![]() Para Sempre Medo
Original:Keeper
Ano:2025•País:Canadá Direção:Osgood Perkins Roteiro:Nick Lepard Produção:Jesse Savath, Chris Ferguson, Spencer Zimmerman, Penny Lin Elenco:Tatiana Maslany, Rossif Sutherland, Birkett Turton, Eden Weiss, Cassandra Ebner, Tess Degenstein, Erin Boyes, Gina Vultaggio, Claire Friesen, Christin Park |
Osgood Perkins vem construindo uma filmografia curiosa. Longlegs (2024) funcionou porque o diretor manteve o sobrenatural periférico, ambíguo: ele concentrou no desconforto psicológico e deixou a gente preencher os espaços em branco. O Macaco (2025) tropeçou quando tentou materializar o fantástico. Para Sempre Medo (2025) repete o erro, mas dessa vez com uma ambição maior e uma queda mais dolorosa.
O filme tem seres feéricos. Não bruxaria genérica, mas mitologia antiga britânica: aquela tradição de criaturas que habitam florestas, fazem pactos com mortais, aceitam oferendas de mel e bolo, concedem dádivas e cobram preços. Tudo isso embrulhado numa metáfora sobre relacionamentos abusivos e gaslighting. É muita coisa.
Perkins parece ter começado pelos visuais finais, aquelas criaturas genuinamente perturbadoras, quase tão marcantes quanto os Cenobitas do Clive Barker, e depois tentou construir um filme ao redor delas. Lembra Jogos Mortais (2004)? James Wan tinha em mente aquele boneco branco, as armadilhas grotescas, mas conseguiu criar uma história sólida para justificá-los. Aqui é o oposto. Os visuais estão lá, impressionantes, mas chegam depois de quase duas horas de um filme que não consegue decidir o que quer ser.
O roteiro é o calcanhar de Aquiles. A primeira meia hora replica a estrutura de Fresh (2022) quase beat por beat: uma mulher conhece um homem charmoso, vai para um lugar isolado e aos poucos descobre que ele não é o que parece. A diferença é que Mimi Cave sabia exatamente o tom que queria e manteve. Perkins vacila entre thriller psicológico, horror sobrenatural e drama de relacionamento tóxico. Não consegue sintetizar nenhum dos três de forma satisfatória.
Além disso, o filme exige uma bagagem cultural específica, tal qual o visto em Bramayugam (2024). Aqui, se você não conhece a mitologia feérica britânica, com seus seres ancestrais, rituais de floresta, a lógica dos pactos, vai passar o tempo todo confuso. Se conhece, vai ficar irritado porque o filme não adiciona nada de novo. Apenas reproduz elementos estabelecidos sem inovar.
E no terceiro ato? Um personagem literalmente para, respira fundo e explica tudo. Minutos e minutos de exposição verbal. Para quem não sabia da mitologia, continua confuso porque a explicação não a contextualiza. Para quem já tinha montado o quebra-cabeça sozinho, é frustrante ouvir alguém descrever peças que você encaixou há vinte minutos. A exposição é redundante e mata qualquer mistério que ainda restava.
Mas voltemos aos aspectos técnicos por enquanto. A fotografia de Jeremy Cox funciona. Tem composições bonitas, uso inteligente de sombras e luz, planos que comunicam isolamento. Mas aí vem um problema: Perkins não resiste ao plano estranho pelo bem da estranheza. Alguns ângulos servem à atmosfera, criam desconforto visual que tem propósito. Outros parecem exibicionismo técnico vazio, com o diretor mostrando que sabe fazer algo diferente, mas sem razão dramática clara.
O filme tenta capturar aquele isolamento sufocante de O Chalé (2019). Mas não entende o que fez aquele filme funcionar. Lá, a claustrofobia vinha tanto da geografia quanto, crucialmente, das dinâmicas psicológicas entre os personagens. A pressão crescia por dentro e por fora. Aqui é só geografia. Uma casa na floresta. Não basta estar isolado fisicamente se o filme não constrói a pressão psicológica correspondente.
E aí entra o ritmo, e ele é um desastre. Chamar de inconsistente seria elogio. O filme tem picos e vales que destroem qualquer estrutura de atos, mas não no sentido intencional de desconforto formal (como faz Lars von Trier). É apenas… mal distribuído. Cenas que deveriam acelerar se arrastam. Momentos que pediam desenvolvimento são cortados abruptamente. A edição tenta compensar, mas não há como consertar na ilha de edição o que o roteiro deixou vazio por páginas e páginas.
E para um filme que, de certa forma, tenta se ancorar no aspecto do abuso e do sofrimento psicológico, temos de falar de Tatiana Maslany. Olha, ela é uma atriz talentosa. Venceu o Emmy por Orphan Black, onde interpretava uma dúzia de clones com personalidades distintas. Mas aqui, seja por direção inadequada ou escolha dela mesma, a performance começa no volume 10. Não há espaço para crescendo. Para escalada de tensão. Para aquele processo gradual de perceber que algo está muito, muito errado. As expressões faciais são exageradas. As emoções mudam bruscamente sem preparação, onde num minuto reina o pânico, no outro alívio, no seguinte, desconfiança. Parece uma montanha-russa sem trilhos. Num filme que depende de sutileza, dos pequenos sinais de manipulação, das insinuações que vão se acumulando, precisávamos de uma performance mais contida. Alguém que começasse levemente desconfortável e lentamente percebesse a extensão do horror. Não alguém que já chega gritando.
