Messias do Mal (2002)

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Messias do Mal
Original:Savage Messiah
Ano:2002•País:Canadá, UK
Direção:Mario Azzopardi
Roteiro:Sharon Riis
Produção:Bernard Zukerman
Elenco:Polly Walker, Luc Picard, Isabelle Blais, Louis Ferreira, Isabelle Cyr, Pascale Montpetit, Julie La Rochelle, Elizabeth Robertson

Mateus 24:23-26 “Se, pois, alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo aí! não acrediteis; porque hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que de antemão vo-lo tenho dito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto; não saiais; ou: Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis.”

A realidade é sempre mais assustadora que a ficção. Ver monstros, assassinos e violência em obras de ficção já não impressiona mais como antigamente, quando o cinema, em sua fase fértil, servia como uma válvula de escape ao horror de uma guerra sempre iminente. Por meio de metáforas sutis, surgiam criaturas bizarras e imensas que representavam, cada uma a seu modo, os horrores da violência entre nações, permitindo que o público desviasse sua atenção para o desconhecido, o improvável. Já hoje em dia os filmes disputam o medo do infernauta através de produções que, ora retratam a ficção com efeitos especiais exageradamente digitais, ora apresentam a realidade quase “nua e crua“, contando detalhadamente os atos de psicopatas e assassinos em série. Assim, tipos cruéis como Ted Bundy e Ed Gein têm sua vida criminal contada em filmes que se diferenciam pela linguagem e narrativa, mas que se assemelham por sua essência doentia.

No final da década de 80, Paula Jackson (Polly Walker, de Fúria de Titãs, 2010), uma assistente social de uma pequena cidade canadense, começou a investigar por conta própria uma comunidade rural liderada por Roch (o expressivo Luc Picard), um homem que se denominava Moisés e prometia o Paraíso a oito mulheres – suas esposas – e uma porção de crianças. Após a morte de um bebê – vítima de hipotermia, após passar a madrugada ao relento para que parasse de chorar -, Paula descobre que o líder religioso havia fugido de uma condicional no Quebec e que tem o costume de maltratar suas esposas em nome de “Deus” e do “Amor“. À medida em que a investigação se aprofunda, novos crimes são revelados: as crianças que não são de sua linhagem são consideradas escravas, crucificadas e apedrejadas; ele tem o costume de chicotear, queimar e dilacerar as mulheres como forma de punição; faz sexo com e diante de crianças; realiza rituais com muita bebedeira, música e violência; entre outros absurdos. Não dá para não se incomodar diante do momento em que é exibido um vídeo com uma criança que age como um animal, comendo no chão e rosnando, ou quando uma menina descreve com inocência o abuso sexual de seu “pai“.

Assim como Ed Gein, Roch ainda assassina suas esposas e retira suas costelas para produzir colares e guardar lembranças de suas “amadas“. Seus assassinatos sempre são justificados através de cirurgias mal realizadas: Suzette (Julie La Rochelle) sente dores no estômago. Ele abre sua barriga e arranca um pedaço do seu intestino sem a menor higiene ou qualquer anestesia. Depois ele a deixa isolada, sofrendo com terríveis dores, enquanto aguarda sua morte lenta.

Todo esse horror real é apresentado sobre o formato simples de uma produção feita para a TV, sem exageros e de forma romanceada. Mesmo assim o diretor Mario Azzopardi (Hansel contra as Bruxas, 2012), com base no roteiro de Sharon Riis, tortura o espectador com o sofrimento das ingênuas vítimas do “ditador calculista“, ao passo que apresenta a angústia da personagem Paula diante de seu passado triste como uma esposa que constantemente apanhava do marido e ainda assim acreditava no amor que ele dizia ter por ela. Nesse momento, surge a principal indagação: amar é fazer sofrer?

Com as boas atuações de Polly Walker e Luc Picard, Messias do Mal – não o confunda com o longa de 1972 de Ken Russell, com título o mesmo título original – como um informe necessário, talvez com a proposta de orientar o público sobre a realidade dos falsos profetas. Como era de se imaginar, o longa é inspirado em fatos ocorridos na década de 80 no Canadá, com um verdadeiro Roch Thériault, encontrado morto em 2011. Mesmo com o cinema e a História servindo de base, com seus inúmeros incidentes, ainda existem enganadores que se aproveitam da fé para conseguir prestígio e seguidores. Produções assim ainda podem funcionar como uma cartilha ou soco no estômago, dependendo do modo como você vai digerir seu conteúdo.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Messias do Mal (2002)

  • 29/08/2020 em 19:20
    Permalink

    Uma nota, Marcelo
    A atriz Isabelle Cyr, que interpreta uma das vítimas do fanático, interpretou a personagem-título de O Mistério de Karmina, uma comédia de humor negro canadense lançada em 1996; um excelente filme de vampiros.

    Resposta

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