O Poço (2019)

O Poço
Original:El Hoyo
Ano:2019•País:Espanha
Direção:Galder Gaztelu-Urrutia
Roteiro:David Desola
Produção:Ángeles Hernández
Elenco:Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonio San Juan, Emilio Buale, Alexandra Masangkay

“Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”

Ao fim do filme, você vai se questionar: qual delas eu seria numa situação extrema?

Entender as questões morais, as analogias sobre os atuais momentos sócio-políticos e seus reflexos nas telas é uma grande preocupação atualmente. Por que não com o cinema do horror? Num momento em que  filmes como Parasita, Coringa, Nós e Bacurau discutiram sobre diferença de classes e o comportamento delas perante a sociedade, O Poço surge com um subtexto mais cruel, mais pessimista, e ainda mais desolador.

Nada como um futuro distópico para representar como a tal natureza humana pode se comportar em meio a rupturas sociais. Recentemente foi discutido no podcast Falando no Diabo, o paralelo entre ficção e realidade, tendo como pano de fundo o cenário da pandemia do Coronavirus e filmes sobre o tema. A primeira constatação é: há uma ruptura social quando a maioria das pessoas está preocupada com seu bem estar, a ponto de passar por cima do próximo. Há quem tente ser solidário, mas em um contexto geral, a situação é quase sempre desoladora. Essa visão não é diferente na narrativa de O Poço.

Em uma prisão ‘vertical’, dividida em centenas de níveis, Goreng (Ivan Massagué), acorda em um nível intermediário, ao lado do companheiro de cela Trimagasi (Zorion Eguileor), que lhe explica o funcionamento da instituição. Ali, o importante é sobreviver e o maior medo é a fome. Uma mesa repleta de comida desce em uma plataforma entre os níveis, e permanece durante um curto espaço de tempo em cada um. Os presos podem comer o que há na mesa, e quanto mais a plataforma desce, há menos comida. Goreng logo questiona o fato de quem está nos níveis mais baixos não poder comer. O protagonista se vê em meio a uma questão moral e de sobrevivência. O nível intermediário ainda é considerado interessante, onde sobra comida; mas como seria estar nos outros níveis? Trimagasi tem uma visão mais simples. Acredita que se está ali e se tem a comida, não é preciso questionar. Desmerece quem está embaixo, mas também não morre de amores por quem está em cima. Sua única preocupação é consigo mesmo.

A prisão é o retrato da selvageria do capitalismo, em que quanto mais em cima, mais cruel o indivíduo se torna; e quanto mais embaixo, mais degradante é a luta pela sobrevivência. O diretor não poupa o espectador de cenas graficamente violentas. Em contrapartida o roteiro é cheio de metáforas: cada personagem tem um papel social – há xenofobia, há racismo, há misoginia, todos os males que assolam a sociedade atual. Cada detalhe, cada referência não está ali de graça. Em uma estética que remete ao famoso Cubo de 97, o filme incomoda e causa um mal estar à medida que a trama se desenvolve. O que traz um certo alívio ao espectador é perceber as intenções de Goreng.

O final em aberto pode soar pessimista ou otimista, isso vai depender da interpretação de quem assiste. O Poço surge em um momento importante, em meio a uma pandemia de um vírus desconhecido. E tem a função de nos ajudar com questionamentos como: qual o nosso lugar nessa sociedade? Seremos como Trimagasi em seu egoísmo ou empáticos como Goreng?

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Ivo Costa

Ivo Costa

Estudante de Cinema, fez parte do Juri Popular do Cinefantasy em 2011. Além de crítico do Boca do Inferno, atua como diretor e roteirista de curtas-metragens.

10 comentários em “O Poço (2019)

  • 06/05/2020 em 19:19
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    Uma grande critica ao socialismo, bom filme.

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  • 31/03/2020 em 19:30
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    Sua critica está errada Fabiano. O filme não é uma critica ao capitalismo é uma critica ao socialismo. Um sistema centralizado que os de branco de cima (O estado). Os de baixo são as camadas da sociedade, até aquela mulher com o cachorro é a tipica funcionaria publica que já trabalhou lá em cima e tenta dividir a comida em vão. O sistema centralizado ignora os anseios individuais por mais que achem que todos devem comer sua parte igual, cada indivíduo tem seu própria necessidade.

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    • 01/04/2020 em 22:19
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      Bravo! Penso o mesmo que você! É uma pena que tudo o que envolva cultura (cinema, música, artes) só tenha esquerdopatas em suas redações (como aqui no Boca do Inferno)!

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    • 01/04/2020 em 22:19
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      O próprio diretor do filme disse, em entrevista, que o filme também é uma crítica ao socialismo.

      Ele não nega a intenção de crítica ao capitalismo, mas explica (SPOILER)…..

      …que a dupla central representa o socialismo e o erro de se forçar mudanças sociais a base da coerção, visto que, ao descerem de níveis, acabam matando metade das pessoas que pretendiam ajudar.

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      • 07/04/2020 em 12:22
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        sobre o socialismo a crítica é ao comportamento social, quando uma minoria tenta e não consegue conscientizar os ‘presos’ quanto a questão da divisão da comida.

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    • 01/04/2020 em 22:46
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      A interpretação dele diz respeito a ele, Oscar. A crítica não se embasa nas suas impressões, é perfeitamente cabível que alguém tenha um ponto diferente do seu, e que faça sentido da mesma forma. Não está errado.

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    • 07/04/2020 em 12:21
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      Oscar, o filme é sim uma crítica ao Capitalismo, o que é apresentado logo de cara quando percebemos as divisões dos níveis que funcionam como divisão de classe, e como funciona com quem quer subir e com quem quer descer – e sobre o socialismo não é uma crítica ao sistema, e sim ao comportamento social, quando uma minoria tenta e não consegue conscientizar os ‘presos’ quanto a questão da divisão da comida. Não distorça por favor.

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  • 29/03/2020 em 18:18
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    Realmente a sensação quando se assiste é tentar compreender que tudo é uma questão de socialização, de compaixão e interação. Vi o filme, e gostei achei profundo e com dicas de como somos: o Don Quixote que é sonhador e se preocupa com o bem estar alhieo ou Sancho Pança submisso e ao mesmo tempo acomodado. Talvez esse seja o filme do ano(na minha opinião)

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