Porque O Cavaleiro Verde é o Melhor Filme de 2021

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Datado de meados do século XIV, o poema Sir Gawain and the Green Knight é uma representação dos preceitos que regem um bom cavaleiro. Com autoria desconhecida e publicação em sua totalidade apenas em 1839, quando adquiriu o seu título, este documento histórico – e uma das mais importantes e reconhecidas jornadas de um cavaleiro medieval – faz parte das tradições arturianas como uma alegoria de amadurecimento e auto-conhecimento. Composto de estrofes e versos aliterativos rimados, com inspiração em aventuras galesas, irlandesas e inglesas, ele conta a aventura de Gawain, um dos cavaleiros da Távola Redonda, que aceita o “jogo de Natal” proposto pelo Cavaleiro Verde para provar seus valores. A obra teve diversas interpretações, dependendo de sua localidade e visão a respeito, e algumas adaptações para o cinema, televisão, teatro e ópera, além de um bom tratamento através da literatura de J.R.R. Tolkien. Com toda essa importância literária e principalmente simbólica, era de se imaginar que teria uma versão moderna pela A24.

A produtora, que tem alimentado o gênero com filmes metafóricos e repletos de traduções – vide A Bruxa, Hereditário, O Farol, Midsommar: O Mal Não Espera a Noite -, seria a melhor possibilidade de construção de um longa de múltiplos significados, permitindo reflexões e análises diversas pelo acréscimo de sugestões e simbolismo em sua versão livre. E ainda teve a valorização de seu formato nas mãos de David Lowery, responsável pelo terror dramático e silencioso, e com uma ótima fotografia – vide Sombras da Vida (A Ghost Story, 2017). Com o interessante contexto, somado ao elenco e grandiosos efeitos especiais, não é de se estranhar que O Cavaleiro Verde esteja entre os principais lançamentos de 2021, mais uma vez mostrando a competência da A24 na concepção de produções bem realizadas.

Iniciando com uma atmosfera de conto de fadas, com a narração rimada de parte do poema original, o longa mostra o despertar de Gawain (Dev Patel, que fez o PrÍncipe Zuko em O Último Mestre do Ar, 2010) no Natal pela amante e plebeia Essel (Alicia Vikander, a Lara Croft de Tomb Raider: A Origem). Depois de voltar a Camelot e se desentender com a mãe – que presumimos ser Morgan le Fay (Sarita Choudhury, de A Dama na Água, 2006) -, ele parte para um banquete com seu tio, o Rei Arthur (Sean Harris, de Livrai-nos do Mal, 2014), onde é questionado sobre suas “histórias“. Sem ter nada para contar, o que pode ser considerado uma vergonha para um cavaleiro, o evento é interrompido pela chegada de um cavaleiro imenso, com rosto de madeira e adornos de galhos e folhas. Sabe-se que a presença do não-convidado se deve a um feitiço realizado pela mãe de Gawain, que, com os olhos tapados, escreveu uma carta e a selou para invocar a criatura.

O gigante verde propõe um desafio a qualquer um dos cavaleiros presentes: aquele que conseguir golpeá-lo irá ganhar seu machado, mas terá que aceitar o fardo de ter que, em um ano, visitá-lo em sua Capela Verde e permitir que ele faça o mesmo, com a mesma intensidade e força. Sem ter qualquer grande acontecimento envolvendo seu nome, Gawain aceita o combate, embora não esperasse que o Cavaleiro Verde fosse se abaixar para permitir o golpe. Mesmo sabendo que poderia simplesmente ter lhe dado um chute ou um simples corte no corpo, Gawain, de posse de Excalibur, lhe degola em um único ato para surpresa – decepção interpretativa do Rei – e aplausos dos demais cavaleiros. O Cavaleiro Verde recolhe sua cabeça, relembra o acordo com Gawain, e vai embora dando risada como um “cavaleiro sem cabeça“.

