Hunter Hunter (2020)

4.6
(15)

Hunter Hunter
Original:Hunter Hunter
Ano:2020•País:Canadá, EUA
Direção:Shawn Linden
Roteiro:Shawn Linden
Produção:Neil Elman, Juliette Hagopian, Shawn Linden
Elenco:Camille Sullivan, Summer H. Howell, Devon Sawa, Nick Stahl, Gabriel Daniels, Lauren Cochrane, Jade Michael, Erik Athavale, Karl Thordarson

Se The Dark and the Wicked explorou a desolação psicológica em decorrência de perdas e crenças, O Homem Invisível transformou-se em um espelho da violência sofrida pelas mulheres, Relic simbolizou a degradação progressiva de uma família que convive com a demência, Hunter Hunter se camuflou das camadas que revestem o caráter do Homem. São obras de intensidade narrativa e que foram os destaques de 2020, comprovando que o horror pode envolver reflexão e mensagens profundas. No caso específico do longa de Shawn Linden, além de suas metáforas sobre a pele e o lobo, você ainda encontra um enredo que se constrói sutilmente até seu último e impressionante ato.

Mersault (Devon Sawa. de Premonição, 2000) vive com a esposa Anne (Camille Sullivan) e a filha Renee (Summer H. Howell, de O Culto de Chucky, 2017) numa cabana na mata, como se estivessem no século XVIII. Com a renda baseada apenas na venda de pele de animais, sem perspectiva de evolução ou de uma boa vida a longo prazo – eles praticamente resistem na incerteza se terão algo para comer no dia seguinte -, a família só faz uso de walkie talkie como tecnologia, saindo diariamente à caça na região. Anne sonha com a possibilidade de ir embora dali, arrumar emprego e colocar a filha numa escola tradicional, vivendo em atrito constante com o marido, que pensa nessa ação como um retrocesso, a aceitação do fracasso.

Quando carcaças de animais deixam evidente que um lobo está agindo na região – provavelmente um velho conhecido -, Mersault sente que precisa caçá-lo o quanto antes, contando com o suporte da filha na preparação de armadilhas. Porém, durante a busca pelo animal, o pai encontra marcas nas árvores, levando-o a um cenário de tortura e morte. Há mais feras na região do que ele e a família pressupõe. Contar para os demais poderia alimentar o argumento da esposa sobre sair dali e despertar um medo crescente; caçar sozinho pode ser uma alternativa perigosa, mas talvez a única possível. Outros personagens se destacam como os policiais Barthes (Gabriel Daniels) e Lucy (Lauren Cochrane), cuja rotina se baseia em apenas retirar animais mortos das estradas e atender ao pedido de uma família que reclama de ursos na região, além do estranho Lou (Nick Stahl, o John Connor de O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, 2003).

Pode ser que Hunter Hunter lhe traga algum incômodo na última cena. Tudo o que acontece com a família conduz a uma perspectiva desastrosa, mas não tão gráfica quanto se imagina. É algo que até destoa da trama discreta e rural, com mortes offscreen e sem nenhuma gota de sangue – e é aí que está o grande impacto da obra. Aos poucos, as peles que escondem a verdadeira natureza começarão a cair e os cordeiros mostrarão que na verdade são lobos, criaturas que nem sempre matam para saciar a fome. Já o verdadeiro lobo funciona como o MacGuffin da narrativa, ou seja, algo que move os personagens e a trama, mas que não representa nada.

Contando com boas condução e atuações, principalmente de Camille Sullivan, Hunter Hunter promove emoções no espectador – algumas não tão agradáveis – e merece ser visto. De preferência, sem saber muito a respeito. E deixe se conduzir por um dos bons filmes que foram lançados em 2020.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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