The Deep House (2021)

4.3
(3)

The Deep House
Original:The Deep House
Ano:2021•País:França, Bélgica
Direção:Alexandre Bustillo, Julien Maury
Roteiro:Alexandre Bustillo, Julien Maury, Julien David
Produção:Frédéric Fiore, Jean-Charles Levy, Clément Miserez, Eric Tavitian, Matthieu Warter
Elenco:Camille Rowe, James Jagger, Eric Savin, Alexis Servaes, Anne Claessens, Carolina Massey, Marie Caffier, Marie Bernard

Em um universo fantasmagórico de assombrações perdidas em moradas decrépitas, não sobra quase espaço para a criatividade. Basicamente já houve a exploração de ambientes onde aconteceram mortes trágicas, caminhadas por corredores escuros, e mistérios que se revelam pela insistência na busca de informações sobre o passado, depois da ocorrência de incidentes estranhos para os novos moradores. Depois de visitar casarões malditos, mansão góticas, orfanatos, hospitais e hospícios abandonados, hotéis com registros de tragédias, escolas e apartamentos sinistros…parece que não existe lugar que você não tenha visto antes nesse subgênero construído em mais de cem anos da História do Cinema. Talvez por isso que uma proposta como a The Deep House mereça sua atenção, principalmente pela localização absurda da casa assombrada da vez.

Não que ambientes submersos já não tenham servido para habitar fantasmas. Há, inclusive, um belo exemplar lançado em 2002 com o título apropriado Submersos (Below), dirigido por David Twohy, que aborda um submarino-fantasma, além de outras produções que trouxeram embarcações e até instalações no fundo do mar. Porém, o que chama a atenção em The Deep House é que, como o título original anuncia, trata-se de uma casa assombrada submersa, um local cujo acesso já é prejudicado pela necessidade de um mergulho profundo. Quem seriam os doidos capazes de uma aventura nessas condições? A francesa Tina (Camille Rowe) e o inglês Ben (James Jagger) estão acostumados com excursões similares, registradas em vídeo para fins de diversão, views e publicidade.

Já no prólogo, eles estão visitando um ambiente assombrado, sem que nada de especial aconteça. Em visita à Europa, mais precisamente no sudoeste da França, eles conhecem um vilarejo meio morto e uma região repleta de turistas aproveitando o calor. Decepcionados por não estarem em um local ermo, eles são orientados por um residente, Pierre (Eric Savin), sobre a existência de um lago artificial escondido, próximo à floresta de Chanteloup, onde há uma casa submersa mantida em perfeitas condições. O espírito de aventura e o desejo de sucesso pelas visualizações no youtube conduzem a dupla ao fundo, com instrumentos de mergulho, um drone aquático e oxigênio para apenas uma hora de exploração.

Eles chegam à casa, realmente em aspectos visualmente impressionantes. Embora protegida, o casal consegue entrar e passear pelos ambientes onde as mobílias se mostram bem conservadas (não se entende porque porta-retratos e objetos de mesa simplesmente não boiam) e aos poucos deixam evidências dos antigos moradores. Sons estranhos e vozes – ora, por que não, né? -, símbolos satânicos, recortes que relatam desaparecimentos, e a captação de movimento do drone começam a deixá-los assustados, mas não ao ponto de fazê-los desistir da exploração. No entanto, ao adentrar um recinto protegido por uma cruz enorme, eles conhecem o terror que envolve cadáveres em movimento e possessão. Obviamente que a casa não permitirá que eles a deixem tão facilmente.

Até encontrar a casa e conhecer o ambiente, The Deep House se mostrava eficiente em despertar a curiosidade e arrepios do espectador. Mas, a partir de então, os velhos clichês são trazidos à tona (sem trocadilhos), assim como furos no roteiro de Alexandre Bustillo, Julien David e Julien Maury. Bustillo e Maury, para quem já é íntimo do gênero, são lembrados pela boa filmografia, composta de filmes como A Invasora, Livide e Aux yeux des vivants, apesar de ter também Massacre no Texas (Leatherface) pelo caminho. Pela premissa, esperava-se algo não tão trivial e com soluções fáceis como é visto na segunda metade de The Deep House. Um peixe que aparece dentro da casa, mesmo depois que o rapaz ter notado que eles não circulam a moradia (algo já visto em outras produções com pássaros e insetos), por exemplo, evidencia uma falta de trato no argumento final.

Mas nada será pior e mais irritante que a sequência em que um dos personagens é possuído, somente para contar a história da casa e projetar em Super 8 (!!!) para o outro algo que aconteceu no passado. Sem espaço para a imaginação, o roteiro deixa tudo de maneira fácil, sendo que as informações vistas na exploração da dupla já poderia permitir a construção do quebra-cabeça. Quando tudo parece perdido, a obra ainda deixa um rastro de esperança, uma oportunidade que não existia, mas está lá apenas para que o público torça pelo final feliz. Ao se recordar do final aterrador de A Invasora, a busca por um sinal de ousadia se mostra extremamente falho.

Compensa a visita, os calafrios propostos pelos dois residentes da morada, presos em um local específico e que remetem ao longa Mistério no Lago, mas não vai além de pequenos estalos de ideias mal exploradas em um enredo – desculpe o trocadilho – não tão profundo.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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