A Filha de Frankenstein (1958)

4.2
(6)

A Filha de Frankenstein
Original:Frankenstein's Daughter
Ano:1958•País:EUA
Direção:Richard E. Cunha
Roteiro:H.E. Barrie
Produção:Marc Frederic, George F. Foley Jr.
Elenco:John Ashley, Sandra Knight, Donald Murphy, Sally Todd, Harold Lloyd Jr., Felix Locher, Wolfe Barzell, John Zaremba, Robert Dix, Harry Wilson

Quando uma junção de cadáveres ganhou vida pela energização de seu corpo, a Criatura de Frankenstein se estabeleceu como um dos principais monstros do cinema de horror. Desenvolvido por Mary Shelley, a Criatura adquiriu uma caracterização no imaginário popular na pele de Boris Karloff no absoluto Frankenstein, de 1931. Depois que a obra literária entrou em domínio público, qualquer cineasta poderia criar sua própria história, utilizar o nome Frankenstein para o cientista louco e explorar alguns conceitos como a importância da eletricidade e da mescla de mortos. Contudo, não poderia fazer uso de semelhanças físicas como a pele esverdeada e os parafusos no pescoço – conceitos de domínio da Universal Pictures. Assim, depois que o estúdio parou de produzir filmes com a Criatura, outros passaram a explorar a proposta, apostando na criatividade para a composição da aberração que seria desperta. Se a Hammer soube moldar seu monstro de maneira interessante, em sete produções (A Maldição de Frankenstein, A Vingança de Frankenstein, O Monstro de Frankenstein, …E Frankenstein Criou a Mulher, Frankenstein Tem que Ser Destruído, Horror de Frankenstein e Frankenstein e o Monstro do Inferno), outras produtoras com menos recursos realizaram bagaceiras divertidas, como os longas produzidos pela AIP.

A Filha de Frankenstein entra em uma lista inferior até às produções da AIP, tendo sido realizado pela Layton Film Productions Inc. Criada por Dick Cunha, que havia saído da Screencraft Productions, e Mark Frederic, o estúdio surgiu com a intenção de produzir 10 filmes em dois anos – além de A Filha de Frankenstein, fez as bagaceiras: Terríveis Monstros da Lua (1958) e o perdido The Girl in Room 13. Filmado em apenas seis dias, com um orçamento irrisório de U$65 mil dólares, é possível perceber que você estará diante de um longa feito no quintal da Screencraft, dirigido por Richard E. Cunha, que chegou a chorar quando viu o visual de sua Criatura de Frankenstein. As lágrimas se devem ao fato do criador da máscara, Harry Thomas, não saber que a criatura seria uma mulher, moldando a face para a vestimenta do grandalhão Harry Wilson, o que torna a experiência ainda mais divertida. E não é o único monstro do filme.

Pode-se dizer que o roteiro apresenta uma mistura do texto de Mary Shelley com o de Robert Louis Stevenson para O Médico e o Monstro. E essa segunda “criatura” já aparece em menos de quarenta segundos do filme, no pesadelo de Trudy Morton (Sandra Knight, Morella: O Espírito Satânico): nele, sua amiga, Suzie Lawler (Sally Todd), acaba de ser deixada na esquina de casa após um encontro, e vê uma moça de camisola, com sobrancelhas grossas e uma dentição saltada, lembrando o Seu Boneco da Escolinha do Professor Raimundo. E o estranho é que no dia seguinte, Suzie vai dizer aos amigos que realmente aquilo aconteceu, mesmo Trudy não tendo se transformado em monstro ainda. Vai entender…

A transformação vai acontecer devido a uma experiência de seu tio, o cientista louco Carter Morton (Felix Locher), que, pelo bem da humanidade, está desenvolvendo uma fórmula capaz de eliminar as “células destrutivas” do corpo humano, o que acabaria com as doenças. Ele conta com a assistência de Oliver Frank (Donald Murphy), um descendente de Frankenstein, e que não quer esperar por mais testes, dando a bebida para Trudy. Transformada, ela irá causar terror na cidade, assustando os moradores e atraindo a atenção do Tenente Boyle (John Zaremba) e do Detetive Bill Dillon (Robert Dix). Mas Oliver tem outros planos, mantendo escondido no compartimento secreto do laboratório uma mescla de cadáveres, precisando apenas de uma cabeça para criar vida, contando com a ajuda de seu Igor, o jardineiro Elsu (Wolfe Barzell). Quando as tentativas de conseguir uma cabeça falham, Oliver irá atacar Suzie, finalizando sua experiência com a descarga elétrica.

A Criatura desperta para ocasionar assassinatos e seguir seu mestre – sabe-se lá por que -, enquanto Trudy terá apenas a ajuda de seu namorado Johnny (John Ashley) para enfrentar a ameaça e o inescrupuloso cientista. Andando com movimentos de um robô, tendo uma bandagem circundando a cabeça, a maquiagem é ainda mais tosca que a da Trudy monstro. Mas engana-se quem pensa e espera um possível confronto entre eles! Depois que a Criatura de Frankenstein, chamada de “a filha mesmo” embora não seja, desperta ninguém mais se lembra daquele outro monstro que perambulava as ruas, e isso inclui a polícia. E o pior é que termina o filme sem que a própria Trudy saiba de sua transformação e entenda como aconteceu.

“Não a reconhece? É a Suzie…ela está um pouco deformada…”

Com toda tosquice, o IMDB ainda aponta que o longa é um musical. E a razão para isso é que lá para uma hora de filme, com Suzie desaparecida e um monstro rondando o local, o tio, que teve um princípio de infarto mas melhorou em poucos minutos, vai sugerir a Trudy que faça um churrasco. “Vou chamar a gangue toda.“, ela diz. No local aparecem vários figurantes dançando, alguns sem camisa, à beira da piscina, e uma banda tocando ao fundo. O grupo apresenta três músicas, sendo que duas cantadas por Johnny, provavelmente para aumentar a duração do longa e promover a banda e o talento vocal do ator..

E o tio Carter ainda vai proporcionar uma situação ainda mais engraçada: em dado momento, Oliver vai tentar estrangulá-lo, sendo interrompido por uma batida na porta. Quem estaria batendo? O Tenente da polícia! Ao invés dele logo contar a tentativa de assassinato, eles conversam normalmente, com o cientista apenas dizendo que ele não trabalha mais para ele. Isto é, foi demitido por tentativa de assassinato do chefe!

Como se percebe, A Filha de Frankenstein é de fazer chorar mesmo….de rir. Com diversos problemas técnicos, interpretações exageradas e maquiagens ruins, H.E. Barrie desenvolveu um roteiro de muitas falhas e pouca eficiência. Entra para a galeria das bizarrices da Sétima Arte, das tosquices feitas em nome da principal criação de Mary Shelley, e que vale apenas pelas risadas.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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