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por Mari Dertoni

O cinema de horror, especialmente entre os anos 1970 e 1980, mergulhou nos abismos da psicopatia, da sexualidade e da violência urbana. A figura do psicopata já causava um fascínio, impulsionado por Alfred Hitchcock com Psicose (Psycho, 1960). Na década de 60, o diretor rompeu com a tradição do horror gótico ao levar o medo para dentro de motéis baratos e casas de subúrbio. Norman Bates não é um monstro sobrenatural, mas sim um rapaz educado com uma mente dividida e dominada pelo fantasma de sua mãe. Essa fusão entre uma psicologia freudiana, tensão sexual reprimida e o assassinato brutal, tornou-se a base de muitos filmes posteriores sobre assassinos em série.

Entre os exemplos mais extremos dessa tendência está O Estripador de Nova York, de Lucio Fulci. O filme ocupa um lugar incômodo na história do cinema italiano ao empurrar os limites do gênero giallo para territórios de um realismo brutal, flertando com filmes policiais da década anterior, com o exploitation e com o slasher. Afastando-se de cenários bucólicos e de casas medievais, o filme explora o que há de mais sórdido entranhado no ambiente urbano, caótico e barulhento de uma grande metrópole.

Logo em sua cena de abertura, vemos um homem brincando com um golden retriever às margens do Rio East, sob a ponte de Manhattan. Ele arremessa um pedaço de madeira para que seu cão traga de volta; na segunda rodada da brincadeira, o animal retorna com uma mão decepada e podre em sua boca. Fulci, conhecido como o “Poeta do Macabro”, dispensa sutilezas e nos revela um universo corrompido por mentes doentias e amorais, como a do assassino que começa a matar mulheres de forma brutal na cidade de Nova Iorque. A partir daí, o experiente policial Fred Williams, interpretado por Jack Hedley, se une ao pesquisador universitário, Dr. Paul Davis (Paolo Malco), em busca do paradeiro e identidade serial killer com voz de Pato Donald.

O longa traz uma abordagem misógina fácil de relacionar com outras obras da época, como em O Maníaco (Maniac, 1980), de William Lustig. No filme, o diretor americano faz um estudo de personagem profundamente perturbador do assassino Frank Zito (Joe Spinell); um homem solitário e psicologicamente devastado pelo trauma materno, que assassina mulheres e guarda seus couros cabeludos como troféus. Se em O Estripador de Nova York o assassino, cuja marca registrada é imitar uma voz de pato pelo telefone enquanto mutila mulheres, é uma incógnita, e o foco narrativo está mais em um sintoma da sociedade do que em um indivíduo, O Maníaco mergulha na psicologia do monstro revelado desde o princípio, se assemelhando bastante ao filme de Fulci na forma brutal de retratar uma Nova Iorque decadente, suja e violenta.

New York Ripper (1982)

Fulci mistura a perversão do ato sexual público com o fetiche voyeurista em cenas de apresentações de sexo explícito em um teatro onde a plateia fica de frente para os casais em ação. Explorando o erotismo quase como um sintoma social, a forma como é filmada a mulher que se senta sozinha e grava os gemidos que ouve em uma mini-fita cassete para seu marido, e se excita com isso, é bela e marcante. Fulci direciona nosso olhar para os detalhes sórdidos, para as reações corporais, as manifestações de dor, pavor ou prazer. As condutas dos personagens são amorais e expressam uma atraente vulgaridade dentro de um submundo que exclui julgamentos. 

Quase todas as figuras femininas são prostitutas, e são as vítimas favoritas do assassino. O corpo feminino é tanto objeto de desejo quanto alvo da punição moral. Dentre elas, Kitty, interpretada por Daniela Doria – nome que já trabalhou com o diretor italiano em diversos filmes e protagonizou a icônica cena onde vomita vísceras em Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura nella città dei morti viventi, 1980). Em O Estripador de Nova York, Kitty é atacada pelo maníaco misterioso e mutilada perto dos genitais pelo vidro de uma garrafa estilhaçada. Sob uma intensa luz vermelha e um facho de iluminação verde que vaza pela fresta da porta entreaberta, vemos o corpo da moça morta estirado no chão manchado de sangue e tingido com cores super saturadas, características do gênero. Fulci usa essas cores com cautela, se afasta um pouco esteticamente do extravagante colorido tradicional do giallo, e abraça uma crueza nas cenas, adotando tons mais sóbrios e frios na maioria do tempo.