A trilha sonora faz o mínimo. Aquela estratégia básica de se calar antes dos sustos, telegrafando cada momento de terror com segundos de antecedência. Não tem identidade própria, não tem marca. Quando o filme acaba, você não lembra de um único tema, de uma única escolha musical. É utilitária e completamente esquecível. Mas quando o design sonoro trabalha sozinho, com seus ruídos atrás das paredes, respirações estranhas, movimentos na floresta, ele funciona melhor. Nesses momentos o filme respira, a tensão realmente se constrói. Bastava confiar mais nisso e menos na trilha explicativa.
E aí chegam os seres. E isso não é segredo, estão praticamente todos no próprio trailer do filme. Mas ainda assim, eles funcionam. O design das criaturas é perturbador no melhor sentido, aquele tipo de imagem que gruda na retina e incomoda depois, que persiste na memória e provoca desconforto prolongado. A revelação não precisa de trilha sonora explodindo, não precisa de edição frenética. As criaturas simplesmente estão ali, simultaneamente repulsivas e fascinantes, evocando o melhor do horror corporal de Clive Barker.
ALERTA DE SPOILERS
Até colocarem CGI no rosto de uma delas. Não era necessário. Os efeitos práticos estavam entregando resultado satisfatório. Mas alguém decidiu que precisava de “aprimoramento digital” e quebrou o feitiço. De repente você lembra que está assistindo a um filme, que há uma equipe de efeitos visuais, que nada daquilo é real. O CGI tosco joga fora toda a construção anterior, descarta a suspensão de descrença cuidadosamente construída.
Para Sempre Medo quer ser muitas coisas ao mesmo tempo. Alegoria sobre relacionamento abusivo. Horror sobrenatural enraizado em mitologia antiga. Thriller psicológico. Um ensaio visual sobre manipulação e gaslighting. Pense em Mãe! (2017) do Aronofsky. Aquilo é alegoria bíblica transparente, mas também funciona como filme de invasão domiciliar. Funciona nas duas frentes. Você pode assistir sem pegar todas as referências religiosas e ainda assim ter uma experiência cinematográfica válida, completa. O subtexto enriquece, não substitui a narrativa.
Aqui o subtexto existe, e é até interessante. A ideia de que os seres feéricos representam o lado destrutivo masculino, que o pacto de imortalidade simboliza como abusadores “consomem” a vitalidade de suas parceiras para sustentar o próprio ego. Uma das criaturas sendo fusão de todas as mulheres sacrificadas anteriormente, representando trauma coletivo e vozes silenciadas. A intuição feminina que a protagonista tentava ignorar se manifestando através de visões psicodélicas provocadas por um bolo de chocolate enfeitiçado. Tem material rico ali.
Mas o filme não mergulha de verdade em nenhuma dessas camadas. Permanece superficial em tudo. Não desenvolve plenamente o horror psicológico do relacionamento abusivo. Não explora com profundidade a mitologia feérica. Não constrói a alegoria de forma que ressoe emocionalmente. Apenas pincela todos esses elementos e espera que você faça o trabalho de conectá-los.
O final oferece um suposto renascimento, com a protagonista retomando poder, unindo-se espiritualmente às vítimas anteriores, virando um tipo de feiticeira renascida. É um desfecho que pode ressoar com quem busca narrativas de empoderamento feminino. O problema é que não construiu essa jornada de forma convincente. A transformação acontece porque o roteiro diz que chegou a hora, não porque acompanhamos uma evolução orgânica da personagem. É mecânico.
FIM DOS SPOILERS
Perkins tem dificuldade clara com o sobrenatural. Longlegs funcionou justamente porque ele manteve o fantástico ambíguo, sugerido, na periferia da narrativa. Quando tenta materializar o inexplicável, como n’O Macaco e agora aqui, a coisa desanda. Parece que ele não confia na própria capacidade de filmar o sobrenatural de forma satisfatória, então compensa com explicação excessiva ou com visuais gritantes que tentam distrair da fragilidade narrativa subjacente.
Tem uma tentativa interessante de trabalhar com simbologia social, usar elementos fantásticos para amplificar o horror psicológico de relações tóxicas. A intenção é nobre. Louvável, até. A execução, deficiente. Falta confiança para deixar coisas não ditas, para confiar que a gente vai entender sem precisar mastigar tudo.
Para quem o filme funciona? Fãs do Perkins que perdoam as falhas pelo estilo autoral vão encontrar elementos para apreciar. Quem gosta de cinema surreal e psicodélico pode se divertir com as sequências tripy do bolo enfeitiçado. Quem aprecia metáforas sobre trauma pode achar valor na tentativa. E tem uma audiência específica que aprecia exatamente esse tipo de filme: ambicioso demais para o próprio bem, cheio de ideias interessantes que não se concretizam, visualmente atraente, mas emocionalmente vazio.
Para o resto? É frustrante. Dá para ver o filme que poderia ter sido. Dá para sentir as boas intenções, a tentativa genuína de fazer algo diferente. Mas intenção não é suficiente. Ambição sem execução adequada resulta apenas em desperdício de potencial. Para Sempre Medo tem os melhores visuais de criatura que vi em bom tempo. Tem conceitos mitológicos fascinantes que permanecem subaproveitados. Tem metáforas sobre abuso que poderiam cortar fundo, mas mal arranham a superfície. Tem fotografia de qualidade usada de forma inconsistente. Tem uma atriz talentosa dirigida para o registro interpretativo errado.
É um filme de horror que não aterroriza direito, thriller que não gera tensão suficiente, alegoria que não ressoa emocionalmente. Funciona melhor como exercício de estilo do que como obra completa. No final, fica aquela sensação incômoda: tudo isso (a mitologia, as criaturas, a metáfora) era para quê, exatamente? O que o filme queria que eu sentisse ou pensasse quando as luzes acendessem? Não sei. E tenho a impressão de que o filme também não sabia.









