O Mal Nosso de Cada Dia (2020)

O Mal Nosso de Cada Dia
Original:The Devil at the Time
Ano:2020•País:EUA
Autor:Donald Ray Pollock•Editora: Darkside Books

O Mal, em sua essência humana, permeia toda a obra de Donald Ray Pollock. Ainda que seus personagens tenham uma conexão religiosa – e envolvimentos com doutrinas, orações e constância -, a natureza violenta pode ser identificada desde as primeiras linhas, quando já se percebe que muito sangue será derramado nas páginas que virão. É notado como a ingenuidade e crenças são exploradas, qual é o senso de justiça, de vingança, em meio a paisagens que atravessam a Virgínia ocidental e Ohio, através dos anos e das heranças adquiridas. Outro ponto que vale menção ao universo apresentado é a ausência de um protagonista, mas de figuras que irão se cruzar em coincidências narrativas mortais nos últimos capítulos.

A obra começa com o retorno do veterano de guerra Willard Russell, tendo na mente um episódio grotesco que envolveu a morte de um colega, esfolado vivo e crucificado. O resgate desse pensamento agressivo irá justificar suas ações, desde o momento que conquistara o coração da garçonete Charlotte e com que terá o pequeno Arvin. Enquanto sente que uma doença consome sua esposa, ele ergue nas proximidades da residência rural um altar, onde pendura vísceras e carcaças de animais mortos como sacrifício, acreditando que talvez possa ter suas preces atendidas. Em um desses momentos dedicados a Deus e que se intensificará até na disposição de sangue humano, ele nota a zombaria de dois caçadores passantes e se vinga no que ele chama de “espere o momento certo“. Esses ensinamentos do pai, além da vivência em uma morada com cruzes espalhadas, conduzirão o menino a ações vingativas, em situações oportunas.

Além dos Russell, a obra traz outros elementos que se tornarão importantes para os cruzamentos que ocorrerão. Depois que Willard se mata diante do filho, este busca ajuda do xerife do condado de Ross, Lee Bodecker, que tem em seu currículo algumas ações inescrupulosas. Ele é o irmão ciumento de Sandy, que namora o fotógrafo frustrado Carl Henderson, e forma uma dupla de serial killers que cruzam estradas em busca de “modelos“, caronistas que serão vítimas dos planos de roubo, perversão e morte. Em meio a isso, Pollock também apresenta ações de pastores insanos na corrupção da fé, seja em crenças absurdas como a capacidade de trazer pessoas dos mortos e soltar insetos durante as pregações, ou até mais horrorosas como a do pedófilo Preston Teagardin, que destroça a pureza das jovens da região.

Como se pode perceber, não há floreios na narrativa de O Mal Nosso de Cada Dia, obra que está chegando hoje à Netflix com o título O Diabo de Cada Dia. É uma obra fria, seca e perturbadora. Não há otimismo, nem heróis; não há elementos sobrenaturais, além dos próprios monstros que se camuflam em mentiras e posturas exemplares. Pollock fortalece seu enredo com poucas descrições e mais dinamismo, ainda que precise exagerar nos exemplos que justificam a natureza cruel de seus personagens. Mas, o mais assustador é saber que esses nada mais são do que espelhos de uma sociedade composta por pessoas doentes e de caráter duvidoso, como se, através das páginas bem organizadas da Darkside Books, estivéssemos apenas olhando o mundo através da janela de nossa casa.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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