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Representada como uma entidade invisível que conduz o Homem para o outro lado, a Morte sempre ocupou um lugar de destaque em várias culturas, principalmente no Cinema Fantástico. Nas cartas de Tarô, com o nome inglês Grim Reaper ou Anjo da Morte, ela aparece como uma figura esquelética que usa um manto e capuz negros, além de uma foice. A Ceifadora (como é conhecida, fazendo associação ao milho, símbolo da vida) foi diversas vezes retratada nos quadrinhos: em The Sandman, na Morte do Capitão Marvel e até mesmo como personagem frequente da Turma da Mônica. Nos cinemas, é impossível não lembrar de sua presença nos clássicos Vampyr (1932) e, principalmente, em O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, na partida de Xadrez entre o Cavaleiro Medieval – interpretado por Max von Sydow – e a Morte (Bengt Ekerot); essa cena foi bem satirizada no longa Bill e Ted – Dois Loucos no Tempo. Apareceu de forma bem-humorada com um manto branco em A Última Noite de Bóris Grushenko, de 1975, de Woody Allen, em Dogma, O Céu Pode Esperar, Os Fantasmas Contra-Atacam (1988) e nas animações Os Simpsons, The Family Guy, A Noiva Cadáver e O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton…até mesmo atormentou Francesco Dellamorte em Pelo Amor e Pela Morte e William Parrish (Anthony Hopkins) em Encontro Marcado – neste último sem suas caracterizações assustadoras. Sem deixar de citar os seriados Dead Like Me e Supernatural

Ainda que sua forma macabra produza arrepios, até mesmo quando não aparece ela consegue causar um desconforto naqueles que apenas sentem sua presença. Imagina o quanto pode ser terrível saber que existe uma figura invisível acompanhando seus passos e esperando o momento exato para levá-lo do plano físico! Será que a Morte possui mesmo planos e que todas as pessoas já têm seu destino traçado? Como explicar aquelas histórias envolvendo pessoas que sobreviveram a acidentes, mas foram vítimas de outras situações fatais? Talvez seja a Morte corrigindo alguma possível falha cometida…

Homem sobrevive a acidente mas morre ao ser eletrocutado (16/08/2011)

Bancário sobrevive a acidente, mas morre atropelado (04/10/2009)

Italiana escapou do voo 447 mas morreu em acidente de carro na Áustria (11/06/2009)

Homem sobrevive a acidente automóvel mas morre picado por abelhas (27/06/2006)

As primeiras premonições…

Em 2000, quando a franquia Pânico já exibia seu terceiro capítulo e várias produções seguiam os seus moldes estabelecidos (assassino mascarado, jovens, final surpresa…), um longa surgia na contramão tentando mostrar algo novo para o estilo desgastado. A ideia básica ainda era a mesma: jovens sendo assassinados de forma criativa, seguindo a ordem de importância na produção! No entanto, Premonição (Final Destination) traria um assassino praticamente impossível de ser combatido por sua condição sobrenatural, sem controle. Com um orçamento estimado em 23 milhões, arrecadou mais de 53 e estimulou a realização de continuações que até mesmo a Morte seria capaz de duvidar.

Para falar a verdade, o longa tinha tudo para ser mais uma cópia de Pânico até mesmo pela sua intenção inicial. Glen Morgan e James Wong chegaram a admitir na época de sua realização que Premonição teria, sim, um vilão com presença física, mas a ideia acabou sendo abandonada durante as filmagens. Tal possibilidade pode ser confirmada pela presença da Morte em várias cenas do filme, aparecendo como uma mancha negra que se aproxima de suas vítimas antes do acidente proposital.

O projeto surgiu de um conceito duplo: relacionar aquelas notícias sobre pessoas que sobreviveram a acidentes e morreram de forma banal dias depois com o estilo que estava fazendo sucesso na época. A maioria das historias envolvendo sobreviventes está relacionada a acidentes aéreos, com pessoas que desistiram de viajar, trocaram de lugar ou simplesmente perderam o voo. E é exatamente esse o argumento de Premonição: na trilha de John Denver (que morreu numa queda de avião), Rocky Mountain High, um grupo de estudantes se prepara para uma viagem à Paris com seus professores até serem retirados do avião depois que um deles (Devon Sawa, de A Mão Assassina, 1999, Devil’s Den, 2006;  Creature of Darkness, 2009) teve uma visão de um acidente fatal, com explosão e a morte de todos. A cena foi muito bem realizada, perdendo apenas para a queda do avião da série Lost, vendida primeiramente como um verdadeiro relato.

