Clímax (2018)

Clímax
Original:Climax
Ano:2018•País:França e Bélgica
Direção:Gaspar Noé
Roteiro:Gaspar Noé
Produção:Edouard Weil, Alice Girard e Vincent Maraval
Elenco:Sofia Boutella, Romain Guillermic, Souheila Yacoub, Kiddy Smile, Claude Gajan Maull, Giselle Palmer, Taylor Kastle, Thea Carla Schott, Sharleen Temple, Lea Vlamos, Alaia Alsafir, Kendall Mugler, Lakdhar Dridi, Adrien Sissoko, Mamadou Bathily, Alou Sidibe, Ashley Biscette, Vince Galliot Cumant, Sarah Belala

Independentemente da opinião que se faça do cineasta franco-argentino Gaspar Noé, um fato sempre emerge quando seu nome é citado: as polêmicas que sempre envolvem suas obras, de modo que se torna quase impossível ficarmos impassíveis diante de seus trabalhos, seja amando-os ou odiando-os. Dono de uma pequena, porém marcante filmografia, Noé surgiu, de fato, para o mundo do cinema com o visualmente arrebatador Irreversível (2002), um filme notável que se tornou famoso por suas repulsivas cenas gráficas de estupro e assassinato. Vale lembrar, todavia, que antes das controvérsias envolvendo o longa com Monica Belucci, Noé já havia marcado seu nome no cinema de arte com o igualmente perturbador Sozinho Contra Todos (1998), curiosamente o único filme de sua autoria que fora bem recebido pela crítica. Isto é, até o lançamento de Clímax… Antes, no entanto, Noé ainda dirigiria Enter the Void – Viagem Alucinante (2009) e Love (2015), ambos trabalhos altamente experimentais e de gosto e qualidade duvidosos. Imbuídos de um niilismo que choca e fascina em igual medida, suas obras têm em comum o fato de frequentemente serem criticadas pelo vazio das narrativas e elogiadas pelo virtuosismo técnico. Em Clímax, seu mais recente longa-metragem, o estilo “Noé” de fazer cinema está mais presente do que nunca, embora muito menos transgressor do que antes, algo que, neste caso, não significa algo necessariamente ruim.

Instigante, o longa tem início com uma característica já bastante marcada de Noé: a inversão na cronologia dos eventos. No plano que abre o filme, uma personagem feminina machucada e descontrolada (Souheila Yacoub) caminha com dificuldade pela floresta coberta de neve espessa, para depois colapsar naquele chão. Têm início então os créditos finais (?) com referências a toda a equipe do filme. Num monitor velho de TV, são apresentados os aspirantes a figurarem na Companhia de Dança. Cada um se apresenta brevemente, permitindo-nos conhecer um pouco daquelas pessoas, enquanto pode-se ver ao redor da Televisão livros e Filmes (parte da coleção pessoal de Noé) que claramente influenciaram a estética deste longa, com destaque para obras de Nietzsche e as fitas de Suspiria (1977) e Possessão (1981). Após a apresentação da logomarca dos produtores, e sem maiores explicações sobre a trama, Noé esbanja sua técnica cinematográfica e nos brinda com uma das mais brilhantemente filmadas cenas de dança do cinema. Ao som da versão instrumental de “Supernatural” de Cerrone, as personagens dos vídeos da audição retornam numa coreografia extasiante, que mistura elementos de voguing, krumping, contorcionismo e ginástica artística numa combinação de estilos de dança tão inusitada quanto hipnotizante. Utilizando-se mais uma vez de planos-sequência virtuosos, Noé e seu diretor de fotografia Benoît Debie nos mostram a festa de encerramento dos ensaios da companhia de dança encabeçada pela coreógrafa Selva (Sofia Boutella, magnífica), brindada com uma sangria preparada por uma das dançarinas. Enquanto flertam, dançam, fofocam e se divertem, o roteiro nos permite, através de diálogos entre as várias duplas de personagens do numeroso elenco, conhecer mais sobre o que move e o que assusta aqueles indivíduos. Finalmente, como se dissesse: “Agora é que começa o filme para valer!”, Noé nos apresenta os créditos iniciais (!) com todo o elenco, principais nomes da produção e artistas que compõe a perfeita trilha sonora (tem até Rolling Stones). O que parecia ser uma festinha tranquila regada a álcool logo se transforma em outra coisa. Alguém colocou alucinógenos na sangria, e todos que beberam começam a experimentar uma espécie de paranoia coletiva que leva aos instintos e ações mais primitivas dos seres humanos: Violência, Sexo, Competição, Intolerância. Uma verdadeira descida ao inferno, banhada por cores fortes e ângulos e movimentos inesperados de câmera.

Bem mais enxuto em duração e ritmo (é o longa mais curto do diretor desde Sozinho Contra Todos), Clímax se beneficia pelo bom elenco (à exceção de Boutella, atriz bailarina de formação, todos os outros são dançarinos sem qualquer formação de ator) e por tentar analisar o comportamento humano em condições de isolamento e sob o véu da sanidade e do consciente, acertando no belíssimo uso de cores e da trilha sonora que funciona como uma personagem à parte do filme, bem como em chocar muito menos (as cenas de nudez e sexo são raras e pudicas e a violência é mais psicológica do que gráfica), beneficiando a apreensão dos significados do que o espectador vê na tela. Apesar das fortes acusações de moralismo nesta obra, Gaspar Noé volta à boa forma de outros tempos, merecendo todos os elogios por sua técnica altamente apurada. Pode não agradar a todos (Noé nunca foi disso), porém Clímax é inegavelmente uma experiência cinematográfica única.

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Marcus Augusto Lamim

Marcus Augusto Lamim

Um seguidor fiel do cinema em todos seus formatos e gêneros, amante de rock e do gênero fantástico, roteirista amador e graduando em química.

8 comentários em “Clímax (2018)

  • 07/03/2019 em 16:06
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    Amei, amei, amei. Não julgo quem não gostou. No inicio do filme o cara já mostrava qual seria o desfecho, logo, não tem essa de “não curti o final. Este filme´é pra quem já teve uma bad trip ou pra quem já provou quimicos. Eu amei forte, me deixou mal e nao sou culto, apenas me identifiquei. Ótima critica.

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  • 26/02/2019 em 14:08
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    Não perca tempo vendo esse filme, acho que precisa tomar algum acido para acompanhar.

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  • 25/02/2019 em 22:29
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    Esse filme fez eu agradecer por não ser frequentador de baladas ou festas assim. hehehe. Sério. Que loucura, cara. Eu não sei qual seria minha reação no meio de uma experiência como essa. Gaspar Noé trouxe em Clímax uma verdadeira descida ao inferno.

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  • 25/02/2019 em 00:35
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    Dos filmes anteriores tirando só o ” Love ” que não vi , ” Climax ” foi o único que não gostei , pra mim foi decepcionante !

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  • 24/02/2019 em 12:52
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    Mais uma porcaria elogiada por pseudo-intelectuais que se acham inteligentes por enaltecerem filmes de diretores “controversos” que fazem um monte de filme bosta, sem sentido, justamente para esses imbecis ficarem babando ovo…

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    • 24/02/2019 em 13:34
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      Poxa, errrr, “itstrue” é o seu nome? Enfim, it’s true que eu adoro um cultzera, fico todo molhadinho, mas vamos discutir. Por que você não gostou de Clímax, por exemplo?

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