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Holly
Original:Holly
Ano:2023•País:EUA
Autor:Stephen King•Editora: Suma

“Uma nova milionária entra em um bar e pede um mai tai…”

Mesmo ambientando suas histórias no Maine, Stephen King não tem o costume de revisitar personagens. Criou um universo particular em que há muitas menções e conexões e que mais notadamente se estabelecem em franquias como A Torre Negra e Mr. Mercedes e em continuações como Doutor Sono. Holly Gibney, como as próprias características da personagem, foi além de tudo o que se poderia esperar, adquirindo vida a partir de sua inteligência e carisma. Surgiu na trilogia de romances de Bill Hodges (Mr. Mercedes, Achados e Perdidos e Último Turno), evidenciando características peculiares, como o próprio autor definiu: “obsessiva-compulsiva com um enorme complexo de inferioridade“. Como ajudante do detetive em estado terminal, a garota se destacou pela excelente memória, pela capacidade de observação e coragem, saltando de uma condição coadjuvante para o necessário protagonismo, merecendo uma obra à parte.

Após a trilogia, a grande surpresa da obra Outsider veio com o retorno da personagem na metade da obra. É daquelas surpresas que, como leitor, você acaba colocando o livro de lado para dar um soco no ar como comemoração, principalmente por envolvê-la com um vilão sobrenatural. King continuou dando bons tratos à detetive da empresa Achados e Perdidos na história curta da antologia Com Sangue, colocando-a mais uma vez em evidência para enfrentar um novo mistério. No entanto, ela ainda precisava de uma obra só sua, uma que justificasse ainda mais suas habilidades e que mais uma vez a fizesse encarar algum desafio. O livro Holly foi lançado em 2023, abordando as investigações sobre o sumiço de pessoas em plena época da pandemia da Covid-19.

Tem início em 12 de outubro de 2012, com o sequestro de Jorge Castro, professor de escrita criativa e literatura latino-americana, pelos também professores, agora aposentados, Emily e Rodney Harris — sim, King já apresenta seus vilões desde as primeiras páginas, incluindo seu modus operandi que remete as ações de Ted Bundy, que muitas vezes demonstrava incapacidade, com braço engessado, para pedir ajuda às futuras vítimas. No caso dos Harry, eles utilizam uma cadeira de rodas e uma van, e “jogam a isca” para que solícitos, já definidos e estudados anteriormente, se ofereçam para apoio. A razão disso é o lado mórbido e grotesco da narrativa de King, sendo apresentado aos poucos, a cada sequestro, com um gradual avanço do que acontece após levarem suas vítimas para o número 93 da Ridge Road, ainda que deixe a imaginação do leitor completar as lacunas.

Em 22 de julho de 2021, Holly está participando de um velório virtual, devido à pandemia, de sua mãe Charlotte, com quem não teve uma boa relação, mas que lhe deixou uma excelente herança. Entre um cigarro e outro, por ser uma fumante inveterada, ela é contatada na agência por Penelope Dahl, que quer descobrir o paradeiro de sua filha Bonnie, desaparecida desde o começo do mês. Holly aceita o trabalho, e busca o último local em que a garota foi vista, próxima a um loja de conveniência, no Deerfield Park, onde sua bicicleta fora encontrada com uma espécie de bilhete de despedida.

Nas investigações, conversando com pessoas envolvidas com Bonnie, Holly descobre que mais pessoas desapareceram em condições semelhantes como o garoto Peter Steinman e Ellen Craslow, uma zeladora da faculdade local. Ela amplia suas buscas, começando a acreditar que há um predador silencioso atuando na região há anos. Como se pode imaginar, as ações dos sequestradores e Holly irão se cruzar em algum momento, prrecisando mais uma vez da inteligência da detetive na solução de mais um caso sangrento. Além de Holly, outros personagens desse universo King são resgatados como Jerome, com grandes chances de se tornar um escritor famoso, e sua irmã Bárbara, em seus encontros com a experiente Olívia Kingsbury, almejando participar do Prêmio Penley de poesia.

Apesar das interações entre a jovem e a poeta servirem à obra como acréscimo cultural, acabam funcionando como intervalos do programa principal, o que pode não agradar a todos os leitores. Aliás, houve também quem não gostasse pelo fato do enredo se passar durante a pandemia, sendo que tanto lá quanto cá há os que acham que o covid nunca existiu e nunca acreditaram na importância das vacinas, com teorias sobre implantes de chips e outros absurdos. King não somente faz de Holly uma pessoa consciente e temerosa do que acontecia no mundo, como a coloca em situação com pessoas que pensam o oposto.

Sem surpreender, Holly traz um King confortável pela força de sua personagem principal. Talvez seja por isso que o livro dificilmente poderia ocupar posições mais elevadas de seu repertório literário, pela dependência absoluta na força investigativa da detetive, além de seu evidente carisma. Faltou energia ao livro, algo que fizesse o leitor se prender na leitura ou que proporcionasse uma preocupação mais intensa com o destino da personagem. Ainda assim, torna-se uma leitura necessária para os fãs de Holly Gibney, antes de ler sua participação seguinte, na obra Não Pisque, e na que o autor já declarou publicamente no final do ano estar em desenvolvimento.

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