![]() Eles Vão te Matar
Original:They Will Kill You
Ano:2026•País:África do Sul, EUA, Canadá Direção:Kirill Sokolov Roteiro:Kirill Sokolov, Alex Litvak Produção:Dan Kagan, Andy Muschietti, Barbara Muschietti Elenco:Zazie Beetz, Patricia Arquette, Myha'la, Paterson Joseph, Tom Felton, Heather Graham, Gabe Gabriel, James Remar, Darron Meyer, Brandon Auret |
Após o sucesso da série It: Bem‑vindos a Derry, os produtores Barbara e Andy Muschietti voltam ao horror com Eles Vão Te Matar, um filme que inevitavelmente tem sido comparado a Casamento Sangrento 2. E, olhando superficialmente, a comparação até faz certo sentido: duas irmãs no centro da narrativa, uma elite envolvida em rituais macabros e muito sangue derramado. No entanto, apesar das evidentes referências, o filme dirigido por Kirill Sokolov, apelidado de “Tarantino russo”, tem um DNA próprio e faz bom uso de suas influências.
Em Eles Vão Te Matar, acompanhamos Asia (interpretada pela talentosíssima Zazie Beetz), que aceita trabalhar no edifício Virgil, um luxuoso e misterioso arranha-céu em Nova York. O que parecia apenas uma oportunidade de recomeço, após passar dez anos detida, logo se revela algo muito mais sinistro: o local é o covil de uma seita formada por membros da elite que realizam sacrifícios para manter seus privilégios.
O apelido de “Tarantino russo” dado a Kirill Sokolov não surge à toa. Em Eles Vão Te Matar, as referências ao cinema de Quentin Tarantino, principalmente de Kill Bill, aparecem de forma explícita, seja na violência estilizada ou até em detalhes fetichistas que parecem saídos diretamente de sua filmografia, como um close de um pé sendo lambido. Ainda assim, Sokolov não se limita à imitação: ele transforma suas influências em algo próprio, algo que já era perceptível em seus trabalhos anteriores, como em Morra!. A montagem frenética, o uso certeiro do slow motion e a violência exagerada também fazem parte da assinatura do diretor.
Em determinados momentos, Eles Vão Te Matar abraça sem medo uma certa trasheira, como na cena em que um olho arrancado continua “observando” a protagonista — e o resultado funciona justamente por não ter medo do exagero. Ao mesmo tempo, há claras homenagens ao cinema blaxploitation, a produções asiáticas de ação e até mesmo a Evil Dead, referências que se misturam a uma excelente trilha sonora.
As cenas de ação criam uma sensação constante de urgência, deixando a audiência sem fôlego ao longo de seus 95 minutos. Felizmente, elas são executadas de forma bastante competente, incluindo uma sequência impressionante de efeitos práticos envolvendo fogo.
O elenco se mostra totalmente alinhado ao tom do filme, com destaque para Zazie Beetz, que entrega uma protagonista crível e badass, determinada a cumprir seu objetivo custe o que custar. Já a sempre excelente Patricia Arquette acaba destoando, interpretando uma personagem que lembra excessivamente seu trabalho em Ruptura.
O edifício Virgil, inspirado no Inferno de Dante, funciona como um personagem dentro da narrativa. Seus corredores e andares sugerem um universo bem mais amplo do que o filme consegue explorar, deixando a sensação de que um prelúdio poderia render algo bastante interessante. Uma curiosidade que envolve a criação do edifício Virgil é que ela surgiu de uma experiência pessoal do diretor. Ele e sua esposa se mudaram com seu cachorro para um prédio onde praticamente todos os moradores eram idosos e tinham gatos. Eles passaram a notar os sussurros dos vizinhos sempre que cruzavam o corredor com o animal. A situação acabou virando uma piada entre o casal, que começou a brincar que os moradores faziam parte de uma seita e que eles seriam sacrificados em um ritual.
O maior problema de Eles Vão Te Matar está no roteiro escrito por Sokolov e Alex Litvak (Predadores). Os flashbacks que exploram o passado dos personagens até funcionam em um primeiro momento, mas a recorrência exagerada desse recurso acaba se tornando cansativa e expositiva demais. Além disso, a forma como a relação entre Asia e Maria, interpretada por Myha’la (Industry), é construída acaba afastando o envolvimento emocional do público. Apesar de as duas atrizes estarem muito bem em cena, o filme não dedica tempo suficiente para que essa dinâmica realmente nos faça nos importar com a relação entre as irmãs.
Já o desfecho, claramente aberto para uma possível continuação, também acaba sendo um dos pontos mais fracos da trama, ainda que traga um confronto final divertido, quase no estilo “chefão de videogame”, envolvendo até um demônio que se manifesta literalmente como um espírito de porco. Eles Vão Te Matar ensaia uma sátira à elite, mas essa crítica acaba derrapando e não se mostra tão afiada quanto poderia. Ainda assim, dosa bem o humor ácido, a ação e o horror e entrega uma obra vibrante, autêntica e consciente de seu próprio exagero. E, de quebra, consolida Zazie Beetz como uma scream queen que definitivamente merecíamos ver no gênero.