Dentre os destaques, pode-se apontar algumas mortes interessantes como a do rapaz (Chad Donella, de Jogos Mortais – O Final) estrangulado pela mangueira do chuveiro, a decapitação causada por um metal arremessado pelo trem, o atropelamento do ônibus e a morte da professora (Kristen Cloke, de A Vingança de Willard, 2003, e Natal Negro, 2006), envolvendo utensílios domésticos, culminando com uma explosão. Também foi boa ideia do roteiro trazer para o protagonista pistas sobre a morte de seus amigos, e fazendo os acidentes acontecerem na ordem em que as vítimas morreriam no avião, como se a própria Morte estivesse realmente se divertindo com as tragédias.

Três anos depois, em junho de 2003, seria lançado nos cinemas brasileiros Premonição 2. Foram gastos 26 milhões para uma arrecadação de apenas 46 nos Estados Unidos, o suficiente para se considerar um filme lucrativo. Desta vez, a Morte estaria na mente de uma jovem, Kimberly Corman (A.J. Cook, de Dominados pelo Ódio), que veria uma tragédia numa estrada e evitaria que vários desconhecidos fossem mortos num terrível engavetamento. Aliás, a cena é incrível, sendo elogiada até mesmo pelo cineasta Quentin Tarantino como uma retratação quase perfeita de um acidente.

Partindo para o sarcasmo, o filme de David R. Ellis trouxe mortes bem elaboradas como a do rapaz que tem o olho varado pela escada-móvel do edifício em que morava, o cano atravessando o crânio de uma garota, a decapitação no elevador e o rapaz que é fatiado por uma cerca. Há neste o retorno do personagem de Ali Larter (da franquia Resident Evil) como forma de orientação para os acidentes futuros. Devon Sawa não pode retornar nesta continuação devido a problemas contratuais, então seu personagem teve um final, no mínimo, besta: segundo os jornais, morreu depois que um tijolo caiu sobre sua cabeça.

No novo jogo da Morte, as vítimas sofrem acidentes que seguem a ordem contrária da tragédia na estrada. E aqui, o único jeito de evitar o seu destino fatal é trocar por uma vida nova, interpretado primeiramente como evitando que a grávida morra. Diferente do primeiro, a heroína aqui tem várias premonições para ajudá-la a evitar as mortes e não apenas pistas. Assim, chega a cansar o exagero de repetições da cena do carro caindo no lago, e a enfermeira que pode estar envolvida com a morte da grávida.

Assim como no primeiro, em que os sobrenomes dos personagens homenageavam cineastas de produções de terror em preto-e-branco – Schreck, Browning, Hitchcock, Chaney, etc -, na continuação, Kimberly Corman faz uma referência ao diretor e produtor Roger Corman. A brincadeira continuaria nos filmes seguintes, com homenagens a Herschell Gordon Lewis, George A. Romero, Benjamin Christensen, entre outros. Há inúmeras outras referências, seja para a produção anterior, seja para prever a morte de um personagem, como a letra que cai da geladeira e forma a palavra Eye antes de Evans ser empalado pela escada.

Logo depois da estreia do segundo filme, já entrava em pré-produção um Premonição 3. No entanto, foi apenas em 2006, no dia 7 de julho, que o longa chegaria aos cinemas brasileiros. O orçamento aumentou ainda mais – 36 milhões – para uma arrecadação positiva de 54. Novamente sob a direção de James Wong, Premonição 3 teve o ponto de partida em um acidente ainda mais ousado: uma jovem, Wendy Christensen (Mary Elizabeth Winstead, de Natal Negro, 2006, À Prova de Morte, 2007, Scott Pilgrim Contra o Mundo, 2010, A Coisa, 2011) consegue salvar seus amigos de uma montanha russa descontrolada.

Após a cena clássica do velório – que só não aparece no segundo filme -, um a um passa ser vítima da Morte, que apela para todos os lados: mata duas gatas numa sessão de bronzeamento, estoura a cabeça de outro na academia, empala um rapaz no parque, prega uma jovem numa fábrica…e tem uma sequência final eletrizante, que poderia ser o pontapé inicial para um quarto filme.

