O Último Trem (2008)

O Último Trem (2008)

O Último Trem
Original:The Midnight Meat Train
Ano:2008•País:EUA
Direção:Ryûhei Kitamura
Roteiro:Jeff Buhler, Clive Barker
Produção:Clive Barker, Gary Lucchesi, Eric Reid, Tom Rosenberg, Jorge Saralegui, Richard S. Wright
Elenco:Vinnie Jones, Bradley Cooper, Leslie Bibb, Brooke Shields, Roger Bart, Tony Curran, Barbara Eve Harris, Peter Jacobson, Ted Raimi, Donnie Smith

Na minha análise sobre o excelente Creep – Plataforma do Medo, comecei o texto explicando que, na minha primeira viagem de metrô, fiquei com o olhar perdido encarando aqueles longos túneis subterrâneos, só imaginando que tipo de coisa poderia haver ali embaixo. Pelo jeito, não fui o único a ter estes pensamentos mirabolantes: muito antes de mim, um certo escritor inglês chamado Clive Barker teve ideias tão assustadoras quanto este pobre mortal aqui. E, ao olhar para aquelas argolas de couro suspensas do teto dos vagões do metrô, onde normalmente se seguram os passageiros que ficam de pé, Barker imaginou ganchos de carne num açougue. Na sua cabeça doentia, um simples vagão de metrô na escuridão de um túnel transformou-se num açougue metálico. O Trem de Carne da Meia-noite. É justamente “O Trem de Carne da Meia-noite” o título em português de um clássico conto publicado pelo autor nos anos 80, dentro das suas coletâneas de histórias curtas chamadas “Livros de Sangue“. Está no Volume 1, que chegou às livrarias originalmente em 1984. E em 2008, 24 anos depois, a história curta de Barker finalmente ganhou uma adaptação para o cinema.

Assim que li as primeiras notícias sobre o fato, fiquei me perguntando como é que iriam fazer para transformar em longa-metragem uma história que era eficiente justamente no formato reduzido (tem apenas 37 páginas). E sempre lembrando que os ótimos textos curtos de Stephen King adaptados para o cinema se transformavam em bobagens do calibre de A Colheita Maldita e Comboio do Terror. Também imaginei que dificilmente o filme manteria a violência da narrativa do escritor (você pode ler trechos das barbaridades que ele descreveu em destaque ao longo deste artigo), e muito menos a sua tétrica conclusão.

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Assim, foi com muitas dúvidas e poucas esperanças que finalmente conferi The Midnight Meat Train, a tal adaptação cinematográfica da obra de Barker, dirigida pelo japa Ryuhei Kitamura (do excelente Versus – O Portal da Ressurreição) e roteirizada por Jeff Buhler (que só tem um crédito anterior, como diretor-roteirista do filme independente Insanatório). Antes de ver, li algumas críticas extremamente sisudas alegando que o filme era um fiasco, e que o suposto “uso indiscriminado de CGI” transformava as cenas de violência numa grande piada. Era um mau sinal, ainda mais considerando que várias fotos divulgadas pelos produtores prometiam um banho de sangue daqueles. Mas resolvi encarar de qualquer jeito. Até porque para quem viu Seed, do Uwe Boll, e os recentes remakes de filmes de terror orientais, dificilmente apareceria coisa pior este ano…

Não sei se foi por estar com a expectativa baixa depois de ler estas críticas. Não sei se foi por estar cansado dos intermináveis remakes norte-americanos de filmes orientais lançados em 2008. Não sei se foi por estar preparado para uma porcaria de filme. Mas confesso: me surpreendi com o resultado. Positivamente. Quem diria, The Midnight Meat Train conseguiu escapar da armadilha de ampliar uma história curta sem perder o fio da meada, conseguiu manter o banho de sangue (mesmo que boa parte dele seja pura computação gráfica) e, o melhor de tudo, teve colhões para manter a essência básica do conto de Barker, sem atenuar a violência e o sadismo e, principalmente, sem inventar de mudar a conclusão para algo mais “otimista” e “feliz“.

