A Maldição da Lua Cheia (1973)

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A Maldição da Lua Cheia (1973)

A Maldição da Lua Cheia
Original:The Boy Who Cried Werewolf
Ano:1973•País:EUA
Direção:Nathan Juran
Roteiro:Bob Homel
Produção:Aaron Rosenberg
Elenco:Kerwin Mathews, Elaine Devry, Scott Sealey, Robert J. Wilke, Susan Foster, Jack Lucas, Bob Homel, George Gaynes, Loretta Temple, Tim Haldeman

Certa vez um menino foi encarregado de pastorear as ovelhas, numa colina erma acima do povoado onde morava. Um dia, cansado da monotonia da sua função burocrática, resolveu gritar no limite de seu pulmão que um lobo estaria atacando o rebanho. Dois mil fazendeiros próximos surgiram aos montes, brandindo ferramentas diversas, para atender as lamúrias do jovem. Era uma brincadeira. Uma que se repetiria no dia seguinte para ampliar a fúria dos moradores locais. No terceiro dia, um grande lobo cinza surgiu por trás dos arbustos e caminhou sorrateiramente em direção aos animais. Todo os gritos de desespero do menino foram ignorados, enquanto, entre lágrimas, ele observava o destroçar das carnes vermelhas de seu rebanho, imaginando o que seria dele quando o lobo se cansasse dessa refeição. Essa conhecida fábula de Esopo, numa versão do autor desta análise, ilustra a mentira como perda da confiança e tem uma relação com o terror A Maldição da Lua Cheia aka The Boy Who Cried Werewolf, de 1973, no último trabalho de Nathan Juran (A Vinte Milhões de Léguas da Terra, 1957, A Mulher de 15 Metros, 1958, e teve sua estreia na direção com o ótimo O Castelo do Pavor, de 1952, com Richard Greene, Boris Karloff e Lon Chaney Jr.).

Na verdade, é uma relação bem sutil, mais voltada para a brincadeira do título original, que depois seria reaproveitado em episódios de séries de TV e num longa infantil lançado em 2010 e traduzido por aqui como Castelo do Medo. O garoto do filme, interpretado (ou quase) por Scott Sealey, é considerado mentiroso desde o começo do filme, quando fora atacado por um lobisomem, enquanto estava passeando com o pai, Robert Bridgestone (Kerwin Mathews), numa cabana isolada. No processo, o pai é mordido, mas consegue utilizar a bengala – citação ao clássico O Lobisomem, de 1941 – para empurrá-lo de um precipício sobre o espeto de uma cerca. Mesmo tendo lutado por uns três minutos com uma criatura peluda e agressiva, Robert não acredita nas acusações do filho referentes a um possível ataque de um monstro, mesmo com o ferimento no braço.

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Como toda maldição que se preza, no dia seguinte, será a vez do pai ficar coberto por pelos e sair uivando em busca de vítimas. O pequeno Richie será desacreditado pela polícia (David S. Cass Sr., de Tron – Uma Odisseia Eletrônica, 1982), pela mãe, Sandy (Elaine Devry, de As Novas Aventuras do Fusca, 1974), pelo psiquiatra Dr. Marderosian (George Gaynes, que depois se tornaria famoso como o Comandante Lassard, da série Loucademia de Polícia) e por todos os moradores da região. Para tentar curar esses supostos devaneios do choroso rapaz, ele e o pai decidem novamente retornar à cabana na possibilidade de enfrentar os medos do jovem pois, segundo o Dr. Marderosian, a separação dos pais pode estar fazendo Richie ver no rosto do único representante masculino uma figura monstruosa.

De volta à casa da colina, o pai fará as primeiras vítimas, ao prejudicar o trânsito do local. Aproveitando a canície de Robert, o lobisomem do maquiador Thomas R. Burman (Os Goonies, 1985) irá aparentar uma charmosa cabeleira clara, com destaque para o focinho, muitas vezes ignorado nas transformações. Aliás, por falar nela, o efeito da sobreposição de imagem dará conta do resultado, completado com as movimentações exageradas da criatura, como se estivesse levando altas cargas elétricas. Outro aspecto diferente está no excesso de aparição do monstro, com a primeira já no início do filme, logo após um take da Lua, com a câmera acompanhando seu passeio pela floresta escura, enquanto ele visualiza a aproximação do carro do pai e do menino.

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Inspirado no período hippie, com a multiplicação de falsos profetas e pequenos grupos religiosos, o roteiro de Bob Homel inclui um exemplar de uma seita que prega a paz, o amor e o retorno de Cristo. Interpretado pelo próprio roteirista, o irmão Christopher mantém uma kombi, repleta de mensagens, seguidores e uma cruz no centro de uma abertura na floresta. Vários adeptos, com seus violões e roupas estilosas, conseguem a proeza de barrar a aproximação de Robert como se fosse um campo de força, em seu estado humano, e tem um papel fundamental na sequência de ataque final. Eles dão o alívio cômico do filme e retratam bem o período de confusão mental e fanatismo.

Também é facilmente notada a fotografia clara de Michael P. Joyce, que deixa as noites excessivamente claras, dando a impressão que o lobisomem pode andar à luz de uma Lua Cheia das seis da tarde.  É importante lembrar que o longa foi lançado pela Universal Pictures, a mesma de outros exemplares do mesmo subgênero, e numa década em que Paul Naschy reinava como principal representante, herdando a carcaça de Lon Chaney Jr., e no mesmo ano de O Lobisomem de Washington, àquela sátira política com Dean Stockwell.

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Entre as curiosidades do filme, pode-se notar alguns elementos não tão comuns na mitologia da fera. O menino chorão diz, em dado momento, que há três formas de matar um lobisomem: o coração atravessado por uma estaca; um ferimento na cabeça com algo de prata; ou sufocado por uma “wolfbane“, uma planta que só cresce à Lua Cheia, remetendo a flor-lobo Mariphasa Lupina Lumina, de O Lobisomem de Londres. Já o psiquiatra afirma que os dedos indicadores de uma pessoa amaldiçoada são maiores do que os demais nas mãos e pés, mesmo quando não está transformado.

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Exibido na Rede Record, antes do incêndio que destruiu os acervos, A Maldição da Lua Cheia foi lançado em DVD lá fora numa edição que continha também o clássico O Homem-Cobra (Sssssss, 1973), dirigido por Bernard L. Kowalski. Contudo, dificilmente essa pérola da licantropia verá a Lua Cheia brasileira em alguma edição de DVD para os colecionadores. Felizmente, o filme ainda está disponível no Netflix, com o título original The Boy Who Cried Werewolf. Vale a pena uma conferida – e, podem ter certeza, não é mentira de um jovem pastor.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “A Maldição da Lua Cheia (1973)

  • 17/11/2020 em 17:30
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    O filme foi lançado em dvd no Brasil pela versátil. Está na coleção de 4 filmes “lobisomens do cinema”, junto com outro maravilhoso filme: Lua negra. Vale a pena adquirir.

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  • 02/11/2020 em 21:38
    Permalink

    Foi meu primeiro filme sobre lobisomem.

    Resposta

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