O Menino Atrás da Porta (2020)

4.8
(4)

O Menino Atrás da Porta
Original:The Boy Behind the Door
Ano:2020•País:EUA
Direção:David Charbonier, Justin Powell
Roteiro:David Charbonier, Justin Powell
Produção:Jim Hart, John Hermann, Ryan Lewis, Rick Rosenthal, Ryan Scaringe
Elenco:Lonnie Chavis, Ezra Dewey, Kristin Bauer van Straten, Micah Hauptman, Scott Michael Foster, Rich Ceraulo Ko

Existe algo que incomoda em O Menino Atrás da Porta (The Boy Behind the Door, 2020) que vai além de sua proposta. Tanto o trailer quanto a própria sinopse fornecida no IMDB dão ao filme uma condição até curiosa por basicamente já apresentar um possível plot twist: um dos garotos raptados conseguirá escapar de seus algozes, mas retornará para ajudar seu companheiro. Um conceito que permite transparecer a tensão que irá envolver a missão ingrata do herói por acidente, talvez flertando com o longa As Criaturas Atrás das Paredes ou até mesmo Esqueceram de Mim. O que incomoda é que o longa é exatamente isso que você imagina, sem margem para criatividade e ousadia.

À exceção do primeiros acordes, o longa se passa inteiramente em uma ambientação rural. Dois garotos, Bobby (Lonnie Chavis) e Kevin (Ezra Dewey), amigos inseparáveis com promessas piegas de que a união perdurará para todo sempre, são sequestrados. Depois que Kevin é retirado do porta-malas do veículo, Bobby, em um esforço hercúleo, consegue se libertar. Mas o grito do amigo o leva a uma ação insana de invadir a moradia em uma tentativa improvável de salvamento – poderia buscar o apoio de vizinhos, encontrar meios de pedir ajuda, porém essa é a primeira de suas atitudes estúpidas e que poderia resultar em um fim trágico para a dupla. Bobby então parte em sua jornada de combate, ainda sem saber quais as intenções dos inimigos.

Antes de ele descobrir – e o infernauta também, em uma mensagem que serve de alerta para uma situação bastante comum e que merecia uma atenção maior -, pode ser que você caia na armadilha de supor ideias mais profundas. Falas como “Não vamos deixar que eles venham“, por exemplo, e que se misturam ao filme que é exibido na TV, podem trazer a expectativa de um Rua Cloverfield 10, imaginando que os sequestradores na verdade possam estar salvando-os de uma ameaça externa. A ameaça existe, mas os monstros estão ali mesmo. Pode ser que eles até consigam enfrentá-los, desde que aproveitem as oportunidades que surgem a todo momento.

Tudo bem que são crianças, mas precisavam agir tão ingenuamente? Seja na oportunidade de telefonema (tudo bem que eles não conhecem telefone antigo, com discagem, mas ignorar o pedido da telefonista de manter o aparelho ligado?) ou na luta para tirar uma faca da parede, Bobby parece preferir os caminhos mais complicados. Não é culpa dele, claro, até porque a atuação de Lonnie Chavis é fantástica. Trata-se do argumento proposto pelos diretores David Charbonier e Justin Powell, embebido em clichês e ideias que não fazem sentido. Até mesmo toda a sequência em que ele se livra rapidamente de um corpo adulto e ainda faz uma incrível limpeza em menos de um minuto expõe exageros e inverossimilhança. E os lugares-comuns do enredo como o do policial que dá a impressão que irá salvar o dia, mas só estará ali para aumentará o número de corpos, ou o apoio inesperado de um personagem que parecia inerte.

No entanto, não há só percalços. Há momentos de tensão e uma interessante visão infantil de toda a situação ao qual os garotos se envolvem. A simples ideia de esconder o rosto dos sequestradores durante boa parte do filme, criar uma expectativa de um dos meninos saber dirigir e tentar surpreender pela maldade aparente denotam esse mundo de amizade na tenra idade destruído por uma realidade doente. Imagina-se, inclusive, que o episódio poderia despertar um amadurecimento prematuro e camuflar as fragilidades. E vale menção a belíssima recriação de uma cena do clássico O Iluminado, até mesmo no posicionamento das câmeras e quote.

Propondo o básico e entregando exatamente o que se espera, O Menino Atrás da Porta promove um bom suspense psicológico, traz um curioso jogo de gato e rato e permite reflexões sobre a natureza da verdadeira amizade mesmo diante de um submundo triste e cruel.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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