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Enfim, pode-se dizer que The Midnight Meat Train é um retorno em alto estilo dos textos de Clive Barker à tela grande, já que a última adaptação decente do autor havia sido O Mestre das Ilusões, que o próprio dirigiu lá em 1995!

“A língua pendia da boca aberta. A cabeça balançava no pescoço cortado. Até o pênis sacudia de um lado para o outro na virilha pelada. Do ferimento na cabeça e do corte da jugular, o sangue pingava ainda no balde preto. Havia uma certa elegância em tudo aquilo, a marca de um trabalho bem-feito.”

Vamos começar do começo: tirando a profissão do personagem principal (contador no livro, fotógrafo no filme), e o fato de aqui ele ter uma namorada e um amigo que participam mais ativamente da ação, o filme de Kitamura é o conto “O Trem de Carne da Meia-noite” fielmente transportado para as telas – com algumas doses de humor negro que não existiam na obra literária, mas o resto é igual. Claro, os responsáveis pela produção tiveram que inventar umas cenas para dar uma enrolada, como os diversos diálogos numa lanchonete e um monte de cenas dispensáveis envolvendo a curadora de uma galeria de arte (por mim, cortaria tudo isso e deixaria o filme 10 minutos mais curto).

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Mas o restante do tempo o diretor Kitamura e o roteirista Buhler gastaram aprofundando o personagem do “Açougueiro do Metrô“, o grande vilão do conto, e quintuplicando a violência: enquanto ao longo do conto o assassino só matava três pessoas, em 1h40min de projeção ele ganha tempo de sobra para aniquilar muito mais que isso. E sempre de maneira explícita e extremamente sangrenta.

The Midnight Meat Train já mostra ao que veio desde a primeira cena, em que um desavisado passageiro que adormecera no metrô da madrugada acorda e percebe que está sozinho no vagão. Mas a sensação de solidão não dura muito, pois ele logo percebe que uma das paredes metálicas do vagão está coberta de sangue, e, quando vai sair em busca de ajuda, escorrega num verdadeiro lago vermelho. Após um esforço hercúleo para se levantar naquele piso escorregadio (situação que seria cômica se não fosse trágica), ele se aproxima da porta que divide os dois vagões e enxerga algo aterrorizante no carro ao lado. Corta para os créditos iniciais. De abrir o apetite, não?

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Somos então apresentados ao nosso personagem principal, Leon Kauffman (Bradley Cooper, de O Olho que Tudo Vê). Ele é um fotógrafo em busca de ascenção social (em outra palavras, fama e fortuna), mora num belo apartamento em Nova York e namora uma garçonete gatinha, a loira Maya (Leslie Bibb, de O Homem de Ferro). Seu passaporte para o sucesso é o melhor amigo Jurgis (Roger Bart, aquele que perdeu o bilau em Hostel 2), que vai apresentá-lo à influente proprietária de uma galeria de arte chique, Susan Hoff (que eu demorei para reconhecer como sendo uma envelhecida e “abagulhadaBrooke Shields, uma das musas da minha infância!).

Só que a insuportável Susan desdenha das fotografias de Kauffman, dizendo que são muito comuns e que não captam o verdadeiro espírito da metrópole. Isso leva nosso herói a vários passeios noturnos por Nova York, encerrando na estação de metrô onde pessoas vêm sistematicamente desaparecendo, sem qualquer explicação, há muitos anos. Quer dizer, “sem explicação” para eles, porque nós, espectadores, desconfiamos desde o começo que tem um psicopata matando adoidado por lá.

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Naquela noite, Kauffman salva uma bela modelo oriental de ser violentada por uma gangue. Mas, infelizmente, não pode salvá-la de ser a próxima vítima do “Açougueiro do Metrô” (alcunha do personagem no conto, não utilizada no filme), já que a moça dá o azar de embarcar no mesmo vagão onde está o assassino (interpretado pelo brutamontes Vinnie Jones, de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes). Usando um enorme martelo metálico de frigorífico, o psicopata dá uma marretada tão forte na cabeça da moça que faz ela (a cabeça, não a moça) girar como se fosse um pião!