A narrativa salta um ano. Gawain é bastante popular em Camelot, tendo sua imagem pintada em quadro, e sua história (já com variações que dão o aspecto de lenda) recontada até mesmo em um teatro de bonecos. A poucos dias do Natal, com a cobrança do próprio Rei, ele parte para o encontro com o cavaleiro, de posse de seu machado e um cinto verde, feito por sua mãe, e que o manterá protegido enquanto ele o estiver usando. E nessa jornada, ele encontrará personagens inusitados que servirão para testar sua bravura e as demais virtudes que devem fazer parte de sua índole, como um processo de crescimento pessoal, restando apenas saber se ele é digno de se tornar um verdadeiro Cavaleiro da Távola Redonda e, quem sabe, futuramente herdar o trono de seu tio.

A Jornada Simbólica na Construção de um Cavaleiro

(contém muitos spoilers e detalhes sobre a simbologia da obra)

É nessa aventura e o modo simbólico como os elementos se apresentam que o espectador reconhece que se trata de um filme da produtora de Midsommar. Não se trata de uma adaptação fiel ao texto original, com algumas liberdades e conceitos visuais que enriquecem o material, ampliam o contexto e permitem inúmeras reflexões. Nem todas as respostas são trazidas à tona e, embora ele funcione por si só, torna-se enriquecedor uma pesquisa sobre o texto original para que chegar a uma interpretação mais embasada. E chega a ser curioso ler comentários sobre o filme em fóruns diversos, onde o consenso basicamente não existe, uma vez que as ideias construídas permitem caminhos diferentes – algo que pode tanto incomodar o infernauta que gosta de cinema mastigado quanto ser enaltecido por aqueles que valorizam filmes profundos.

Para melhor fundamentar sua teoria, é preciso primeiro entender os valores que compõem um cavaleiro. Nota-se que o Rei Arthur (apresentado com olheiras que podem indicar uma proximidade da morte) possui em sua vestimenta um pentagrama, cujas pontas são associadas a cinco virtudes (e que pode ter conexão também com os ferimentos de Cristo na cruz): piedade, cortesia, castidade, companheirismo e generosidade. Durante sua jornada, cada uma delas é testada nos encontros casuais de Gawain, podendo demonstrar o sucesso ou até mesmo sua falha em cada uma delas. No primeiro deles, ele encontra um jovem (Barry Keoghan), apontado como um carniceiro, mas pode ser imaginado como necrófago. Ele está rondando um campo de soldados mortos, e traz uma possível indicação para alcançar a tal Capela Verde. Aponta um caminho, recebe uma moeda, mas logo depois, com mais dois companheiros, o assalta, levando seu cavalo, o machado e seu cinto protetor, deixando-o amarrado no lugar. Ali ele tem uma visão de si próprio morto, o que o impulsiona a um gesto para se livrar das amarras. Neste primeiro desafio, sua generosidade e companheirismo são colocados à prova, e justifica o porquê do jovem jamais alcançar o status de um bom cavaleiro, vivendo de roubos e da carne dos mortos.

Seu segundo encontro acontece em uma cabana, onde ele encontra o fantasma de Winifred (Erin Kellyman). Como um conto de terror, ela pede que ele busque sua cabeça no lago próximo, o que resultará em seu descanso e, como prêmio pela cortesia, retorno do machado roubado. Nas lendas que envolve seu nome, com ênfase na Inglaterra, Santa Winifred teria sido decapitada por seu companheiro Caradog ao optar por se tornar freira, e a fonte onde sua cabeça fora deixada passou a ser um local de cura e milagres. Há relatos sobre seu retorno após sua cabeça ter sido encontrada por São Beuno, e o castigo recebido pelo seu algoz. Ao mesmo tempo que a ação de Gawain no resgate de sua cabeça pode ser enaltecido, é interessante pensar que, diante do proposto, ele chegou a perguntar o que ganharia em troca – teria falhado em sua cortesia de cavaleiro?

Após deixar o local, ele encontra uma raposa que passa a ser sua companheira de viagem durante um tempo, sendo posteriormente rejeitada quando esta lhe alerta sobre seu destino. Trata-se de um ser místico que algumas culturas apontam como guia espiritual, e que adquiriu uma representação interessante na obra de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe. É ela que traz ensinamentos sobre cativar e permite o amadurecimento do personagem; em O Cavaleiro Verde, além de ter sua companhia rejeitada, seu principal ensinamento é deixado de lado. Uma segunda falha cometida por Gawain, comprometendo mais uma vez sua jornada para se tornar um verdadeiro cavaleiro.

