Ninguém Sai Vivo (2021)

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Ninguém Sai Vivo
Original:No One Gets Out Alive
Ano:2021•País:EUA
Direção:Santiago Menghini
Roteiro:Jon Croker, Fernanda Coppel
Produção:Jonathan Cavendish, Will Tennant
Elenco:Cristina Rodlo, Marc Menchaca, David Barrera, Alejandro Akara, David Figlioli.

A vida anda bem complicada para Ambar. Ilegalmente nos Estados Unidos, ela encara as mais diferentes adversidades na busca pelo tão cobiçado american dream. Uma delas é sobreviver em um ambiente de trabalho extremamente hostil, suportando as humilhações do chefe que lhe expõe a situações constrangedoras. Ainda assim lhe restam esperanças, pois traçou um plano que consiste em trabalhar incansavelmente e economizar para comprar uma identidade falsa – e então se candidatar a um emprego mais digno oferecido por um tio distante que nem desconfia que ela não nasceu em solo americano. Contudo, para somar o valor necessário, a jovem se vê obrigada a alugar um dormitório barato numa espécie de pensão decadente “somente para mulheres”. Lugar dirigido por um cidadão que só não é mais suspeito que o próprio imóvel. E como nas leis que regem o universo ficcional dos filmes de terror, nada é tão ruim que não possa piorar e o que pode dar errado fatalmente acontece – além de ser enganada e roubada pela melhor amiga, Ambar perde o emprego após um pequeno desentendimento com seu supervisor. A alternativa que lhe sobra é pedir a devolução de um depósito entregue como seguro ao senhorio do recém-alugado quarto. É claro que receber o dinheiro e manter a sanidade, mesmo que por mais algumas horas, vai se revelar uma experiência mortal e inimaginável.

Produção da Netflix lançada em outubro de 2021, Ninguém Sai Vivo é o longa de estreia do cineasta canadense Santiago Menghini. A proposta inicial da obra – misturar o drama da imigração ilegal com elementos de horror – não é exatamente original, já que na própria plataforma é possível encontrar uma opção de maior peso, o ótimo O Que Ficou Para Trás (2020). Mas o resultado alcançado por Santiago, ainda que irregular, é interessante e divertido em determinados momentos – destacando-se principalmente a qualidade técnica e ignorando o abuso de determinados clichês – como os ruídos clássicos, os vultos imóveis paralisados nos cantos dos cômodos ou as luzes piscando pouco antes de qualquer manifestação sobrenatural.

A fotografia (que explora tons frios em azul e verde nas cenas mais dramáticas e amarelo nas cenas de horror), a ambientação (com cenários claustrofóbicos, sujos e embolorados) e os efeitos visuais também merecem reconhecimento. Mesmo que haja algum deslize pontual nos CGIs, o visual “cósmico” da criatura impressiona, inclusive por sua originalidade. O impacto causado pela cena de seu primeiro aparecimento é certamente o momento mais memorável de Ninguém Sai Vivo – e pode render alguns pesadelos aos espectadores mais sensíveis.

O roteiro de Ninguém Sai Vivo, escrito por Jon Croker e Fernanda Coppel, é baseado no livro homônimo (um reconhecido best seller segundo o trailer, mas que curiosamente continua inédito por aqui) do britânico Adam Nevill. O autor já havia sido adaptado em outra produção da Netflix, O Ritual de 2017. Talvez a trama seja o ponto mais controverso da produção, uma vez que apresenta um conceito inicial promissor, mas que é desenvolvido de maneira bem confusa e pouco coesa. Inclusive a explicação do clímax e a conclusão estão abertas a interpretações, deixando certas pontas soltas. Não que ser uma obra aberta seja um problema ou uma falha, o fato é que em Ninguém Sai Vivo este quebra-cabeça parece ser concebido de forma involuntária.

A trama se divide em dois atos distintos: o primeiro, em ritmo mais lento, explora basicamente os tormentos e sacrifícios de Ambar como uma imigrante ilegal, além de explicar o passado da protagonista em relação à doença terminal da mãe. É no próximo ato, quando a jovem se torna prisioneira, que o suspense e horror são finalmente construídos.

No entanto, o que é inquestionável é a interpretação extremamente carismática da atriz mexicana Cristina Rodlo (guardem este nome). Sua performance é tão convincente que o espectador compartilha do seu desespero, apesar de algumas atitudes absurdas propostas pelo roteiro. Ou seja, o destino da personagem passa a importar, e muito. Sem entregar aqui nenhum spoiler importante, é este apreço que acaba tornando o desfecho em partes bem decepcionante.