“Não estava preparado para aquele horror final: a carne das costas estava aberta do pescoço até as nádegas, e o músculo fora retirado para expor as vértebras brilhantes. O triunfo final da arte do Açougueiro. Ali estavam dependurados aqueles pedaços retalhados, tosados, sangrados de humanidade, abertos como peixes, prontos para serem devorados…”

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Quando o fotógrafo descobre, pelo jornal, que aquela moça que ele salvou está desaparecida, resolve investigar o mistério por conta própria. E suspeita daquele homem alto e silencioso que vai ao metrô todas as madrugadas, religiosamente na mesma estação, e sempre carregando uma maleta numa das mãos. Kauffman começa a segui-lo e descobre que ele se chama Mahogany e mora num hotel decadente.

De dia, o brucutu trabalha como açougueiro (ahá!) num frigorífico. À noite, sempre alinhado, limpo, perfumado e vestindo o mesmo terno, Mahogany vai para o metrô fazer suas vítimas. E enquanto o assassino continua matando livremente nos vagões do “Trem de Carne da Meia-noite“, o fotógrafo fica cada vez mais obcecado por ele e pelos crimes, levando ambos cada vez mais para perto de um desfecho trágico e sangrento.

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Basicamente, The Midnight Meat Train é isso: a perseguição de Kauffman ao suspeito, a investigação sobre os seus motivos e, finalmente, o derradeiro encontro de ambos no metrô. Ali originalmente começava o conto de Barker, direto com os dois dentro do trem, sem tempo para perseguição ou investigação (e tudo que o leitor precisava saber sobre o universo do Açougueiro e suas motivações era explicado pela narração do autor). Por isso, é claro que o filme precisa enrolar um pouco mais para conseguir fechar a duração de um longa-metragem e explicar vários detalhes que no conto ficavam apenas sugeridos.

Só que “aumentar” um conto curto sempre é uma faca de dois gumes. O lado bom é que os personagens ganham maior profundidade, especialmente o assassino, no caso específico desta produção. Ao contrário do conto, o filme faz questão de mostrar como a execução dos crimes do Açougueiro é meticulosa nos mínimos detalhes. Outro acerto é a forma como o roteiro trabalha a transformação de Kauffman: quanto mais ele mergulha no mistério do metrô, mais perde a própria sanidade. Por outro lado, o roteiro também precisa criar uma série de enrolações para entrecortar a chacina, e aí entram as várias cenas que nada acrescentam ao filme (tipo todas as da perua da galeria de arte).

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A adaptação também não escapa de alguns absurdos tipicamente cinematográficos, como o velho clichê de abrir uma porta trancada usando um cartão de crédito (truque realizado por uma pessoa comum, para piorar) e o fato de Kauffman conseguir entrar a hora que quer (e são várias vezes) no frigorífico em que Mahogany trabalha, inclusive conseguindo ficar por lá longos minutos para poder fotografar seu “modelo“, sem ser importunado por ninguém e nem convidado a se retirar. A julgar pela facilidade com que o sujeito fica zanzando por lá, é de se questionar as condições de higiene do local e a qualidade da carne vendida…

Mas todos estes pequenos problemas são esquecidos nos vários momentos em que a câmera nos leva diretamente para o escuro túnel do metrô e para a falsa ilusão de segurança proporcionada pela luz artificial do vagão do trem. Todas as grandes cenas do filme, claro, se passam ali, onde acontecem brutais assassinatos e lutas de vida ou morte entre seus personagens. Estilosa, a câmera comandada por Kitamura cria alguns momentos de visual belíssimo com o trem iluminando a escuridão do túnel (um mérito também do diretor de fotografia Jonathan Sela, uma das melhores coisas do remake de A Profecia, de 2006).

