Raça das Trevas (1990)

4.1
(14)

Raça das Trevas
Original:Nightbreed
Ano:1990•País:EUA, Canadá, UK
Direção:Clive Barker
Roteiro:Clive Barker
Produção:Gabriella Martinelli, Mark Alan Miller
Elenco:Craig Sheffer, David Cronenberg, Anne Bobby, Charles Haid, Hugh Quarshie, Hugh Ross, Doug Bradley, Catherine Chevalier, Malcolm Smith, Bob Sessions, Oliver Parker, Nicholas Vince, Simon Bamford, Christine McCorkindale, Vincent Keene, Bernard Henry, David Young, Mac McDonald, McNally Sagal

A mente de Clive Barker é um submundo habitado por criaturas estranhas. Depois da realização do excepcional Hellraiser – Renascido das Trevas, o escritor e cineasta inglês acreditou – com o respaldo da Morgan Creek, a produtora de Joe Roth – que seria o momento de mostrar mais monstros de seu repertório tenebroso, desenvolvendo o subestimado Raça das Trevas (Nightbreed, 1990), a partir de seu livro Cabal, lançado dois anos antes. O marketing problemático e algumas das ideias do estúdio contribuíram para que o longa fosse um retumbante fracasso nas bilheterias, embora tenha facilmente alcançado o status de cult, e afastou Barker das pretensões de se tornar um diretor efetivo – fez apenas O Mestre das Ilusões, de 1995.

Barker pretendia desenvolvê-lo em uma trilogia, quando viu a possibilidade de adaptá-lo para o cinema. Queria criar um mundo onde aberrações (ou pessoas fora dos padrões determinados pela sociedade) pudessem conviver em harmonia, mesmo que à distância. Como muitos críticos e pesquisadores notaram nos anos seguintes, a proposta era realmente socar o estômago de uma sociedade engessada em estereótipos e preconceitos, e que sempre enxergou a comunidade LGBTQIA+ como marginal. Barker já havia focado em mensagens similares para construir seus cenobitas, e Raça das Trevas era mais um exemplar de seu contexto aprofundado.

Apesar desse necessário enfoque, o longa foi vendido como um filme de monstros. Cartazes, imagens promocionais e trailers apresentavam um universo confuso, sem qualquer linha narrativa que pudesse levar o espectador a entender a proposta. Assim, com o custo de US$ 11 milhões, o longa só fez US$ 8 nos EUA, mas alcançou os US$16 em estreias internacionais – distante de se mostrar eficiente nas bilheterias. Sofreu com os cortes da censura e da própria produtora, uma vez que Barker havia filmado pouco mais de duas horas e meia. Para piorar, a Morgan Creek não quis que o longa fosse visto pela crítica, lançando-o diretamente nos cinemas, com o argumento de “quem vê filmes de terror não lê críticas“, dificultando que a produção fosse comentada em jornais e revistas de cinema.

Toda a confusão afastou o editor Richard Marden e enfureceu Barker, que tinha um contrato para três filmes. Somente em 2014 foi lançada a versão do diretor, com o apoio da Scream Factory, contendo cenas extras que explicam as ações de alguns personagens e trazem um final alternativo. As mudanças empolgaram estúdios a pensar em uma refilmagem ou até mesmo uma série de TV: Josh Stolberg está desenvolvendo o roteiro para o Syfy, e Michael Dougherty pode ser que assuma a direção. Como as notícias datam de 2018 e todos os envolvidos já estão com outros projetos, resta saber se realmente teremos uma nova versão, mais completa e próxima da literatura, da obra de Clive Barker.

Apesar dos percalços nos bastidores, Raça das Trevas ainda se mostra interessante em uma releitura. A trama traz a angústia de Aaron Boone (Craig Sheffer, de Hellraiser V: Inferno) com pesadelos envolvendo um lugar chamado Midian, uma comunidade habitada por monstros, escondidos nas profundezas de um cemitério. Com o apoio de sua namorada Lori Winston (Anne Bobby), ele busca a ajuda do psicoterapeuta Dr. Phillip Decker (o cineasta David Cronenberg), que possui um segredo sinistro e tenta convencer Aaron que ele é um serial killer responsável pelo assassinato de famílias. Usando drogas como LSD, ele sugere que o rapaz se entregue à polícia, mas este sofre um acidente e vai parar no hospital, local onde conhece o insano paciente Narcise (Hugh Ross), que conhece Midian e aponta sua localização, antes de arrancar o próprio rosto – em efeitos bem realizados – e permitir a fuga de Aaron.

