Fresh (2022)

4
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Fresh
Original:Fresh
Ano:2022•País:EUA
Direção:Mimi Cave
Roteiro:Lauryn Kahn
Produção:Adam McKay, Kevin J. Messick
Elenco:Daisy Edgar-Jones, Sebastian Stan, Jojo T. Gibbs, Andrea Bang, Dayo Okeniyi, Charlotte Le Bon, Brett Dier

Buscar um relacionamento pela internet pode se comparar ao protagonismo de um filme de terror. É preciso coragem e ousadia nos encontros e confrontos com pessoas estranhas ao seu universo – muitas delas ameaçadoras e bizarras -, como personagens que cruzam seu caminho como coadjuvantes e antagonistas. Tal processo se torna ainda mais assustador quando se é mulher, e precisa fazer uma aproximação defensiva, como uma final girl que evita fotos de pênis, pessoas que querem decidir o seu vestuário e comportamento, para não mencionar psicopatas. Nesse ponto, o terror pode se configurar de maneira literal. É o caso de Noa (Daisy Edgar-Jones, da série War of the Worlds), que não é muito adepta de começos, de trocas de mensagens, mas sabe que todo esse procedimento é necessário para evitar frustrações.

Sua lista de decepções é tão grande que a impede de se proteger adequadamente de suas atitudes aceleradas. Uma delas acontece nos minutos iniciais, quando o improvável se personifica na figura de Chad (Brett Dier), que antes de vê-la já a alerta sobre o estabelecimento em que ocorrerão as primeiras trocas de olhares só aceitar dinheiro. Com um disparar de comentários impróprios que até desconsidera o modo natural dela se vestir, o rapaz ainda irá incomodar o restaurante ao pedir uma água com gás para limpar seu cachecol antes de proferir uma ofensa a Noa, quando receber o corte da garota pela exposição das diferenças gritantes entre eles. Desanimada, mas com o incentivo constante da amiga Molly (Jojo T. Gibbs), com quem faz treinos de boxe, ela ainda pretende insistir nessa busca.

Uma simples conversa no corredor de legumes em um mercado, com experimento de uvas, pode vir a ser a resposta que procura. Basta que o ingrediente principal envolva o carisma encantador de Steve (Sebastian Stan), que não pensa duas vezes antes de pedir o número de Noa para mais tarde iniciar um contato. Troca de mensagens carinhosas, uma ida ao bar de Paul (Dayo Okeniyi) e Noa está completamente entregue ao estranho, sem desconfiar do fato dele não ter redes sociais e todas as informações passadas são consideradas obscuras ou incompletas. Já em um segundo momento, ele já sugere uma viagem entre os dois com a proposta de se conhecerem melhor. Nada de cinema, passeios em público, nem familiares próximos.

Antes do título se destacar na tela, trinta minutos depois do início do filme, Fresh se desenha como uma comédia romântica. A direção de Mimi Cave, a partir de um roteiro de Lauryn Kahn, contribui para isso ao mostrar momentos íntimos no contraste com a falta de clareza do rapaz. Noa se mostra apaixonada desde os primeiros beijos, entregue ao estranho, disposta a se arriscar nessa aventura às cegas para encontrar seu final feliz. Mas não se engane: o filme não apenas é perverso como está na lista de muitas pessoas como um dos principais destaques de terror de 2022. Não é por acaso. Ainda que não seja nada tão agressivo, e possa ser comparado a uma versão hardcore de 50 Tons de Cinza, a situação ao qual a jovem irá se encontrar na segunda metade do filme é realmente assustadora.

O trailer esconde os caminhos como Steve quando fala sobre si. No entanto, o título complementa a imaginação mesmo que não dê indícios do que irá acontecer. Trata-se de um filme com uma vestimenta incômoda sem ser explícito. Assombra por expor uma realidade que permeia muitos envolvimentos prematuros: se conhecer a companhia nem sempre é sinal de segurança, bastando ver inúmeros exemplares de feminicídios que ocupam os jornais, aqui a situação se condiciona de maneira acelerada, pela impaciência e deslumbre de Noa. A perversidade dos acontecimentos se mistura a um humor ácido, permitindo que o espectador experimente as iguarias do enredo e se acostume com seu gosto amargo.

Todos os elementos se acertam na construção de um palco arrebatador diante da ingenuidade. Desde a morada apresentada por Steve, com quadros sinistros e ausência de comunicação externa, como a de desculpa de que partirão somente na manhã seguinte, aos poucos Noa percebe que está em um ambiente que desconhece, com uma pessoa estranha como a senhora que abre o pote para sentir o aroma do alimento na sequência do mercado. Quando a ficha finalmente cai, o talento de Daisy Edgar-Jones se sobressai em desespero pela angústia do que lhe reserva mesclada à estupidez de sua confiança. Seu algoz ainda a tortura com simpatia e aparente ternura, atendendo a seus pedidos e tentando deixá-la à vontade pela preservação da carne que o estresse poderia afetar.

Bem realizado ainda que as facilidades do enredo atrapalhem uma insegurança absoluta, Fresh é um dos grandes achados de 2022. É uma produção que promove receios e preocupações, que toca a realidade através de seu enredo inventivo. Um filme necessário como uma cartilha de sobrevivência no universo dos relacionamentos.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Fresh (2022)

  • 07/05/2022 em 19:30
    Permalink

    Eu já tinha gostado da proposta do trailer, afinal sou um dos que ainda se aventuram em busca de uma cara metade, e vivo alertando amigas que fazem o mesmo para os perigos a que estão sujeitas, os quais, pelo menos em teoria, não estou. Depois dessa crítica, vou assistir assim que possível.

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