Bacurau (2019)

Bacurau
Original:
Ano:2019•País:Brasil, França
Direção:Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho
Roteiro:Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho
Produção:Saïd Ben Saïd, Michel Merkt
Elenco:Barbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Thardelly Lima, Rubens Santos, Wilson Rabelo, Karine Teles, Antonio Saboia, Sônia Braga, Udo Kier

Estamos sendo atacados. A frase dita pelo personagem Lunga (Silvero Pereira) em um dos momentos mais tensos de Bacurau (2019) sintetiza o debate ao qual o filme se propõe a tratar com o público. Aliás, debate é algo que pode ser proposto e recusado. Em Bacurau, cuja ação se passa em um sertão futurista, terra de cangaceiros que cortam a cabeça dos inimigos, não existe debate. Tudo é jogado de forma crua e direta para o público. Atacou a nós? Aguente as consequências. Não está gostando do filme? Problema seu. Está incomodado? Saia da sala do cinema. Bacurau não pega leve. E por qual motivo deveria?

Cerca de um mês após a estreia de Bacurau e todo o merecido estardalhaço em cima do filme, o que resta ser dito da produção assinada pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles? Que o filme segue como uma obra forte, direta e principalmente necessária capaz de provocar orgulho em quem assiste ao filme.

Não precisa ser pesquisador de cinema para entender como a Sétima Arte pode dialogar com questões sociais, políticas, econômicas e culturais nos países nos quais os filmes são produzidos. Importantes estudiosos da sétima arte como Douglas Kellner, David Bordwell, David Roche, entre outros, já escreveram livros sobre estas relações. A questão é que muitos filmes, a maioria talvez, tratam esta relação de forma discreta e em muitos casos por meio de metáforas distantes. Não existe nada de errado com estes filmes. Se pensarmos na quantidade deles que são produzidos e lançados por ano, é bom e necessário que existam diferentes caminhos e possibilidades para que as histórias sejam contadas. A escolha de como a trama de Bacurau é contada é válida. Os ataques que os moradores da pequena cidade sofrem não são sutis. Por qual motivo o filme deveria ser?

Bacurau acompanha a rotina dos moradores de uma pequena cidade no sertão pernambucano em um futuro próximo. O local é marcado por uma série de problemas que toda cidade pequena do sertão conhece bem. Da falta de água até políticos que aparecem apenas para pedirem voto, existe uma harmonia entre os moradores do lugar. Os habitantes de Bacurau sabem que não podem contar com o poder público. Estes personagens são a síntese da frase “ninguém solta a mão de ninguém”. Eles são mais fortes quando permanecem juntos.

Coisas estranhas começam a acontecer na pequena cidade, desde o caminhão pipa que abastece a cidade com água e de repente aparece baleado, cavalos que chegam correndo na cidade no meio da madrugada e até uma dupla de motoqueiros de passagem por Bacurau.

Bacurau funciona tanto como texto (e que texto!!!) como por meio de subtexto e contexto. O texto responde como a própria história do filme, o subtexto pode ser compreendido como um tema ou significado implícito no enredo enquanto o contexto tenta justificar as ações da trama dentro de fenômenos culturais, sociais, políticos e ou econômicos.

A tensão criada pelo roteiro é comandada com perfeição pela dupla de diretores. Não, Bacurau não é um filme de terror, mas possui inúmeros momentos de escolhas narrativas e estilísticas do cinema de terror. A medida na qual a ação avança, a tensão se mostra cada vez mais forte fazendo com que o público fique cravado nas poltronas do cinema sem mexer um músculo no aguardo pelo desenrolar da trama. Aqui fica clara a referência ao trabalho de John Carpenter.

No entanto o grande trunfo de Bacurau, sem desmerecer em nada o seu texto, é a forma como o subtexto e o contexto são trabalhados. Embora a história tenha sido desenvolvida pela dupla de diretores desde 2009, o roteiro começou a ser escrito após Aquarius (2016). Ao assistir o filme, a trama não é apenas uma metáfora distante, mas uma crítica explícita e forte ao Brasil de hoje. Só não entende quem não quer.

Todos os personagens servem como espelhos da sociedade brasileira atual. Lunga afirma que estamos sendo atacados. Sim, estamos como nação sendo atacados. Em um país completamente dividido por questões políticas, é interessante observar as ações e reações dos personagens dentro do roteiro. Alguns pontos chegam a ser gritantes.

A escola, que representa a educação, é tratada com desdém pelo prefeito de Bacurau. A cena em questão é forte, chega a ser indigesta mesmo não sendo escatológica. Ou melhor, é bastante escatológica. Mais do que escatológica, é triste. E quantas vezes acompanhamos em noticiários escolas públicas abandonadas ou em péssimas condições? Por qual motivo Bacurau deveria pegar leve ao fazer a sua crítica se os problemas reais não são nada leves? No filme, a própria escola serve como ponto de resistência.

E se a escola tem esta função, o que dizer do museu de Bacurau? A preservação da história onde é possível buscar abrigo e reforço no passado para enfrentar o presente e garantir o futuro. Marcas que ficam, que devem ficar. Uma história que não deve ser esquecida. Bacurau é um retrato tão explícito que chega a incomodar. É bom justamente por incomodar. Sexismo, misoginia, racismo e pobreza também são abordados de forma muito clara. A pergunta não é mais quem é o inimigo. Sabemos quem é o inimigo, quais são suas armas e como são os ataques.

Os moradores de Bacurau estão cansados de tantos ataques e o final do filme representa isso de forma muito clara. Em determinado momento, a personagem Domingas (Sonia Braga) pergunta o motivo dos moradores de Bacurau estarem passando por aquela situação. Ela fica sem resposta. O filme mostra por meio deste questionamento de Domingas que o diálogo muitas vezes não é mais possível.

Por não pegar leve em nenhum momento, Bacurau naturalmente também foge de um final sutil. Aqui temos mais uma crítica de Kleber e Juliano. Os moradores de Bacurau estão cansados de serem vítimas. O final do filme serve como alegoria de um povo exausto diante de como é tratado tanto como indivíduos, mas também como sociedade. E nesta aspecto, Bacurau nos convida a refletir. Ou melhor, nos obrigada a refletir.  Precisamos de mais Lungas e Domingas uma vez que os ataques seguem e estes são atualmente em abundância.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

3 comentários em “Bacurau (2019)

  • 29/09/2019 em 16:07
    Permalink

    Experiencia unica do cinema brasileiro e de terror. Uma obra prima do ano

    Resposta
  • 19/09/2019 em 13:46
    Permalink

    Me decepcionei, mais se perdeu entre ser algo com identidade brasileira, e algo para gringo ver… Mas no geral, foi um bom trabalho, tecnicamente bastante satisfatorio.

    Resposta
  • 18/09/2019 em 09:18
    Permalink

    Belo texto
    Belo filme
    Um filme que ecoara nas lembranças do povo de Bacurau por muito tempo.
    Nós sonos Bacurau

    Resposta

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