Premonição 3 faz uma referência ao clássico A Profecia, ao trazer fotos que revelam como seus amigos irão morrer. Novamente, a Morte volta para buscar na ordem dos acontecimentos, fazendo com que o único meio de evitar seja salvando a própria pele. Curiosamente, o DVD do filme traz a divertida possibilidade de evitar que as vítimas morram, escolhendo o seu destino.

Considerado o mais fraco da franquia, Premonição 4, lançado em 2009, custou 43 milhões e arrecadou cerca de 66 – o valor alto se deve ao fato do filme ter sido lançado em formato 3D. Com direção de David R. Ellis, um rapaz, Nick O’Bannon (Bobby Campo, de Seance, 2011), vê uma tragédia numa corrida de carros e evita que um grupo de pessoas morra nas arquibancadas.

Eles enfrentam seu destino, desta vez em cenas pouco inspiradas. Há dois atropelamentos – repetição do primeiro filme -, uma explosão no cinema, um rapaz arrastado por um veículo, uma pedrada no olho, uma morte na piscina…há alguns bons momentos, como o pneu que atinge uma jovem e a cena no lava-rápido, mas não foram suficientes para evitar que o filme tivesse uma avaliação pouco favorável. Apesar disso, logo foi dado o pontapé para uma quinta parte, novamente em 3D. Pelo visto, a Morte não tem descanso…

A Última Premonição?

Sam Lawton (Nicholas D’Agosto, de Heroes) e um grupo de trabalhadores da empresa de papel Presage (sim, presságio) estão num ônibus rumo a um retiro corporativo de dois dias. Com o rapaz, está a namorada Molly Harper (Emma Bell, de The Walking Dead), o amigo Peter Friedkin (Miles Fisher, de Super-Herói: O Filme) e a namorada Candice Hooper (Ellen Wroe), além dos colegas Olivia Castle (Jacqueline MacInnes Wood, de Nightmare at the End of the Hall), Isaac (P.J. Byrne, de Quero Matar Meu Chefe), Nathan (Arlen Escarpeta, de Sexta-Feira 13) e o chefe, Dennis (David Koechner, de Piranha 3DD). O passeio é interrompido numa ponte, em obras, quando uma série de eventos extraordinários fazem com que eles tenham que lutar pela vida: um forte vento abala as estruturas e lentamente a ponte começa a se desfazer, ocasionando mortes sangrentas e bem realizadas em quatro minutos de desespero. Numa sequência de tirar o fôlego, realizada com incríveis efeitos em 3D (antes só vistos adequadamente no gênero em Dia dos Namorados Macabro), o grupo tenta sobreviver, enquanto são vítimas das correntes de suspensão da ponte, da queda de veículos ou com o derramar de piche sobre o corpo.

Após evitar uma tragédia maior, Sam é interrogado pelo Agente Jim Block (Courtney B. Vance) e tenta reiniciar sua relação com Molly, ao passo que os sobreviventes passam a se tornar vítimas da Morte em lugares inusitados como no treino de uma ginasta, numa sessão de massoterapia e até numa cirurgia a laser. A compreensão de que os novos acidentes não são coincidência acontece nas palavras do sinistro William Bludworth (Tony Todd), que traz as regras para sobreviver aos ataques: é preciso matar alguém para conseguir ficar com o resto de seus anos de vida.

Aliás, antes de prosseguir, há tempo para umas informações curiosas sobre a carreira fantástica de Tony Todd. Nascido em dezembro de 1954, em Washington, o ator, que estreou nas telas em 1986, seria marcado no gênero com seu vilão Candyman na trilogia iniciada em 1991. Dono de uma voz gutural, em seu currículo cinematográfico podem ser encontrados filmes como o clássico da guerra, Platoon (1986), As Cores da Violência (1988), A Noite dos Mortos-Vivos, excelente remake de 1990, O Mestre Dos Desejos (1997) e Shadowbuilder – O Senhor das Sombras, de 1998. Premonição também marcaria a carreira do ator, tendo sua participação nos demais filmes, excluindo Premonição 4. Ele também faria O Espantalho e Murder-Set-Pieces (de 2004), The Prophecy: Forsaken (2005), Terror no PântanoShadow: Dead Riot e Minotauro (todos em 2006), Dark Assassin e Shadow Puppets (de 2007), Dark Reel (2008), Are You Scared 2PenanceVampire in Vegas The Graves (2009), Terror no Pântano 2 (2010) e muitas outras participações até mesmo em séries como Angel e Masters of Horror, mostrando o quanto o ator pode entrar facilmente para a galeria dos nomes do gênero fantástico moderno.