Além da protagonista ser um acerto, igualmente é positiva a construção dos vilões, tanto os donos da pensão, quanto a própria criatura já citada, cujo visual remete aos demônios ancestrais de Lovecraft. Já a dupla de vilões humanos, interpretados pelo ótimo Marc Menchaca (das séries Ozark e The Sinner) e pelo grandalhão David Figlioli, chamam atenção pelo respeito que impõem, seja pelo físico ou pelo comportamento.

Reforçando que a crítica social que o filme traz emaranhada ao horror, em relação à xenofobia e o preconceito aos imigrantes ilegais, sempre será um tema bem-vindo, já que é uma discussão atual e necessária. Para a audiência tupiniquim há um pequeno “brinde”: a primeira vítima, que morre antes dos créditos, é uma imigrante brasileira e está falando ao telefone em português.

(Confissão: para este autor que prefere assistir as produções legendadas, a sequência anterior funcionou como uma espécie de pegadinha, pois rapidamente tentei alterar o idioma do áudio, imaginando que o filme estava configurado “sem querer” para dublado.)

Aqueles que gostam de maior violência e gore sairão parcialmente satisfeitos, já que temos algumas sequências mais hardcore, ainda que estilizadas, como uma fratura exposta, um dente arrancado e algumas decapitações – tudo razoavelmente convincente e sem exageros.

Enfim, entre mortos e feridos, o espectador sobrevive a experiência proposta por Santiago Menghini, mas com uma sensação incômoda de que, apesar de parcialmente divertido, Ninguém Sai Vivo desperdiça um bom elenco e ideias relevantes em uma execução quase eficiente.

(o trecho abaixo apresenta Spoilers)

Mas afinal, o que é a tal criatura?

A entidade, chamada Black Maggie no romance Adam Nevill, é representada como uma deusa asteca na produção da Netflix. Mas para entendermos melhor as características e os detalhes deste personagem, precisamos amarrar diversas informações distribuídas durante o longa.

A primeira pista é dada na introdução de Ninguém Sai Vivo, antes mesmo dos créditos iniciais. Nesta cena vemos filmagens datadas de 1963 que mostram uma expedição arqueológica encontrando as ruínas de um templo no México. Escavando o seu interior, a equipe se depara com uma caixa de pedra rodeada por esqueletos sem o crânio. Enquanto as relíquias arqueológicas são recolhidas, podemos notar, além do cenário bizarro cercado por restos humanos acorrentados, uma dezena de mariposas acompanhando toda a ação.

Mais adiante há um diálogo complementar bem didático na ocasião em que a protagonista questiona Red a respeito dos motivos que ele teria para matá-la. Red explica que os irmãos voltaram para casa no momento em que Becker ficou doente. Precisando de ajuda para pagar as despesas médicas, eles procuraram o pai – Professor Arthur Welles que, por dedução, trouxe a descoberta desenterrada no México para seu porão. Mas acabaram descobrindo uma verdade terrível: ele estava envolvido no sumiço de várias garotas que seriam ofertadas para a criatura que “habita” a caixa. Quando percebem que a mãe também foi sacrificada, os irmãos se livram do próprio pai, fazendo “um favor ao mundo”. Red conta que quis ir embora imediatamente da casa, mas foi convencido pelo irmão a reformar o imóvel. Contudo, assim como o patriarca, Becker sentiu uma conexão com a caixa de pedra. Em pouco tempo ele estava oferecendo garotas, enquanto milagrosamente sua saúde começava a melhorar. Obviamente as vítimas mais fáceis eram imigrantes ilegais, já que não teriam sua falta notada imediatamente.

Vale destacar uma outra sequência anterior em que Ambar invade o escritório dos Welles. Lá ela escuta parte de um áudio que explicaria como seria realizado o ritual de sacrifício humano, onde deveriam ser oferecidos principalmente idosos, mulheres e crianças. Em troca, bençãos seriam concedidas. Ainda sobre a mesa, ela encontra um livro chamado “Primeiros Rituais da Mesoamérica”. Em uma das páginas da obra há a descrição de uma deusa ancestral chamada Itzpapalotl – por dedução, a entidade do filme. Interessante que o personagem é uma adaptação dos roteiristas para uma deusa que realmente pertence a mitologia asteca e originalmente teria a aparência de esqueleto e governaria um mundo paradisíaco chamado Tomoachan. O nome Itzpapalotl significa algo como mariposa com asas de obsidiana.

Ou seja, a mitologia imaginada em torno da releitura de um personagem que já é rico em detalhes e em sua composição pode ser uma aposta promissora para outras continuações que, quem sabe, funcionem melhor em sua coerência narrativa.

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João Pires Neto

Apenas mais um rapaz latino americano vindo do interior. Ateu não praticante, vegetariano, viciado em Literatura, Rock and Roll e Cinema. Antifascista, antiespecista, feminista e pai de uma menina linda, de 3 cachorros e 1 gata preta. Formado em Letras e Literatura. Colaborador desde 2005.

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