A Maldição da Freira (2018)

A Maldição da Freira
Original:The Devil's Doorway
Ano:2018•País:Irlanda, Reino Unido
Direção:Aislinn Clarke
Roteiro:Aislinn Clarke, Martin Brennan, Michael B. Jackson
Produção:Martin Brennan, Katy Jackson, Michael B. Jackson
Elenco:Lalor Roddy, Ciaran Flynn, Helena Bereen, Lauren Coe, Dearbhail Lynch, Carleen Melaugh

A maldição da freira vai além do título nacional oportunista do longa de Aislinn Clarke – que originalmente se chama “The Devil’s Doorway” (algo como “o portal do diabo“. Bem que podiam chamá-lo de “Boca do Inferno“. Não iríamos nos importar com isso) -, mas pode apontar uma tendência. Desde o lançamento de Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, 2016), quando o demônio Valak fez sua primeira aparição, o gênero passou a olhar com mais atenção para as eclesiásticas: ele voltaria a aparecer em Annabelle 2 e em seu filme solo, lançado ano passado. No entanto, o tema continua em pauta com o terror que chegou aos cinemas no dia 28 de fevereiro e também envolve o longa St.Agatha, de Darren Lynn Bousman, e o trash Não Adianta Rezar (Curse of the Nun, 2018), de Aaron Mirtes. E há a possibilidade de uma nova aparição de Valak numa possível sequência de A Freira, mostrando que ainda teremos muitas orações pela frente no retorno soft do nunsploitation.

O novo filme segue a já exausta fórmula dos found footages, aquelas produções que acusam o encontro de um material de filmagem que irá revelar uma tragédia. Apesar do tema batido, o enredo traz alguns interessantes calafrios e ainda tem o mérito de não enrolar o espectador com gravações desnecessárias para dar profundidade vazia ao elenco e momentos alegrinhos em que nada acontece. Logo no letreiro inicial é dito que a Igreja Católica da Irlanda, por 200 anos, tem mantido mulheres em asilos conhecidos como Lavanderia Magdalene. Eram recebidas no local prostitutas, vítimas de abuso, órfãs, grávidas e doentes mentais, para os cuidados de um grupo de freiras, com muita disposição para uma torturante disciplina. Em 1960, dois padres, Thomas Riley (Lalor Roddy) e John Thornton (Ciaran Flynn), foram mandados pela Igreja a um desses espaços para registrar em vídeo um possível milagre: a estátua da Virgem Maria teria vertido sangue.

Depois de uma cena-spoiler, que mostra uma correria por uma caverna estreita até a uma aparição rápida de uma freira, o longa mostra cronologicamente os acontecimentos, desde a chegada dos dois ao local, apresentando a razão para o que estão fazendo. Thomas, desde o principio, mostra-se relutante em acreditar em milagres, devido à longa jornada de investigação de fenômenos fraudados, enquanto John já é mais suscetível ao sobrenatural. Assim que encontram a fria Madre Superiora (Helena Bereen), descobrem que o anúncio do milagre fora feito anonimamente e que ninguém ali sabe a respeito disso, mas, mesmo assim, os padres resolvem investigar o asilo, observando algumas rotinas exageradas das residentes e acontecimentos estranhos.

Embora saibam que não existe registro de criança hospedada na Lavanderia, John passa a ser atormentado durante a noite por sons de risadas e vultos, nas sequências mais interessantes da produção. O roteiro, escrito por Martin Brennan, Aislinn Clarke e Michael B. Jackson, só não explica por que as filmagens não são mostradas para Thomas ou para a Madre, quando ele relata o medo experimentado, em um erro também cometido em Atividade Paranormal. Os arrepios se amplificam quando a dupla fica sabendo que existe um ambiente mais sombrio no local e que ali reside a jovem Kathleen (Lauren Coe), mantida isolada das demais mulheres, além de acorrentada e alimentada como um animal, devido a um suposto comportamento agressivo. Thomas quer dar a ela um tratamento mais humano, prevendo a possibilidade de denunciar a instituição à Igreja, porém encontrará dificuldades e problemas ainda mais assustadores.

Além da gravação com aparência levemente antiga – são filmagens corrigidas com o computador, o que tira um pouco do aspecto envelhecido -, o que desperta o interesse em A Maldição da Freira são os elementos de horror que complementam o enredo: as já mencionadas crianças fantasmas, o ambiente subterrâneo e a caracterização da estranha Kathleen. Ainda assim, o horror jamais se convence como uma gravação real, principalmente pelo uso de trilha incidental a todo momento para causar os famigerados jumpscares no público, e a interpretação estereotipada de alguns personagens como a própria Madre, sempre com expressão carrancuda. Esses problemas, mesmo que não tão agudos, acabam se unindo a umas ideias bobas do roteiro como a despedida de um personagem à câmera (alguém disse Bruxa de Blair?) e a insistência em se aprofundar na investigação mesmo quando o caminho já aparenta ser extremamente tortuoso e complicado, até atingir o limite de suas condições.

Com o interesse do enredo na residente Kathleen e nos fenômenos que atingem a casa, as demais mulheres, vistas na cena inicial, são deixadas de lado, sem o aproveitamento em entrevistas que poderiam render um material interessante. Aliás, poderia ser explorado melhor a existência dessas “Lavanderias Magdalene“, como elas funcionavam e o modo como eram tratadas as internas, principalmente diante do que acontecia nos bastidores. Será que ninguém mais ouvia e presenciava as crianças?

Mesmo que não vá além do óbvio, A Maldição da Freira (ainda tentando descobrir a relação desse título com o enredo) pode render alguns bons sustos. Pode ser recomendado como um terrorzinho de fim de noite, sem que você espere por algum milagre nesse subgênero que já se esgotou há muito tempo.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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