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“O pescoço atravessado. Com um único golpe. De um lado ao outro. Ele sentiu a lâmina no pescoço com uma sensação sufocante, quase como se tivesse um osso de galinha atravessado na garganta. Emitiu um som ridículo de tosse. O sangue escorreu dos seus lábios, pintando-os como batom numa boca de mulher.”

Como a recente produção de filmes de horror parece estar predominantemente na mão de videoclipeiros ou de cabeças-de-bagre que mal sabem posicionar a câmera, é ótimo ver uma obra de um diretor que sabe o que está fazendo e que capricha no visual. Kitamura não é exatamente conhecido por ser um sujeito “realista“: é só ver Versus e a aventura Azumi (2003), alguns de seus trabalhos anteriores, para perceber que o sujeito curte criar cenas amalucadas e exageradas. Como bem definiu o Leandro Caraça, do blog Viver e Morrer no Cinema, Kitamura é “o Robert Rodriguez do Japão“.

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É por isso que The Midnight Meat Train é tão absurdamente sangrento que às vezes quase se torna engraçado: numa cena que já nasce clássica, a câmera acompanha o movimento de uma cabeça que é decepada violentamente e voa para longe, do ponto de vista da própria cabeça (que “enxerga” o corpo decapitado jorrando sangue)!!! Outras cenas investem pesado no humor negro, mas só fazem o espectador rir de nervoso, ou de enojado, como a da mocinha que escorrega num olho arrancado, ou a do herói que usa um braço decepado como arma contra o psicopata.

O filme todo é tão encharcado de sangue que seus personagens mais de uma vez terminam a cena cobertos de vermelho dos pés à cabeça. Para quem não é do ramo, há cenas que são exageradamente asquerosas, como a visão do trem-açougue, com diversas vítimas nuas e ensanguentadas, penduradas de ponta-cabeça como pedaços de carne numa câmara fria. Kitamura faz questão de filmar, em detalhes desagradáveis, o esquartejamento das vítimas de Mahogany como se fossem carne de açougue – e isso inclui arrancar dentes e unhas, arrancar olhos, cortar o cabelo e pendurar os cadáveres pelos pés nos ganchos de aço, momentos que fazem o clássico O Massacre da Serra Elétrica, com sua tenebrosa violência sugerida, parecer filme infantil. Nada de levar sua namorada para ver isso, a não ser que você queira terminar o namoro!

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Há, claro, bastante uso de computação gráfica, embora o sangue falso e os efeitos “old school” também estejam ali também. Muitos criticaram o CGI, mas eu achei que ele se encaixa perfeitamente na proposta exagerada do filme. Se fosse para fazer uma coisa mais realista, a câmera no mínimo teria que desviar do alvo nas cenas mais sangrentas. Por exemplo: como iriam filmar, sem usar o recurso da computação gráfica, a cena em que uma martelada violenta no crânio de um homem faz com que seus olhos saiam para fora das órbitas? Se o diretor usasse qualquer efeito mecânico, tal cena só ficaria ridícula… Por sinal, o pobre coitado que perde os olhos com a marretada é interpretado por um envelhecido Ted Raimi, irmão do diretor Sam Raimi.

Então, devo dizer honestamente que não achei que o CGI atrapalhou o filme. Só é preciso fechar um olho para o realismo (como na estilosa cena em câmera lenta que acompanha o passeio de uma bala por dentro do crânio de uma vítima). Mas eu também ouvi e li muitas reclamações em relação ao CGI do recente e excelente O Nevoeiro, de Frank Darabont, e não vi nada de errado ali também. Talvez o pessoal esteja somente sendo crítico demais. Eu também prefiro sangue falso e maquiagem aos efeitos computadorizados, mas o exagero de CGI não é demérito para as cenas sangrentas do filme do Kitamura. Quer ver CGI ruim? Assista qualquer um destes filmes de animais gigantes produzidos pela Nu Image, e aí você saberá o que REALMENTE é CGI ruim e vagabundo!

