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A Única Saída
Original:Eojjeolsuga eobsda / No Other Choice
Ano:2025•País:Coreia do Sul
Direção:Park Chan-wook
Roteiro:Park Chan-wook, Donald E. Westlake, Lee Kyoung-mi, Don McKellar, Jahye Lee
Produção:Jisun Back, Park Chan-wook, Alexandre Gavras, Michèle Ray-Gavras
Elenco:Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Woo Seung Kim, So Yul Choi, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won, Im Tae-poong, Kim Hyung-mook

O cinema sul-coreano contemporâneo cultivou reputação internacional através de sua capacidade de dissecar as entranhas do capitalismo com precisão cirúrgica. De Parasita (2019) a Muito Ruído Para Nada (2023), a indústria cinematográfica coreana transformou desigualdade social em matéria-prima estética. A Única Saída, nova adaptação de Park Chan-wook baseada no romance The Ax (1997) de Donald E. Westlake, insere-se nessa tradição com ambições evidentes. O filme transporta o thriller psicológico norte-americano para contexto sul-coreano contemporâneo, onde inteligência artificial não é futuro distópico, mas realidade que devora empregos no presente. A tese central emerge clara: capitalismo não é apenas sistema econômico, mas estrutura existencial que transforma seres humanos em unidades descartáveis. É Park Chan-wook em terreno familiar, porém com resultado um pouco irregular, que oscila entre mordacidade afiada e indecisão tonal.

A abertura funciona como armadilha visual primorosamente calibrada. Somos apresentados a Man-su (Lee Byung-hun), gerente que trabalha na área de produção de papel, celebrando com a família e cultivando seu jardim enquanto celebra a chegada do outono. A sequência inicial opera como comercial de margarina elevado à forma de arte: uma família perfeita, em uma casa grandiosa, em completa sinergia e alegria. Park, conhecido por começar filmes com enganos visuais (como em A Criada), repete o gesto aqui. Man-su não percebe, mas sua celebração do outono funciona como prenúncio do inferno pessoal que se aproxima. A metáfora sazonal se desenvolverá com literalidade quase excessiva: o filme terminará no inverno, tanto climático quanto cromático, onde tons azulados dessaturados substituem a paleta vibrante inicial.

A demissão de Man-su desencadeia transformação moral que o roteiro maneja com inteligência desigual. A inclusão de inteligência artificial como agente de obsolescência humana demonstra agudeza contemporânea. Man-su não perde emprego para outro humano mais qualificado, mas para um algoritmo que executa suas funções com eficiência superior. A humilhação não vem de ser substituível, mas de ser literalmente obsoleto enquanto forma de vida. Aqui o filme articula sua crítica mais afiada: sob capitalismo tardio, até expertise acumulada ao longo de décadas vale menos que um código de programação. A família possui talentos genuínos (a esposa dança com graça técnica, a filha toca violoncelo com maestria), mas esses talentos só podem florescer através de capital privado. Não há estrutura pública ou comunitária capaz de nutrir beleza que não seja monetizada. A frase atribuída a Balzac sobre toda grande fortuna esconder um crime ressoa invertida: por trás de toda realização humana existe dependência absoluta de recursos financeiros que podem evaporar instantaneamente.

O roteiro fracassa parcialmente em justificar a escalada para assassinato serial seletivo. Diferente de Parasita (2019), onde a família Kim habita um porão semi-subterrâneo infestado e enfrenta extinção econômica iminente, a família de Man-su nunca está em real penúria. Eles descem degraus sociais (aulas de tênis canceladas, carro mais barato), mas mantêm casa espaçosa e dignidade material básica. O filme exige que aceitemos que mera descida social, sem chegada à verdadeira pobreza, justifica eliminar sistematicamente concorrentes na busca por reemprego. Essa empatia não se sustenta completamente quando o design de produção contradiz urgência narrativa ao manter a família em ambiente confortável por tempo excessivo.

É na execução formal que A Única Saída revela suas contradições mais flagrantes. Park, diretor de violência operática em Oldboy (2003) e sadismo elegante em A Criada (2016), opta aqui por humor físico quase pastelão para humanizar Man-su como um assassino improvável. As sequências de tentativas de homicídio funcionam como comédia slapstick: Man-su tropeça, erra o alvo, executa planos ridículos que falham por incompetência. A intenção é clara (diferenciar este protagonista de praticantes de violência calculada), mas a escolha tonal enfraquece o impacto dramático substancialmente. O filme não se assume como comédia completa, nem mantém o peso da violência intacto. O resultado frustra ambas as possibilidades: não é irônico o suficiente como comédia negra, não é visceral o suficiente como thriller psicológico.

A comparação com Kill Bill de Tarantino é inevitável. Ambos se estruturam ao redor de uma lista de alvos a serem eliminados, com a audiência ciente da quantidade e ordem de execução. Mas onde Tarantino abraça artificialidade total e transforma assassinatos em balé coreografado, Park hesita entre realismo psicológico e fantasia estilizada. Beatrix Kiddo funciona como máquina de vingança consciente de sua natureza como construção cinematográfica. Man-su, por outro lado, precisa ser simultaneamente um homem comum atormentado e um assassino serial eficaz; contradição que o filme nunca resolve.

Tecnicamente, o filme demonstra maestria visual esperada de Park Chan-wook. A fotografia contrasta natureza luminosa dos jardins com interiores progressivamente sombrios que refletem degradação moral. A progressão cromática funciona com literalidade excessiva, mas eficácia inegável: cores saturadas do outono dão lugar a tons dessaturados, culminando no azul melancólico que domina o ato final. É um trabalho que reconhece o estilo inconfundível de Park (composições simétricas, uso criativo de arquitetura, transições inventivas), mas sem alcançar a sublimidade de Decisão de Partir (2022), do próprio diretor.

