![]() Na Teia da Aranha
Original:Nella stretta morsa del ragno
Ano:1971•País:Itália, França, Alemanha Ocidental Direção:Antonio Margheriti Roteiro:Antonio Margheriti, Bruno Corbucci, Giovanni Grimaldi, Giovanni Addessi Produção:Giovanni Addessi Elenco:Anthony Franciosa, Michèle Mercier, Klaus Kinski, Peter Carsten, Silvano Tranquilli, Karin Field, Raf Baldassarre, Irina Maleeva, Enrico Osterman, Marco Bonetti |
“Não se morre completamente quando não se está preparado para morrer.” (Dr. Camus)
Antonio Margheriti deveria ser um nome mais lembrado entre os diretores italianos pela sua imensa e significativa contribuição para o Cinema Fantástico. Entre sua época de produção, de 1958 a 1997, ele esteve a frente de filmes divertidos e importantes — muitos deles já vistos por aqui no Boca do Inferno — como O Planeta dos Desaparecidos (1961), A Mansão do Homem Sem Alma (1963), A Máscara do Demônio (1964), O Choque dos Planetas (1966), O Fantástico Homem Invisível (1970), Sete Mortes nos Olhos de um Gato (1973), Carne para Frankenstein (1973), O Peixe Assassino (1979), Canibais do Apocalipse (1980)… mas, pode-se indicar como obra máxima de seu repertório o clássico gótico Dança Macabra (Danza macabra aka Castle of Blood, 1964), produção que ele co-dirigiu com Sergio Corbucci, e que foi abrilhantada pela presença da expressiva Barbara Steele.
Atmosférico e ainda mais bem conceituado pela fotografia em preto e branco, o longa teve uma passagem ruim nas bilheterias italianas, mesmo com as críticas positivas. Margheriti associou o fracasso à fotografia e, em 1971, resolveu refazê-lo com um novo elenco, sob o título “Nella stretta morsa del ragno“, lançado pela Versátil em DVD no Box Gótico Italiano como Na Teia da Aranha — o filme teve outros títulos como o francês “Les fantômes de Hurlevent” e o oportunista alemão “Dracula im Schloß des Schreckens“. Conseguindo mais visibilidade nos cinemas, Margheriti depois revelaria que a refilmagem foi uma atitude estúpida e que a fotografia colorida destruiu a atmosfera e tensão do original. Não diria “destruiu“, mas não chegou próximo da eficiência tétrica de Dança Macabra, embora ainda seja um bom filme.
Em ambas as produções, há o informe que a obra foi inspirada em Edgar Allan Poe, sendo que o slogan de Na Teia da Aranha é exatamente “Based on Edgar Allen Poe’s “Night of the Living Dead“”: na verdade, Poe nunca escreveu um texto com esse nome, sendo que a única relação com suas obras é o poema “Berenice“. Trata-se de um costume da época usar uma pequena base literária de Edgar Allan Poe, nome amplamente associado ao horror, para atrair olhares para seus produtos, com referências a personagens ainda que bem distante de uma possível inspiração – vide O Corvo (1963). No caso desses filmes de Margheriti, Poe tem mais importância como um personagem narrativo, aquele que irá incitar o protagonista a questionar suas crenças.
Poe (Klaus Kinski, sem qualquer semelhança com o escritor americano) está em sua fase derradeira, entregue à loucura e à bebida, entretendo frequentadores de um pub com suas histórias de fantasmas. Pensando em entrevistá-lo para uma matéria, o jornalista Alan Foster (Anthony Franciosa) está disposto a contrariar sua produção sobrenatural até ser desafiado pelo Lord Blackwood (Enrico Osterman) a passar uma noite em seu castelo assombrado às vésperas do Dia de Todos os Santos. A missão solitária em um ambiente aterrorizante, com todos os aspectos góticos que construíram o subgênero, é a principal linha narrativa do roteiro de Bruno Corbucci, a partir do argumento desenvolvido por ele e Giovanni Grimaldi.
O local, aparentemente desabitado, revela seus fantasmas, além dos belíssimos quadros em exposição. Ele é seduzido por Elisabeth Blackwood (Michèle Mercier), que almeja “sentir o amor verdadeiro“, ao passo que também conhece a insidiosa Julia (Karin Field), que mantém um eterno interesse por Elisabeth, o possessivo Herbert (Raf Baldassarre), disposto a impedir que sua amada fique com outro, além de William Perkins (Silvano Tranquilli), com quem a sedutora possui um relacionamento oficial, e o intrigante Dr. Carmus (Peter Carsten), na realização de seus estudos de medicina metafísica, tentando mostrar ao cético que as almas que ali habitam são projeções de outros tempos, basicamente suas essências.
Ele expõe sua teoria das três formas de vida: a do corpo, a do indestrutível espírito e de sua essência, geralmente quando o ser humano é ceifado sob uma ação violenta, em um momento de emoção intensa. Para comprovar suas crenças, ele conduz Foster para uma jornada ao passado, permitindo que ele entenda como as tragédias aconteceram e porque os fantasmas ainda vagam pelos corredores frios do castelo Blackwood. Na verdade, mesmo com o experimento sobrenatural, Foster terá uma descoberta aterrorizante sobre os ali presentes, envolvendo vampirismo e busca por uma sobrevida além do túmulo — a razão do título alemão, mesmo que Drácula não faça parte da proposta.
Com a composição intensa de Riz Ortolani e excelente desenho de produção, produção do set e figurinistas, Na Teia da Aranha faz jus ao título inglês e brasileiro ao colocar o protagonista à mercê de predadores, como um inseto numa teia. Além do mais, a ambientação contribui para o propósito na composição de um castelo envolto em teias e uma caracterização gótica na exploração de sombras, candelabros, passagens secretas, corredores vazios, sons arrepiantes e uma constante sensação de ameaça. Não tem o mesmo vigor maldito de Dança Macabra até pela ausência dos olhares sinistros de Steele e a fotografia servindo ao medo, à insegurança e claustrofobia. Ainda assim, é favorecido também pelas boas atuações principalmente do veterano Klaus Kinski (excelente em Nosferatu: O Vampiro da Noite, 1979) e Anthony Franciosa (de Tenebre, 1982), sem esquecer do epicentro das maldições de Blackwood na interpretação de Michèle Mercier (de Black Sabbath, 1963).
Como muitas obras do período, Na Teia da Aranha também teve versões diferenciadas em seus lançamentos. Vale a pena apostar no DVD da Versátil por apresentar o conteúdo mais completo, com acréscimos de cenas da versão alemã, notado pelas mudanças da fotografia e da qualidade da imagem constantemente. De toda forma, é a melhor experiência que você pode ter dessa nova versão do absoluto Dança Macabra, que também está à disposição no catálogo da distribuidora.