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“Sua garganta estava cheia de sangue, ouvia a carne sendo rasgada, foi dominado pelas convulsões de agonia. Então, a mão saiu da sua boca, aqueles dedos vermelhos e cobertos de saliva diante dos seus olhos, segurando a língua entre o polegar e o indicador. Enfiou a língua na própria boca, mastigando-a com evidente satisfação.”

Em uma entrevista ao site MovieWeb, o diretor revelou-se um grande fã do texto original, o que explica o respeito com que ele foi levado à tela. Kitamura conta que gostou, principalmente, do título, e garantiu que fez o máximo para manter toda a violência do conto de Barker no filme. Às vezes até exagerando na dose. E é justamente este exagero o principal tiro no pé de The Midnight Meat Train: ao usar todos os seus esforços para tirar explicitamente do papel as asquerosas descrições do texto original, Kitamura esqueceu de características fundamentais que um bom filme de horror deve ter, como medo, tensão e suspense. Embora o clima investigativo que permeia a maior parte do filme (quem é Mahogany? por que ele mata? o que acontece com os corpos?) consiga prender a atenção do espectador, este raramente se importa com o que acontece aos personagens.

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Além disso, a opção pelo “splatter” (os efeitos sangrentos super-exagerados) estraga qualquer chance de que o filme possa ser assustador, pois tudo é jogado explicitamente na cara do espectador. Isso aproxima The Midnight Meat Train de qualquer coisa que Stuart Gordon ou Brian Yuzna dirigiam para a Empire Pictures nos anos 80. Até chegar ao final, é tanto sangue espirrando que mesmo a exibição de um nojento banquete canibal passa batida, pois o espectador já está acostumado com o “clima” após toda a barbaridade mostrada anteriormente. Enfim, é tudo tão explícito que achei mais arrepiante uma cena em que o vilão “martela” uma vítima off-screen do que todo o sangue e membros decepados que são atirados contra a câmera.

Mas, quem diria, um dos primeiros a aprovar o trabalho de Kitamura foi o próprio Clive Barker. Tudo por causa de uma polêmica que começou em junho deste ano: após cancelar várias vezes a estreia oficial do filme nos cinemas norte-americanos (inicialmente marcada para julho), a produtora responsável (Lionsgate) ameaçou fazer alguns cortes na carnificina para conseguir uma certificação mais baixa da censura (a original era R, ou seja, para maiores de 17 anos) e faturar mais na bilheteria. Numa carta que foi lida durante um evento de horror realizado pela revista Fangoria, o escritor sugeriu aos fãs que entrassem em contato com a Lionsgate exigindo a versão “uncut“. E, pelo jeito, funcionou, já que o filme estreou sem qualquer censura. A tal carta ainda traz os elogios de Barker, que funcionam como grande propaganda para a adaptação: “Ryuhei Kitamura dirigiu e fez um ótimo trabalho. O filme está assustador, estiloso e muito violento, que é como devia ser para mim. Estou muito orgulhoso dele“.

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Violência à parte, Clive Barker à parte, trem de carne à parte, o que importa é que a verdadeira alma da história “O Trem de Carne da Meia-noite” foi decentemente adaptada para o cinema. É claro que estou falando do vilão interpretado por Vinnie Jones. Não dá para elogiar muito a sua “interpretação“, já que, teoricamente, o grandalhão não interpreta – aliás, ele fala uma única palavra em 100 minutos de duração! Mas Vinnie é simplesmente a encarnação da fúria e da maldade (por mais que esta expressão possa parecer clichê). Repare que em todo filme que faz, seja ação ou seja comédia, o ator sempre aparece marcado como um brutamontes ameaçador. Imagine, então, finalmente vê-lo como um assassino amoral e sem sentimentos, sem aquelas piadinhas e frases de efeito que ele normalmente fala nos filmes de ação.

O Mahogany de Vinnie é um verdadeiro demônio, capaz de gelar apenas com o olhar de sua carranca. Não bastasse o olhar frio, o ator ainda utiliza seu tipo físico para dar credibilidade à extrema violência do personagem (no conto, Mahogany era um velho gordinho). Se fosse qualquer outro ator no lugar, talvez eu não acreditasse que uma cabeça pudesse ser decepada com um golpe de martelo de bater carne; mas sendo o truculento Vinnie Jones no papel, com certeza fica mais fácil de engolir.

