rape and reveage” é a qualidade técnica. Efeitos ruins são visíveis, como todos os que envolvem fogo e explosões artificiais, com maior comprometimento na cena da capotagem perto do final.

E a direção de Ojeda também não é um primor. Até realiza um trabalho adequado na maior parte do filme, mas algumas sequência da ação da protagonista contra os inimigos são bastante prejudicadas, principalmente por suas tomadas distantes. Por outro lado, vale elogiar a atuação de Amanda Adrienne na sua alteração de comportamento, até mesmo na confusão sobre suas ações e no desespero da descoberta de sua nova condição. Ela e o que interpreta o líder dos bandidos, Trey (Rodney Rowland), são os principais destaques do filme, em um interessante contraponto entre heroína e vilão.

Funcionando como um interessante thriller de vingança, sem ser apelativo como Doce Vingança, Savaged vale pela ideia inusitada e por todo contexto que a envolve.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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