A edição de Kim Sang-bum apresenta virtudes e vícios em medida similar. Há transições elegantes que demonstram sofisticação narrativa, mas o filme abusa de zooms que tiram força daqueles que realmente revelam informação. Muitos deles servem apenas para aproximar cenas visualmente vazias com cortes abruptos. O ritmo geral sofre especialmente no segundo ato, onde o filme estende-se além do necessário. Com 139 minutos, A Única Saída poderia beneficiar-se de uma edição mais enxuta, já que sequências de tentativas fracassadas se repetem com variações insuficientes.

A trilha sonora funciona como um dos elementos mais bem-sucedidos. A composição original equilibra tensão psicológica com beleza melancólica, nunca telegrafando emoções excessivamente. Mais impressionante é o uso de música diegética, particularmente a performance ao violoncelo pela filha de Man-su que encerra o filme. A cena funciona em múltiplos níveis: tecnicamente impecável enquanto execução musical, devastadora emocionalmente como representação de talento que só pode existir sob condições materiais específicas, e amarga ironicamente porque sabemos que essa performance existe apenas porque Man-su matou para mantê-la possível. A música se torna simultaneamente arte pura e produto direto de violência, cristalizando ambiguidade moral que o resto do filme luta para articular com clareza equivalente.

As performances principais revelam hierarquia clara de eficácia. Lee Byung-hun entrega um trabalho competente, equilibrando comédia física com desespero psicológico crescente. Sua transformação gradual de gerente confiante para assassino atormentado funciona em nível técnico, cada microexpressão calibrada para sugerir erosão moral. Porém a performance sofre das mesmas inconsistências tonais que afligem o filme. Ele precisa ser simultaneamente bufão cômico e monstro trágico, e nenhuma das facetas recebe desenvolvimento completo.

É Son Ye-jin quem entrega a performance verdadeiramente notável. Como esposa de Man-su, ela navega território dramático complexo com uma nuance que o protagonista nunca alcança. Ye-jin constrói personagem em camadas: mulher que sacrificou carreira artística por estabilidade familiar, mãe que projeta ambições frustradas na filha, esposa que percebe transformação do marido, mas não consegue nomeá-la completamente. Há cena específica onde Man-su retorna tarde coberto de sujeira após tentativa fracassada de homicídio, e sua esposa simplesmente olha para ele em silêncio. Ye-jin comunica volumes através de expressão contida. Seus olhos registram simultaneamente preocupação, medo, e decisão consciente de não fazer perguntas cujas respostas destruiriam a família. É acting de subtileza extraordinária em um filme que frequentemente opta por exagero. Ye-jin ancora o filme emocionalmente de forma que Lee Byung-hun, por mais competente que seja, não consegue. Sua performance sugere um filme alternativo mais interessante: não sobre homem que mata para recuperar status, mas sobre uma mulher que assiste seu marido deteriorar-se moralmente e precisa decidir se cumplicidade ou denúncia representa a traição maior.

Como adaptação, A Única Saída ilustra tanto potencialidades quanto limitações de transpor o material literário americano para o contexto coreano. Mas talvez seja precisamente por ser uma adaptação que o filme nunca alcança a catarse explosiva de trabalhos originais de Park. Oldboy termina com revelação que destrói o protagonista (e o público) completamente. A Criada chicoteia a audiência narrativamente até a última imagem. A Única Saída, por outro lado, segue uma trajetória relativamente linear sem surpresas substantivas. Há twist menor no terceiro ato envolvendo consequências não-intencionais, mas nada que aproxime da complexidade narrativa esperada de Park em seu melhor. A fidelidade ao material original pode ter imposto limitações criativas. O resultado é um filme que parece simultaneamente muito Park Chan-wook em estilo visual e pouco Park Chan-wook em ousadia narrativa.

A Única Saída oferece Park Chan-wook em modo menor: reconhecível em assinatura visual, mas sem risco narrativo que define seus melhores trabalhos. A performance excepcional de Son Ye-jin, a trilha sonora sublime de Cho Young-wuk, e a fotografia tecnicamente impecável de Kim Woo-hyung elevam um material que sofre de contradições tonais fundamentais. O filme quer ser simultaneamente comédia negra e thriller psicológico, optando por não se comprometer totalmente com nenhum registro. Para admiradores de Park, o filme funciona como lembrança de que mesmo diretores excepcionais produzem trabalhos irregulares. Para a audiência geral, A Única Saída entrega um thriller competente sobre ansiedades econômicas contemporâneas, mesmo que nunca alcance a catarse que o material promete. Há suficiente maestria técnica e perspicácia temática para recomendar o filme, mas com ressalva: espectadores que chegam esperando Oldboy ou A Criada sairão insatisfeitos. Este é Park explorando território familiar sem renovar o arsenal formal. A nota 4 reflete esse equilíbrio: filme bom que poderia ter sido excelente se tivesse a coragem de suas próprias contradições.

Porém seria injusto encerrar sem reconhecer que, apesar de suas falhas, A Única Saída consegue algo que poucos filmes contemporâneos alcançam: expor as entranhas do capitalismo com crueza que incomoda precisamente porque soa verdadeira. Park Chan-wook não oferece soluções fáceis ou catarse redentora, apenas espelho implacável que reflete a violência sistêmica naturalizada em nossas vidas cotidianas. O filme força o reconhecimento de que talentos humanos, sonhos artísticos e dignidade familiar existem não como direitos inalienáveis, mas como privilégios contingentes à capacidade de pagar por eles. Essa percepção brutal justifica a nota alta apesar das inconsistências formais. E Park ainda entrega imagem que persiste muito depois dos créditos finais. Talvez o espectador jamais olhe para uma árvore de eucalipto da mesma maneira.

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