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Vale destacar que a arma do vilão é outra pequena mudança em relação ao conto: no livro Mahogany usava um cutelo, e no filme esmaga cabeças e corpos com o gigantesco martelo metálico. O instrumento faz tanto estrago que, na comunidade do Boizeblog no Orkut, foi comparado ao poderoso martelo de Thor, numa ironia que achei tão divertida que resolvi reproduzir aqui.

“A verdade estava dependurada no outro vagão. Sorria satisfeita para si própria, protegida por um avental ensanguentado de cota de malha. Aquele era O TREM DE CARNE DA MEIA-NOITE!”

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Mas e afinal, o que tem no final? Sim, como eu já escrevi antes, os produtores resolveram manter a conclusão do conto (atropelaram algumas explicações, mas nada que comprometa o entendimento). Assim, The Midnight Meat Train tem uma desagradável (no bom sentido) reviravolta final, que deixará alguns espectadores chocados e outros revoltados (como também aconteceu com O Nevoeiro). Mas este é o grande “tcham” da história original de Barker, e por isso o filme não podia terminar de outra forma.

Não, esta não é apenas mais uma trama banal sobre um serial killer à solta. E para quem estava achando que a história era uma variação de Plataforma do Medo, o final surgirá como um verdadeiro choque. Para ter uma ideia, imagine se a criatura canibal do clássico Raw Meat – O Metrô da Morte… Não, não, eu não vou estragar a surpresa. Assista ao filme e veja com seus próprios olhos.

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O que posso garantir aos meus fiéis cinco leitores é que The Midnight Meat Train é um daqueles casos raros de filme de horror levado a sério (apesar do humor negro e dos exageros aqui e ali). Em outras palavras, isso significa: sem adolescentes babacas fazendo piadinhas, sem humor para amenizar a carnificina, sem firulas, sem bobagens, sem heroísmos e sem soluções fáceis, mantendo um clima tétrico e opressivo que lembra outras boas adaptações de Barker (Hellraiser, O Mestre das Ilusões, O Mistério de Candyman). Em outras palavras: o bicho pega. Do começo ao fim, a história segue num ritmo que não dá folga ao espectador, e nem poupa o coitado do banho de sangue. Enfim, é um filme feito para o deleite dos fãs do gênero, e somente estes vão curtir.

Considerando que a bilheteria do filme foi fraca na estreia nos cinemas norte-americanos (culpa de uma estratégia de marketing que colocou a obra em cinemas com ingresso mais barato), mais cedo ou mais tarde, ela deverá estar chegando às nossas locadoras. Quando o livro foi publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1990, optou-se pela tradução literal do inglês: “O Trem de Carne da Meia-noite“. Mas convenhamos: “trem de carne” é ridículo, parece que o próprio veículo é feito de carne, quando o mais correto dentro do tema do conto seria “trem-açougue“, ou algo do gênero. Se me pedissem uma opinião sincera, eu sugeriria cortar o “meat” e deixar “O Trem da Meia-noite“. Simples, direto e misterioso.

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The Midnight Meat Train pode até não ser “O” filme de horror do ano. Mesmo assim, tem qualidades suficientes para divertir até o mais exigente dos fãs do gênero: seja pela violência e pelas cenas gráficas de matança, seja pelo tom sinistro e pela conclusão pesada da narrativa.
E embora o filme não convença totalmente e nem seja assustador como poderia ser se fosse dirigido por, talvez, o próprio Clive Barker, ainda assim é um passatempo de primeira num gênero cada vez mais desgastado pelas refilmagens e acéfalas produções comerciais lançadas pelos grandes estúdios.

No mínimo dos mínimos, é um divertido passeio no trem-fantasma. Ou, neste caso, metrô-fantasma.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

2 comentários em “O Último Trem (2008)

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