O Ventre Negro da Tarântula (1971)

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O Ventre Negro da Tarântula
Original:La Tarantola dal Ventre Nero
Ano:1971•País:França, Itália
Direção:Paolo Cavara
Roteiro:Lucille Lacks, Marcello Danon
Produção:Marcello Danon
Elenco:Giancarlo Giannini, Claudine Auger, Barbara Bouchet, Barbara Bach, Stefania Sandrelli, Silvano Tranquilli, Ettore Mattia

O sucesso comercial do clássico O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), que marcou a estreia de Dario Argento na direção, criou um boom do subgênero conhecido como giallo, a versão italiana das velhas histórias de mistérios, com direito a muito sangue e sensualidade, bem ao gosto do temperamento latino.

Embora o giallo tenha surgido em meados dos anos 60 pelas mãos de outro mestre, Mario Bava, foi o sucesso do estreante Argento que catapultou esse tipo de filme. Logo começou uma espécie de corrida do ouro, onde vários diretores do cinema de gênero italiano começaram a rodar o seu giallo.

Foi nessa onda que o documentarista Paolo Cavara, que estreou no cinema co-dirigindo Mundo Cão (1962), o seminal documentário sensacionalista que seria pai de todos os chamados shockmentarys, ou seja, documentários apelativos feitos com o intuito de chocar a plateia.  O giallo de Cavara se chamaria O Ventre Negro da Tarântula, um dos mais interessantes filmes do subgênero.

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O título do filme se justifica, lá pelas tantas, numa cena bem didática, onde vemos uma vespa paralisar uma tarântula; o intuito do inseto é depositar seus ovos no ventre do aracnídeo, sendo assim as larvas da vespa crescerão se alimentando da tarântula ainda viva! Essa explicação se dá com direito a close dos dois animais se engalfinhando e é difícil não se lembrar de Mundo Cão.

Na verdade essa explicação animal serve como metáfora ao modus operandi do assassino, que paralisa suas vítimas cravando uma agulha na nuca, uma técnica milenar e ilegal de acupuntura (é o famoso O Beijo do Dragão, que dá nome ao melhor filme de Jet Li na sua fase hollywoodiana, onde o lutador chinês usava esse método para paralisar seus oponentes).

Depois de paralisar as vítimas (todas elas mulheres) o serial killer se delicia as esquartejando.

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O filme abre com uma mulher recebendo uma massagem, com direito a closes de partes de seu corpo, enquanto rola os créditos. A mulher em questão é Maria Zani (a bela e voluptuosa Barbara Bouchet), uma burguesa ninfomaníaca que está sendo acusada de adultério pelo marido (Silvano Tranquilli). Logo a moça será a primeira vítima do assassino, que vale lembrar, usa luvas, chapéu e sobretudo preto, ou seja, veste a caráter, no modelito clássico de vilão de giallo.

No encalço dos crimes está o inspetor Tellini (Giancarlo Giannini). Inseguro, nosso titubeante policial está em crise, se achando incapaz de resolver o caso. Enquanto paralelamente vemos sua vida de casado, com sua bela esposa Anna (Stefania Sandrelli).

O curioso é que, enquanto o assassino vai aumentando a contagem de cadáveres femininos, o inspetor, durante a investigação, acaba esbarrando em outros casos. Nosso protagonista descobre traficantes de cocaína e um esquema de chantagem e extorsão de mulheres, que foram fotografadas em momentos impróprios pelo seu chantagista sedutor e sua cúmplice Laura (a francesa Claudine Auger), dona de uma estética frequentada pelas vítimas do assassino.

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No clímax o inspetor descobrirá a identidade do criminoso no momento em que sua esposa corre risco de vida.

Paolo Cavara, em seu terceiro filme de ficção, mostra aqui que estudou bem obras como Seis Mulheres para O Assassino de Bava, assim como a trilogia dos bichos de Argento (O pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza), pois se identifica aqui a influência dos filmes supracitados.

A influência de Bava se dá na construção de certas cenas, principalmente da moça que assassinada dentro da loja de roupas, em meio a manequins. De Argento, temos algumas semelhanças em recursos narrativos, inclusive no alívio cômico, aqui representado pelo detetive Catapulta (Ettore Mattia), que aparece pouco.

O Ventre Negro da Tarântula se destaca pelo belo elenco feminino, além de Bouchet e Sandreli, temos ainda Claudine Auger e Barbara Bouchet. Um dos melhores times de vítimas de um giallo!

Embora a identidade do assassino não seja tão difícil de adivinhar, por uma mera questão de lógica, mesmo o roteiro tentando dar uma desviada trivial, a obra conta com um bom ritmo e cenas marcantes como a morte da personagem de Barbara Bach. Claro que o roteiro tem uns absurdos, tão comuns no cinema fantástico italiano que já virou marca registrada. Não faltam personagens marcantes como o massagista cego e peculiares como o aracnólogo (pesquisador de aranhas) traficante.

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Boa trilha de Ennio Morricone (que trabalhou nos primeiros filmes de Argento, antes deste descobrir o Goblin), embora esse genial maestro se saísse melhor em trilhas de spaghetti-westerns, no giallo as trilhas de Bruno Nicolai (aliás, grande parceiro de Morricone) são imbatíveis.

Uma informação extra, daquelas que não mudam a vida de ninguém, porém curiosa, é o fato de O Ventre Negro da Tarântula ser o giallo com mais atores que trabalharam em algum filme de James Bond! Participaram e participariam nos filmes do agente secreto: Giancarlo Giannini apareceu em 007 – Cassino Royale e 007 –Quantum of Solace, Barbara Bouchet em Cassino Royale (a paródia de 1967 com David Niven como Bond, aqui ela faz a Monneypenny, secretária de M, o chefe de 007), Claudine Auger em 007 Contra a Chantagem Atômica e Barbara Bach em 007 – O Espião que Me Amava (1977).

Paolo Cavara ainda se aventuraria em vários outros gêneros, arriscando o giallo em apenas outro filme: E Tanta Paura (1976). Esse diretor eclético acabaria falecendo em 1982, aos 56 anos.

O Ventre Negro da Tarântula segue a risca a cartilha do giallo, é um ótimo exemplar para quem quer iniciar nesse tão tresloucado subgênero. Para os já iniciados é um clássico do subgênero.

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Paulo Blob

Paulo Blob

Nascido em Cachoeirinha, editou o zine punk: Foco de Revolta e criou o Blog do Blob. É colunista do site O Café e do portal Gore Boulevard!

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