Assim, enquanto tentam evitar seu destino trágico, surge um dilema moral para os sobreviventes da tragédia da ponte: por que você merece viver e não aquela pessoa? Não adianta tentar evitar a tragédia se você não souber cometer uma, tornando o quinto filme numa luta pela sobrevivência capaz de gerar assassinos e cenas de tensão. Um conceito interessante surgido na mente do roteirista Eric Heisserer (A Hora do Pesadelo, 2010, e Enigma de Outro Mundo, 2011), que ainda surpreende o espectador num belíssimo final-surpresa que encerra o quinto filme de maneira satisfatória.

Outro ponto positivo para a produção é o retorno do humor ácido, do sarcasmo, da morte exageradamente divertida, visto antes no segundo filme. Como o público tem consciência de que se trata de um filme de terror, com seus absurdos e momentos insanos, Premonição 5 veste a camisa que o designa como produção-pipoca, com momentos de puro entretenimento, cabíveis graças aos recursos dos efeitos tridimensionais e à direção eficiente do estreante Steven Quale, parceiro de longa data de James Cameron, tendo trabalhado como diretor de segunda unidade de Titanic (1997) e Avatar (2009), além de supervisor de efeitos em O Segredo do Abismo (1989), O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991) e True Lies (1994). Quale consegue a proeza de transportar o espectador para uma queda livre de uma ponte como se estivesse descendo uma montanha russa, e também realizar uma ótima sequência nos minutos finais.

Provavelmente, os chatos irão dizer que o filme é apenas um amontoado de mortes sem sentido, clichês do estilo e cenas apelativas. Esses mesmos – que veneram Sexta-Feira 13, sem pensar que ele traz as mesmas peças – talvez não percebam que Premonição 5 não veio para disputar o Oscar ou encerrar a franquia O Poderoso Chefão; seu objetivo é entreter, fazer o público se divertir com mortes bem encenadas, ficar arrepiado com um parafuso que escapa ou tenso durante uma sessão de acupuntura. E esse objetivo é alcançado quando o espectador se vê saindo da sessão com um sorriso no rosto, principalmente depois do clipe que traz cenas das melhores mortes de todos os filmes da série em 3D.

Será que ainda restam argumentos para a Morte agir novamente? É bem provável, já que o ser humano é frágil, decompõe-se facilmente e está sempre tentando enganá-la mesmo que tenha que pisar sobre o outro. Na verdade, nada mais é do que apenas poeira ao vento…

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7 Comentários

  1. O problema é que depois do primeiro filme quase todas as mortes ficaram elaboradas demais, o que cansa um pouco. Cai um negócio aqui, derruba outro ali e puxa não sei o quê…

    O acidente na estrada, o da montanha-russa, as meninas se bronzeando e a morte da ginasta foram os mais interessantes a partir do segundo filme.

  2. Só o 4° foi desnecessário!

    A cena do salão de cabeleireiro deveria ter sido melhor aproveitada, pois consegue te prender, daí ela saí e morre com uma pedrada! :/

  3. Quando eu assisti o primeiro filme ainda criança ele me deixou com muito medo de sair na rua…
    Eu gosto de todos os filmes, mas realmente o quarto é o pior. Acho que com o quinto filme eles poderiam encerrar a franquia bem, um novo filme só iri repetir tudo de novo, a não ser que tivessem uma ideia muito boa, como aquela de levar a história para a era medieval.

  4. ótimo artigo Marcelinho,tbm acho essa franquia melhor e mais divertida que sexta feira 13,apesar de gostar muito dela tbm,massa 🙂

  5. Que bela e merecida homenagem à série Premonição que eu tanto amo! Meus filmes favoritos são todos os números impares: 1, 3 e 5. Mas adoro o acidente inicial e as mortes do segundo, apesar de achar a história e as atuações muito fracas. O quatro definitivamente é o mais fraquinho mesmo.

  6. Marcelo gostei pra caramba do seu texto. Cara há muito tempo não me divertia tanto lendo um texto sobre filme de terror sem conta que trata da franquia que eu gosto Final Destination ou Premonição.

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