Por não conhecermos sua identidade, o assassino com voz de pato acaba dividindo o protagonismo com a própria atmosfera de terror que cria e com a corrosão moral desse ambiente urbano. Fulci foca no extremo e não tenta aparar as arestas de suas cenas mais brutais, como quando uma das moças é retalhada por uma lâmina de barbear, tendo seu corpo aberto em diversas partes, seu mamilo e seu globo ocular são vagarosamente fatiados pelo objeto cortante. A violência é explícita, gráfica, muitas vezes sexualizada, mas não gratuita, ela escancara uma misoginia estrutural, presente tanto na sociedade quanto nos códigos do gênero.

Em Torso (I corpi presentano tracce di violenza carnale, 1973), de Sergio Martino, – um giallo dos anos 70, que também flerta com o slasher dos anos 80, encontramos obsessões semelhantes, mas com soluções estéticas distintas. O erotismo já era um  elemento associado à morte, mas o qual Martino trabalha com uma elegância visual que camufla o sadismo sob uma fotografia quase onírica, Fulci opta pelo grotesco explícito. As jovens universitárias são mortas por um assassino sexualmente reprimido em Torso, mas o clima é de suspense clássico, com ecos Hitchcockianos. Já Fulci substitui a elegância pelo desconforto. As cenas de assassinato em O Estripador de Nova York são filmadas com distanciamento poético, evidenciando a crueldade de uma forma mais visceral, criando uma sensação de repugnância ao espectador.

A diferença de cenário também é crucial entre essas duas obras italianas. O filme de Martino se passa em uma Itália bucólica e isolada, onde a violência irrompe num espaço tradicionalmente associado à tranquilidade. Fulci, por sua vez, habita o submundo de uma cidade decadente, onde a pornografia, o crime e a indiferença social estão em cada esquina. Essa Nova Iorque suja e em colapso se aproxima bem mais do ambiente de O Maníaco, de Lustig. Um filme americano bem próximo de Fulci em tom e proposta, ambos compartilham a brutalidade dos assassinatos e a sensação constante de ameaça no espaço urbano, mas diferem em sua abordagem narrativa: Fulci constrói um mistério à moda giallo, com pistas e reviravoltas, enquanto Lustig oferece uma descida contínua a um inferno particular, quase sem respiro. 

Um ponto de contato entre os três filmes é a maneira como retratam as mulheres — quase sempre como vítimas de uma violência fetichizada. Em Torso, as mortes têm um tom mais voyeurístico, mas Martino ainda insere momentos em que suas personagens femininas demonstram agência e complexidade emocional. A protagonista, interpretada por Suzy Kendall, se aproxima da final girl dos slashers americanos — inteligente, prudente, menos sexualizada. Em O Maníaco e em O Estripador de Nova York, a violência contra a mulher é mais brutal e crua, o que gerou inúmeras críticas de misoginia. No entanto, é possível interpretar essa abordagem como um espelho cruel da realidade social da época — o horror como reflexo de uma cultura que naturaliza o feminicídio e a objetificação feminina.

O Estripador de Nova York é um filme sujo, tanto estética quanto moralmente. Fulci leva o giallo à metrópole americana, onde a cidade americana nos anos 80 é retratada como um antro de decadência moral. O assassino é uma figura traumatizada e inconformada com o drama familiar que vive. Sua filha pequena cresce mutilada e doente, e o pai não se conforma em ver mulheres bonitas ocupando um espaço que ela jamais conseguirá ocupar. Sua ira parece ser a manifestação pura de um mundo onde frustração e sadismo andam juntos. 

Fulci desafia os limites do gosto e da moralidade, não por acidente, mas como projeto estético e social. A brutalidade gráfica, o retrato do desejo distorcido e a total ausência de redenção fazem da obra não apenas um thriller perturbador, mas também um estudo sombrio sobre misoginia, trauma e desumanização urbana. É um filme que não oferece conforto, mas um reflexo cruel da violência cotidiana escondida sob a superfície das grandes metrópoles. O longa se destaca por sua crueza, sua visão pessimista do mundo e o uso extremo da violência como sintomas de uma sociedade em decadência. 

O Estripador de Nova York é desconfortável, mas também impossível de ser ignorado. Fulci é um daqueles diretores niilistas que retratam muito bem a perda de sentido existencial e dos valores tradicionais. Citando Nietzsche em Além do Bem e do Mal: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você” – e aqui o diretor encara toda essa escuridão sem desviar o olhar.

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