4.5
(8)

Cordeiro
Original:Lamb
Ano:2021•País:Islândia, Suécia, Polônia
Direção:Valdimar Jóhannsson
Roteiro:Valdimar Jóhannsson, Sjón
Produção:Piodor Gustafsson, Hrönn Kristinsdóttir, Sara Nassim, Jan Naszewski, Erik Rydell, Klaudia Smieja
Elenco:Noomi Rapace, Hilmir Snær Guðnason, Björn Hlynur Haraldsson, Ingvar Sigurdsson, Arnþruður Dögg Sigurðardóttir

por Matheus Santos Rangel

Em Lamb, Valdimar Jóhannsson nos apresenta uma família tradicional islandesa: o pai fazendeiro, a mãe com tendências homicidas e a filha… que, neste caso, é um lindo cordeirinho — e não no sentido figurado, mas literal.

No filme, quando um casal isolado nas montanhas encontra um cordeiro, a vida enfim parece completa. Mas não demora para que os mistérios envolvendo a origem da criatura transformem esse aparente paraíso no mais insano dos infernos.

Para início de conversa, Lamb é um deleite visual. As paisagens fantásticas do norte europeu e a fotografia paciente, que permite apreciar as imagens cuidadosamente compostas em tela, servem de contexto a uma trama envolvente, cujo desenvolvimento instigante recompensa o espectador com uma passagem só de ida à loucura.

Há uma beleza quase hipnótica na vastidão branca que domina o horizonte, no silêncio que parece ecoar entre montanhas e pastos, na maneira como a câmera repousa sobre a solidão daquele cenário inóspito. Cada enquadramento soa meticulosamente pensado, como se a natureza não fosse apenas pano de fundo, mas uma entidade viva, observando tudo. A luz fria, difusa e melancólica reforça a sensação de isolamento, enquanto os interiores rústicos contrastam com o exterior grandioso, criando uma estética que transita entre o acolhedor e o ameaçador.

No instante em que dei início à sessão, não consegui evitar questionar como diabos os realizadores desse projeto conseguiriam me convencer, enquanto espectador, de que os acontecimentos em tela deveriam ser tratados com seriedade. Não tenho problema algum em suspender minhas crenças diante de um filme, mas Lamb é tão extravagante em seu desenvolvimento que temi não ser capaz de comprar a doideira envolvida. Por sorte, a excelente performance de Noomi Rapace não me permitiu, nem por um segundo, duvidar do que me foi apresentado. Na verdade, comecei a pensar que todos os eventos registrados pelas câmeras realmente aconteceram no extremo norte do mundo, onde lendas fantásticas são mais do que simples histórias de ninar.

O que mais apreciei em Lamb, com toda certeza, foi a atenção que a trama exige do espectador. Indo na contramão de produções mais recentes — que repetem várias vezes a mesma informação, como se temessem ser complexas demais para um público ocupado com celulares e outras distrações —, o filme constrói sua narrativa com calma e segurança, deixando pistas pelo caminho e plantando seus temas com naturalidade e elegância. Trata-se de um folk horror que evita ao máximo conduzir o público a obviedades: o foco aqui é contar uma história que transcende a razão e mergulha no lúdico e no imaginário, no terror do desconhecido e na força absoluta da natureza.

Nesse contexto, o final abrupto surge como um ponto negativo. No terceiro ato, certos elementos poderiam ter sido mais bem trabalhados, mas acabam ofuscados por outros conflitos. A impressão que ficou, ao menos para mim, é a de que o filme poderia ter, no mínimo, mais uma hora de duração; ainda assim, seus realizadores optam por uma conclusão que, embora poderosa, soa um tanto deslocada e, por que não, ligeiramente desleal com o espectador que estava plenamente comprometido com a proposta. Apesar disso, é uma produção impossível de não recomendar àqueles que desejam aproveitar uma tarde chuvosa — daquelas em que o céu fica cinzento e as gotas descem com gentileza — para experimentar algo diferente do ordinário.

Para mim, Lamb encarna aquilo que o terror tem de mais poderoso: o desconhecido.

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