Ele chega a Midian em busca de refúgio pela sua natureza assassina. Lá é recebido pelas criaturas Kinski (Nicholas Vince) e Peloquin (Oliver Parker), que divergem sobre levá-lo aos subterrâneos. Quando Peloquin nota a inocência do rapaz, resolve atacá-lo, mordendo-o. Aaron consegue fugir, mas é surpreendido por policiais, liderados por Decker, e é morto a tiros. Volta à vida momentos depois no necrotério, devido ao ferimento causado pelo demônio, e consegue a tal passagem necessária para habitar Midian, participando até mesmo de um ritual de sangue e sacrifício a Baphomet, comandado por Dirk Lylesburg (Doug Bradley, o Pinhead clássico). Enquanto isso sua namorada parte numa jornada inicialmente solitária, depois auxiliada pela prostituta Sheryl Ann (Debora Weston), visando encontrar Midian para libertar Aaron, mas Decker e a polícia local estão com planos de destruir toda a comunidade.

Embora seja habitada por seres disformes, Midian se mostra uma comunidade como qualquer outra, com suas regras e respeito. Conscientes de sua natureza não aceita pela sociedade, seus habitantes buscaram um local onde pudessem viver em paz, à distância dos humanos. Barker e a equipe de produção fizeram um trabalho muito conceitual de maquiagem e construção de diversas criaturas, com personalidades próprias, com destaque para Rachel (Catherine Chevalier), a mãe que tem o poder de se transformar em fumaça e cuida de um monstrinho que não pode ser exposto à luz solar; e a que tem as costas repletas de espinhos venenosos. Apesar de seus poderes não terem intenções maléficas – muitas estão ali apenas para se defender -, há também um local muito mais profundo, onde bestas insanas chamadas Berserkers são mantidas encarceradas, tendo uma grande importância no confronto que vai definir a continuidade de Midian.

Além dos bons efeitos de maquiagem, Raça das Trevas é beneficiado pela Fotografia de Robin Vidgeon e a Direção de Arte a cargo de Ricky Eyres. Os cenários são muito bem construídos, mesmo na mescla com desenhos estruturais: um labirinto de cavernas escuras, com crânios afixados nas paredes, tochas, pontes de cordas, até o habitado por Baphomet (Bernard Henry). E o elogio pode ser estender às boas atuações, como a performance de David Cronenberg e sua máscara assustadora – ainda que seu personagem seja mal desenvolvido, por razão dos cortes da edição final, não permitindo que seu próprio objetivo seja compreendido.

Com uma longa duração, Raça das Trevas poderia ter também uma vida longa com o desenvolvimento da trilogia proposta por Barker. Seria interessante explorar ainda mais esse submundo de seres errantes, com mensagens sobre a intolerância e o preconceito. O escritor desenvolveu mais uma vez uma mitologia própria e que poderia até cruzar na tela com os demônios convocados pela Configuração dos Lamentos na construção de um universo de criaturas bizarras e que habitam os meandros da incompreensão humana.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “Raça das Trevas (1990)

  • 22/12/2023 em 11:17
    Permalink

    Assisti essa obra De Clive Backer em 1995 no Intercine da Globo, como toda obra do mestre Backer, Raça das Trevas me chamou muita atenção pelo horror vísceral. Revi agora no HBO Max, mesmo com aquele ritmo frenético forçado dos filmes dos anos 90 e alguns efeitos limitados , percebo a riqueza na caracterização e no trato estético dos personagens metamorfos/monstruosos típica do Backer. Eles, realmente roubam a cena do protagonista em muitos momentos, além do Dr Decker , o antagonista, que poderia ter ser tornado um ícone dos Monstros de Horror na atuação de excelente de Cronenberg. Apesar do erros na produção , Backer traz no filme uma mensagem duradoura sobre os horrores da perseguição e intolerância e um questionamento muito atual :quem são os realmente os monstros ?

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  • 24/11/2023 em 02:03
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    Eu adoro esse filme! Barker poderia ter dirigido mais filmes. Sua mente insana e criativa é terreno fértil para histórias surreais, muito criativas e, sobretudo, muito humanas. Por sorte, temos a versão do diretor para essa pequena joia cult do horror moderno. Aguardo resenha no site para outro ótimo filme de Barker: O Mestre das Ilusões 😉

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