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Extermínio: O Templo dos Ossos
Original:28 Years Later: The Bone Temple
Ano:2026•País:UK, EUA
Direção:Nia DaCosta
Roteiro:Alex Garland
Produção:Bernard Bellew, Danny Boyle, Alex Garland, Andrew Macdonald, Peter Rice
Elenco:Jack O'Connell, Alfie Mirren Mack, Gordon Alexander, Louis Ashbourne Serkis, David Sterne, Elliot Benn, Ralph Fiennes

Quando Cillian Murphy despertou em um mundo apocalíptico, não demorou para perceber que enfrentaria ameaças ainda piores que os infectados. Romero já havia nos mostrado o quanto o ser humano expôe sua ganância e egocentrismo diante de um cenário aterrorizante, ampliado pela sensação claustrofóbica. Em Extermínio, Jim encontra apoio entre sobreviventes, mas também descobre um grupo militar com interesses escusos e violentos.  28 semanas depois, com a quarentena imposta, foi a vez de Don (Robert Carlyle) esconder de seus filhos a covardia por ter deixado a esposa para trás pela própria sobrevivência. Já em Extermínio: A Evolução, além do pai adúltero, ignorando a doença da esposa, o longa de Danny Boyle permitiu uma visão religiosa, com a formação de comunidades com suas crenças e rituais de passagem, além de grupos menores que seguem líderes, como representantes na terra de uma força espiritual maior. Em todos esses cenários, nota-se que a verdadeira doença não se transmite pelo contato com o sangue.

O terceiro filme seguiu a linha de esquisitices da franquia. Quem esperava mais um “filme de zumbi” não digeriu bem o processo evolutivo dos infectados e muito menos o final “teletubbies“, com guerreiros coloridos evocando o grito de guerra “Que tal!!“, associado à trilha desconexa. Assim, com uma certa desconfiança, Extermínio: O Templo dos Ossos (28 Years Later: The Bone Temple, 2026) chega aos cinemas para completar as lacunas do anterior, ocasionar encontros e reencontros, expondo mais uma vez o lado perverso da humanidade, tendo como contraponto a loucura da sobrevivência. É mais um filme estranho, que também lida com emoções diversas, com o selo Alex Garland de narrativas diferenciadas.

No final do anterior, o jovem Spike (Alfie Williams) teve que lidar com a perda da mãe no “memento mori“, amadurecendo de forma mais significativa do que havia proposto sua comunidade. Quando precisou lidar solitariamente com infectados, o garoto foi ajudado por um grupo intitulado “Jimmys“, liderado por Sir Jimmy Crystal (Jack O’Connell), absolutamente inspirado no agressor sexual e pedófilo Jimmy Saville, com um passado envolto em homenagens e descobertas sórdidas. Como em sua terra natal, Spike é obrigado a passar por um ritual de aceitação, antes de vestir uma peruca loira, um agasalho colorido, e se tornar um dos “dedos de Jimmy“, tendo que participar de “caridades” e descobrir da pior forma o que seria “tirar a camisa” e “tirar a calça“.

Do outro lado do palco, está o sobrevivente Dr. Kelson (Ralph Fiennes) mantendo seu “templo de ossos“, enquanto realiza experimentos com o alfa que apelidou de Sansão (Chi Lewis-Parry). Ambos os personagens, Jimmy Crystal e Dr. Kelson, são mais bem aprofundados, com detalhes sobre seu modo de vida e sobrevivência, enquanto a cineasta Nia DaCosta (A Lenda de Candyman) preparava o embate, em um espetáculo de heavy metal, reflexões sobre dogmas e doutrinas, e a descoberta sobre o que seria a entidade “Nick“. Em meio a essa exploração de interesses, Garland mostra que nem todos os Jimmys aceitam sua condição sem questionar, destacando a jovem Jimmy Ink (Erin Kellyman), como o apoio que Spike precisa para suportar a violência de seu líder.

O processo de evolução dos infectados, como sugerido no anterior, é mais intensificado em Templo de Ossos. A partir de dardos de morfina e convivência com o grandalhão, Kelson parece identificar uma mudança de postura, mantendo trilhas sonoras como inspiração de seus atos. É certo que o doutor fora influenciado por esse mundo apocalíptico, pela solidão, e a loucura ronda até mesmo seus momentos de ação racional. Com a chegada de Jimmy Crystal, as regras serão alteradas em um teatro de convencimento e revelação, encerrando núcleos para uma aposta ainda mais empolgante no encerramento da trilogia.

Ainda que as filmagens do terceiro e quarto filmes tenham ocorrido concomitantemente, há nítidas diferenças entre as produções. Enquanto Extermínio: A Evolução ampliava os horizontes com planos abertos que deixavam a aparência de uma nação condenada, O Templo dos Ossos parece mais um bairro, permitindo encontros rápidos e impedindo qualquer noção de tempo e espaço. Isso se deve à fotografia tradicional de Sean Bobbitt, criando um cenário caseiro e conflitos entre vizinhos, sem qualquer referência à comunidade isolada do longa anterior. A Evolução deixava também uma sensação de isolamento ainda maior, como se já não houvesse mais tantos lugares a serem visitados ou sobreviventes, enquanto DaCosta apresenta aventureiros isolados, moradores que insistem em residir numa terra contaminada e ainda assim procriam, mesmo sem qualquer expectativa animadora para a prole.

Em meio a personagens peculiares com cruzes invertidas marcadas na testa, Extermínio: O Templo dos Ossos eleva a habilidade interpretativa de Fiennes. Com mais tempo em cena, explorando uma mescla de melodrama e carisma, os principais méritos do longa devem, sem dúvida, ao seu Dr. Kelson, uma mente pensante, corajosa e ousada, um showman em um ambiente desolador. E é por essa sua condição que você espera com ansiedade o encontro dele com Jimmy Crystal no terceiro ato, propondo um jogo de inteligência e persuasão, remetendo a outros personagens hipócritas no encontro com seus oponentes na franquia: o Major Henry West e Jim (de Extermínio) e Don e Scarlet (Extermínio 2).

Com infectados, câmera insana, sangue em profusão e tortura, Extermínio: O Templo dos Ossos não inova como Boyle fez no passado, mas é uma curiosa ponte de transição para o último ato. Diferente do anterior que deixou um gostinho amargo na conclusão, desta vez o efeito é inverso: muitos que não se envolverem com a proposta, vão deixar as salas de cinema com a ansiedade evidente, imaginando o que Garland reservará para o final.

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