0
(0)

O.T.H.E.R - Presença Maligna
Original:Other
Ano:2025•País:França, Bélgica
Direção:David Moreau
Roteiro:David Moreau, Jon Goldman
Produção:Clément Miserez, Matthieu Warter
Elenco:Olga Kurylenko, Jean Schatz, Lola Bonaventure, Jacqueline Ghaye, Sacha Nugent, Philip Schurer, Julie Maes, Anne-Pascale Clairembourg

O cineasta francês David Moreau iniciou a carreira como diretor com o claustrofóbico Eles (Ils, 2006), a principal inspiração para os filmes da franquia Os Estranhos, já evidenciando um olhar atmosférico para o gênero. Infelizmente, seu trabalho seguinte foi a desnecessária refilmagem O Olho do Mal (The Eye, 2008) para depois enveredar para uma comédia romântica, a ficção distópica Sozinhos (Seuls, 2017) e uma aventura-família. Foi em 2024 que Moreau voltou ao horror com o body horror MadS para, no ano seguinte, lançar O.T.H.E.R – Presença Maligna (Other, 2025), aquele que considero seu melhor trabalho.

Não está entre suas obras mais bem avaliadas pelo público, o que não significa muito. Other é, sem dúvida, seu mais bem confeccionado trato técnico e o que possui o roteiro, a cargo dele e Jon Goldman, mais bem desenvolvido ao propor uma profundidade ao medo. Ele retorna ao formato pesadelo claustrofóbico, colocando camadas simbólicas em seu conceito principal e explorando experimentalismo sem soar excessivamente artístico. É um produto original Shudder, mas que poderia também ter uma conexão com a A24 pela estrutura do enredo e a busca pelo “algo a mais” em vez de apenas um horror comum.

Traz o protagonismo da atriz ucraniana Olga Kurylenko, de Oblivion (2013) e Thunderbolts* (2025) — aliás, o único rosto que você verá em cena. Alice recebe um telefonema informando que sua mãe, Elena (Jacqueline Ghaye), faleceu. Ela então se despede do companheiro Charlie (Philip Schurer) e parte em uma viagem de reencontro às suas origens, voltando à casa de infância, em um passado que traz poucas lembranças, todas traumáticas. Cercada por uma mata em um vasto terreno, o casarão é repleto de câmeras de segurança até mesmo nos entornos, alarmes com iluminação avermelhada e altamente sonoros e possui um armário de fitas de vídeo que comprovam o gosto ou preocupação da mãe de fazer registros de tudo.

Quando se aproxima de seu passado, aos poucos ela percebe que não está sozinha; há uma “presença maligna” correndo pelos cantos da moradia, atentando-se aos seus movimentos. Um garoto mascarado (Sacha Nugent) faz o alerta sobre proteger o rosto pois algo à solta se alimenta deles. Esse mesmo menino é visto no prólogo, numa gravação no estilo “found footage“, indo em busca de respostas depois que o corpo de um jovem foi encontrado desfigurado na região: ele, inclusive, teria sido o responsável por colocar câmeras de movimento nas árvores, além de utilizar um drone para captação de imagens. Quem seria esse “outro” presente ali e que teve relação com a morte da mãe de Alice, encontrada com o rosto devorado?

Moreau opta por esconder o rosto de todo elenco presente no filme, à exceção da protagonista. É uma técnica que Bom Menino (Good Boy, 2025) também utilizou, e outros cineastas também trabalharam de modo experimental como em Veneno Para As Fadas (Veneno para las hadas, 1986) ao esconder a face adulta. Está relacionada à profundidade que impera sobre O.T.H.E.R – Presença Maligna ao propor o mesmo olhar da criatura: Elena escondia o rosto com uma máscara e as bonecas que pertenciam a Alice tiveram a fronte mutilada. Esse trauma com rostos está diretamente relacionado ao passado da protagonista, algo que ela tentou camuflar em uma nova vida, distante de sua mãe.

O ritmo “slow burn” pode incomodar quem aprecia narrativas mais intensas, com uma dinâmica acelerada. Other se constrói na atmosfera e nos recursos experimentais, propondo um quebra-cabeça de múltiplos encaixes. As respostas saltam gradualmente até o último frame, deixando algumas reflexões sobre a razão da criatura ser quadrúpede, sua fixação com rostos e até o brinquedinho de soletrar que soa para justificar dadas ações. Moreau explora a ambientação, a postura da protagonista e brinca com as expectativas do infernauta.

O.T.H.E.R – Presença Maligna faz uso das facilidades do roteiro para construir sua narrativa. Pode se afastar da realidade, quando você coloca as peças sobre a mesa, mas é funcional pela intenção e modo como todas se encaixam.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Sobre o Autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *