A Mata Negra (2018)

A Mata Negra
Original:
Ano:2018•País:Brasil
Direção:Rodrigo Aragão
Roteiro:Rodrigo Aragão
Produção:Mayra Alarcón, Rodrigo Aragão,Éder Formigoni, Kika Oliveira e Magno Santos
Elenco:Jackson Antunes, Carol Aragão, Francisco Gaspar, Markus Konká, Clarissa Pinheiro

O equívoco mais comum entre os cineastas que estão fora de Hollywood e decidem investir no cinema de horror é, justamente, não perderem as produções norte-americanas de vista. O que seria um ambiente perfeito para explorar situações e personagens com essência brasileira vira cópia (malfeita, na maioria das vezes) de tramas genéricas que os fãs mais dedicados do gênero estão exaustos de assistir. Por isso mesmo, os exemplares mais interessantes do terror brasileiro, desde o surgimento do Zé do Caixão de José Mojica Marins, beberam nas fontes do nosso folclore e também nos costumes envoltos em clima de assombração típicos das nossas cidades do interior. E é na busca de cura em benzedeiros e livros amaldiçoados que se constrói A Mata Negra, quarta produção do capixaba Rodrigo Aragão.

Herdeiro direto do estilo de guerrilha de filmar de Marins, Aragão sempre fez do quintal de casa, com seus manguezais sinistros, o local perfeito para buscar inspiração para suas histórias desde Mangue Negro, seu primeiro longa. Agora contando com parte da verba para a realização vinda de editais do governo, ele conseguiu colocar em circuito comercial suas criações sanguinolentas e criativas. A trama, mais uma vez, envolve os mistérios da natureza. Na mata fechada, em uma casa de barro, a jovem Clara (Carol Aragão) vive com seu pai de criação, um curandeiro que engarrafa a cura para vários males e vende-as na feira da cidade. Isso entre um surto e outro, aparentemente sob a possessão de um espírito. Mas é apenas o começo da história, e não é propriamente ela que faz da sessão de A Mata Negra uma diversão das boas.

Os efeitos práticos, assinados por Aragão, e a direção de arte continuam os pontos altos de seu trabalho. A construção da atmosfera colabora para que o espectador acredite nos fantasmas e outros monstros que a mata esconde. Ao invés de investir no susto intenso e rápido, o diretor apresenta longas sequências em que parece que nada acontece, mas os mais atentos percebem que a tensão está num crescente para que o clímax, com muito sangue, seja tão inesquecível quanto o ataque de Madame Úrsula (Cristian Verardi) e sua metralhadora em Mar Negro. Já que lembramos um dos mais icônicos personagens do cinema de Aragão, vale falar do elenco.

Carol Aragão assume a responsabilidade de ser a protagonista, mas como acontece em alguns filmes, a cena é roubada mesmo pelos coadjuvantes. Francisco Gaspar e Clarissa Pinheiro divertem como o casal José e Maria, centro de uma das subtramas que o filme apresenta e do qual a busca de Clara torna-se o fio condutor. São tipos conhecidos do cinema de Aragão: o interiorano comum, que tem medo de ir para o inferno mas adora pedir ajuda para algum espírito não tão cristão assim. Um retrato da alma sincrética do país e também da ameaça do fanatismo religioso, representada pela figura do pastor evangélico Francisco das Graças, interpretado por Jackson Antunes. Suas ameaças, compostas de frases feitas ditas aos berros, viram a trilha sonora dos ataques temperados com vísceras e cadáveres que Aragão constrói com o talento de sempre.

Há muito do cinema de Sam Raimi em A Mata Negra, especialmente no que se refere ao perigo que ronda lugares banais. As fugas pela mata fechada e os rostos ensanguentados trazem Evil Dead à nossa mente quase de imediato. O anárquico Raimi, que queria fazer cinema de horror cercado de amigos, parece influenciar não apenas a arte, mas o modo de trabalho de Rodrigo Aragão, até agora sem nenhum parceiro à altura de seu processo criativo. Festivais como o tradicional Fantaspoa são a prova que muitos realizadores acreditam e investem no cinema de horror, mas a autenticidade da obra do capixaba é inegável, não apenas por seus efeitos visuais criados de forma artesanal, mas por conseguir equilibrar várias histórias sem perder o ritmo e a atmosfera fantástica. Ao contrário de muitos diretores, insistentes nas explicações, ignorando a habilidade de percepção do público, ele investe no humor ácido e não dá respiros. Quem gosta de horror, que aguente o tranco. Uma tática também utilizada por diretores italianos, como Lucio Fulci e Michele Soavi. Mas A Mata Negra não tem nada de espaguete. Aqui o sabor é exótico e apimentado, 100% brasileiro. Experimente. Duvido você não querer repetir.

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Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e possui especialização em cinema. É editora e sócia do site Formiga Elétrica. Apresenta a série de vídeos Bia na Toca, realizada pela produtora Toca Audiovisual. Integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

6 comentários em “A Mata Negra (2018)

    • Silvana Perez
      18/03/2019 em 08:52
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      O Rodrigo Aragão está preparando o lançamento em DVD para breve, Danilo

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  • 24/01/2019 em 18:18
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    Eu queria muito ver esse e o “Fabulas Negras”, mas quem disse que acha pra baixar, sacanagem…

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    • 02/02/2019 em 19:22
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      esse “Fábulas Negras” o meu namorado achou pra baixar Oo. é bem interessante

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    • 10/03/2019 em 00:05
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      Fabulas negras vc encontra completo no YouTube

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  • 22/01/2019 em 22:52
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    Eu assisti no Fantaspoa, e não tenho palavras p descrever que noite memorável foi aquela…

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