Outro erro acontece quando ele encontra em um vale mulheres gigantes. Ao vê-las, Gawain pergunta se não pode subir em uma delas para acelerar sua aventura, o que lhe traria uma vantagem no percurso e diminuiria sua conquista. Uma delas tenta tocá-lo, mas desiste provavelmente por perceber que ele ainda está distante de ser um cavaleiro. Depois, o teste final traz sua passagem pelo castelo do Lorde Bertolak (Joel Edgerton, de Ao Cair da Noite, 2017) e sua Dama (também interpretado por Alicia Vikander), além de uma senhora idosa com os olhos vendados (uma possível lembrança de sua mãe, talvez, observando sua jornada). O dono do castelo diz a ele que dará o que conseguir em sua caçada, como uma resposta das coisas que ele encontrar no castelo. Enquanto no texto original, o processo é feito repetidas vezes, aqui Gawain tem a chance de beijar a Dama durante a ausência do Lorde e ainda ganha um novo cinto como representação de sua natureza.

Nessa passagem, Gawain falha ao permitir a investida da Dama, ferindo sua “castidade“. Recebe como prêmio pelo adquirido um beijo do Lorde e o retorno da raposa, mas não lhe dá como troca o cinto, numa ação que diminui ainda mais suas virtudes e que justificará os acontecimentos finais na Capela Verde. Lá, ele tem a chance de selar seu destino, mas resiste ao golpe do Cavaleiro Verde duas vezes e na terceira desiste de cumprir seu trato, fugindo para Camelot, onde se torna rei com a morte de seu tio, rejeita o filho de Essel e perde definitivamente todas as virtudes de um cavaleiro. Trata-se se uma visão onde metaforicamente Gawain perdera a cabeça durante sua jornada, infringindo tudo o que poderia elevá-lo à condição buscada. Ele, então, desperta na Capela com a perspectiva de um futuro terrível e oferece sua cabeça ao Cavaleiro.

Teria, portanto, o Cavaleiro Verde cortado sua cabeça? Ou ao perceber o cumprimento do trato e noção dos erros cometidos, ele teria lhe poupado do golpe fatal? Como outras simbologias presentes no filme, a resposta pode ser tanto uma quanto a outra. Particularmente prefiro que sim, uma vez que a ação que estabeleceu a assinatura do contrato com o Cavaleiro Verde não envolveu sua piedade, diante de um inimigo desarmado. É a tal da decepção aparente do Rei na testemunha do embate. Você pode enxergar o Cavaleiro Verde como o próprio Rei – há até um rima de cena em que os dois rostos são mostrados em sequência – ou até mesmo com a mãe de Gawain, embora esta estaria acompanhando sua aventura simbolicamente.

O Cavaleiro Verde também representa a própria Natureza. Ter partes do corpo associadas à vegetação, há culturas que o mostram como protetor, tanto que sua inércia no encontro na Capela representaria a mudança de estação (passagem do inverno para a primavera) e o solstício do inverno, o primeiro movimento do sol. Seria essa Natureza que o fizera ser rejeitado pelas Mulheres Gigantes e ter a discussão com a Raposa? Prefiro acreditar na Natureza no sentido de retorno às origens. O Cavaleiro só o considera apto em sua evolução quando ele retira de seu abdómen o cinto oferecido pela Dama, como se representasse seu olhar para si, sem se aproveitar de acessórios de proteção.

É curioso falar sobre solstício pela conexão mais uma vez com Midsommar. Há uma relação com o outro filme simbólico da A24 pelo uso de runas de proteção no cinto, pelo resgate à Natureza, pelo sentido de mudança e transformação do personagem principal. E você pode estabelecer um diálogo também com Hereditário, principalmente na simbologia da cabeça que se perde no processo. Para se tornar um cavaleiro digno de se sentar ao lado do Rei Arthur, você precisa sobretudo manter suas virtudes, compreender seu destino e jamais negar suas origens. Pelos erros cometidos, ainda que o processo tenha o reconhecimento necessário, pode-se dizer que Gawain perdeu literalmente sua cabeça. E o tal jogo de Natal, proposto pelo Cavaleiro Verde, é perdido durante a construção de sua história.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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