Vinte Milhões de Milhas da Terra (1957)

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Vinte Milhões de Milhas da Terra
Original:20 million miles to Earth
Ano:1957•País:EUA
Direção:Nathan Juran
Roteiro:Robert Creighton Williams, Christopher Knopf, Charlott Knight, Ray Harryhausen
Produção:Charles H. Schneer
Elenco:William Hopper, Joan Taylor, Thomas Browne Henry, Frank Puglia, John Zaremba, Tito Vuolo, Jan Arvan, Arthur Space, Bart Braverman

Como a década de 50 era uma exímia produtora de títulos bizarros e equivocados, lancei-me à divertida tarefa de conferir até que ponto a informação “vinte milhões de milhas da Terra” está correta., uma vez que estamos nos referindo ao planeta Vênus, de onde vem a criatura protagonista do filme em questão. Sabemos que Vênus, em seu período de maior aproximação da Terra , se encontra aproximadamente a 40 milhões de quilômetros de nós, portanto, fazendo uma conversão rápida em milhas, constataremos que a distância correta seria 24.856 milhões de milhas, algo que, convenhamos, se torna insignificante perto de outros exemplos de títulos errôneos e controversos que aparecem nesse período. Algumas vezes a tradução desse filme também é feita como “vinte milhões de léguas“, e aí o erro já se torna imperdoável.

Portanto, você já pode dormir tranquilo; o título original está dentro dos limites aceitáveis pela velha e ranzinza ficção científica hard. Bem, pelo menos o título…

Esse foi o quinto filme animado por Ray Harryhausen com sua insuperável técnica de “stop-motion” e, na minha opinião, um dos mais bem feitos. Num momento de suprema inspiração e ágil habilidade (mas de orçamento parco…), Harryhausen trouxe de Vênus o simultaneamente aterrador e inocente Ymir, uma criatura perigosa com espantoso poder de crescimento, para, mais uma vez, ameaçar a raça humana. E, assim, a criatura se juntou à já clássica e conceituada galeria de monstros dos anos cinquenta. Contudo, apesar de ter sido feito nos Estados Unidos, o mais interessante de tudo é que a criatura não destrói as já suficientemente conhecidas cidades americanas, com seus prédios modernos e suas avenidas populares. Já vimos seres pré-históricos destruindo New York, bestas submarinas arruinando San Francisco, invasores do espaço descarregando raios desintegradores em Washington, mas não tínhamos visto, ainda, um ser causando pânico e destruição na imponente Roma… até chegar o Ymir. Ou melhor, ele não veio por vontade própria, como a maioria dos outros monstros alienígenas, mas sim por intermédio e descuido – de quem? – do próprio homem.

Cientistas norte-americanos mandam uma nave tripulada para Vênus. A nave retorna à Terra, mas cai no mar, matando quase toda a tripulação, exceto dois astronautas e a criatura que eles haviam trazido. Na verdade não era, ainda, uma criatura, e sim uma espécie de ovo alienígena em forma de gosma protoplasmática convenientemente guardada em um recipiente de vidro. Alguns pescadores que estavam no mar, na costa da Sicília, Itália, presenciam a chegada da nave, e até se arriscam a investigar de perto o estranho acontecimento. Mas constatam que só há dois astronautas sobreviventes, sendo que um deles morre pouco depois no hospital, com alguma doença degenerativa de pele. Logo após o resgate, entretanto, a nave se precipita vertiginosamente no fundo das águas, liberando, no último instante, o pequeno recipiente contendo a criatura.

Um garoto, filho de algum pescador, encontra o recipiente boiando na areia da praia e, na esperança de conseguir alguns trocados, leva-o escondido a um zoologista local. Mas na calada da noite a criatura liberta-se do ovo e, uma vez em contato com a atmosfera terrestre, entra em acelerado e incontrolável processo de crescimento. E aí começa o terror!

O que se segue são as inevitáveis e batidas sequências de perseguições militares e pânico geral, por onde o monstro passa, até que finalmente é destruído ao cair do coliseu romano, vítima da eletricidade.

Vinte Milhões de Milhas da Terra (20 million miles to Earth, 1957) é um típico filme “B” de ficção científica, daqueles que eram mais do que comum nos anos 50, mas se sobressai pela apurada técnica de animação, onde, encerrando a fase clássica dos monstros em preto e branco, mostrava até quanto a técnica havia evoluído desde que Willis O’Brien lançara seus monstros anti-diluvianos do mudo O Mundo Perdido, de 1925.

Com produção de Charles H. Schneer a partir de uma história do próprio Ray Harryhausen em co-autoria com Charlott Knight, o filme teve direção assinada por uma das figuras mais carimbadas da ficção científica B da década de 50, Nathan Juran, responsável por, entre outros, O Ataque da Mulher de Quinze Metros, O Cérebro do Planeta Arous (ambos sob o pseudônimo de Nathan Hertz) e Fúria de uma Região Perdida. A verdade é que o Ymir, uma estranha criatura meio humanoide, meio reptiliana (algo como uma mistura entre O Monstro da Lagoa Negra com um Tiranossauro Rex) e era o primeiro contato do diretor com protagonistas de massa com quarenta centímetros de comprimento. E ele se deu tão bem com o monstrinho que já em 1958 seria requisitado para dirigir um outro grande clássico da animação de Harryhausen, Sinbad e a Princesa (uma produção histórica que introduziu a cor nos filmes do gênero) e em 1964 para Os Primeiros Homens na Lua, todos eles com produção de Charles Schneer.

Mas foi com Vinte Milhões de Milhas da Terra que Harryhausen estreou seu novo processo de movimentação entre miniaturas e pessoas reais. Era o chamado “Sistema Dynamation“, que permitia colocar pessoas atrás e à frente da criatura sem causar aquela impressão artificial de filmagem sobreposta sob tela grande. A técnica foi muito mais aprimorada nos filmes seguintes, que seriam todos coloridos e, por isso mesmo, exigiam uma renovada sofisticação para não caírem no ridículo.

Apesar de bastante popular na época, o Ymir não fez o filme decolar. Mas o mais interessante é que seu nome jamais aparece no decorrer da história, mas somente na novelização feita pelo escritor Henry Slesar para o primeiro e único número da fracassada revista “Amazing Stories Science Fiction Novels“, no próprio ano de 1957, com o título de “The Giant Ymir“. Porém, é na película que ele se tornou famoso. A fantástica cena em que a desafortunada criatura de Vênus batalha com um descontrolado elefante próximo às ruínas de Roma seria uma espécie de marca registrada de Harryhausen – em quase todas as produções posteriores haveria pelo menos um combate entre criaturas.

Com este clássico do cinema B, entretanto, se encerrou a nostálgica e inspirada fase preta e branca do mestre Ray Harryhausen – a fase que fora embalada por alguns dos mais expressivos exemplares do horror e da ficção científica dos anos 50, todos provenientes da ficção “pulp” que fervilhava nos magazines da época. A partir daí, Ray se voltaria para temas mais ambiciosos, como a mitologia e a literatura clássicas, onde as possibilidades de desenvolvimento e expressão eram praticamente ilimitadas, além de poderem introduzir as devidas novidades multi-coloridas nas telonas. Mas pelo menos uma característica da velha fórmula continuaria: dá-lhe monstros!!!

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E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

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