Morte Sobre o Nilo (1978)

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Morte sobre o Nilo
Original:Death on the Nile
Ano:1978•País:UK
Direção:John Guillermin
Roteiro:Anthony Shaffer, Agatha Christie
Produção:John Brabourne, Richard Goodwin
Elenco:Peter Ustinov, Mia Farrow, Simon MacCorkindale, Jane Birkin, Lois Chiles, Bette Davis, Jon Finch, Olivia Hussey, I.S. Johar, George Kennedy, Angela Lansbury, David Niven, Maggie Smith, Jack Warden

Hercule Poirot está de volta em mais um mistério de assassinato em um ambiente claustrofóbico no clássico Morte Sobre o Nilo (Death on the Nile, 1978), lançado quatro anos após o sucesso de O Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 1974), de Sidney Lumet. Desta vez, o famoso detetive belga teve a interpretação de Peter Ustinov, que depois ainda faria mais uma série de filmes inspirados em Agatha Christie (1890–1976), muitos para a TV, encerrando sua atuação com o personagem em Encontro Marcado com a Morte (Appointment with Death, 1988) – Albert Finney, que esteve no anterior e recebeu indicação ao Oscar, além do elogio da autora, não quis participar do filme porque não iria se sentir bem com a pesada maquiagem no sol do Egito.

A cadeira de diretor foi assumida pelo experiente John Guillermin, que era bem cotado na época pela realização de dois blockbusters, Inferno na Torre (The Towering Inferno, 1974) e King Kong (1976), e estava determinado, pela expansão da produtora EMI Films, a dar um caráter inglês à obra, o que permitiu que o longa fosse extremamente bem recebido no Reino Unido e um pouco menos na América do Norte. Apesar dessa caracterização, o elenco é muito bem mesclado por atores americanos e ingleses, com grande destaque para as atuações de Bette Davis (O que Terá Acontecido a Baby Jane? e Mansão Macabra), Angela Lansbury (que depois atuaria como Sra.Marple em outra adaptação da escritora, A Maldição do Espelho) e Mia Farrow (de O Bebê de Rosemary e A Rosa Púrpura do Cairo). Também merecem menção Jane Birkin (de Assassinato num Dia de Sol, também de Agatha Christie), Lois Chiles e George Kennedy (ambos de Creepshow 2: Show de Horrores), Jon Finch (Frenesi), Simon MacCorkindale (Tubarão 3), Maggie Smith (Assassinato em Gosford Park) e Jack Warden (O Céu Pode Esperar e a franquia O Pestinha).

Com roteiro de Anthony Shaffer (Frenesi, O Homem de Palha, e, além deste, desenvolveu o argumento de outras três adaptação de Christie), com inspiração no livro Death on the Nile, lançado em 1937, a obra começa com Jacqueline “Jackie” De Bellefort (Farrow) apresentando à sua rica amiga Linnet Ridgeway (Chiles) o noivo Simon Doyle (MacCorkindale), com a intenção de lhe conseguir um emprego. Ela faz mais do que isso, roubando-lhe o noivo para logo casar-se com ele, com a comemoração da Lua de Mel no Egito, sempre interrompidos pela insistente Jackie, que não aceita muito bem a perda do amado. Durante a estadia, com a pretensão de um passeio de barco pelo Nilo no S.S. Karnak, outros personagens começam a se tornar rostos constantemente vistos, como o do próprio detetive Hercule Poirot (Ustinov), de férias, e da escritora Salome Otterbourne (Lansbury), buscando inspirações para seu próximo romance.

Durante a excursão pelo Templo de Karnak, Linnet e Doyle quase são atingidos por um imenso bloco de pedra. Depois notam que Jackie, mesmo tendo sido despistada, encontrou uma forma de adentrar a embarcação, ignorando a sugestão de Poirot para que mantenha distância. Mostrando estar portando uma pequena arma calibre 22 e ter dito sobre seu desejo de atirar na cabeça de sua ex-amiga, logo ela utiliza a arma contra seu ex, acertando-o na perna, somente para que, momentos depois, o corpo de Linnet seja encontrado com uma perfuração na têmpora, deixando apenas uma letra escrita com o próprio sangue, “J“. Não será a única vítima desse fatídico passeio, exigindo toda a perspicácia do detetive, atento às pistas e às falas dos demais passageiros para evitar novas mortes sobre o Nilo.

Como é de costume nas intrigantes obras de Agatha Christie, todos ali presentes no barco têm razões para eliminar Linnet. E a boa montagem de Malcolm Cooke auxilia na reconstrução do crime principal sob a ação dos assassinos em potencial, assim como os diversos posicionamentos de câmera, a cargo de Jack Cardiff, apresentam ângulos alternativos do atentado sofrido por Simon para justificar o uso da mesma arma na morte de Linnet. Tais perspectivas ajudam ao espectador na visualização das possibilidades, e permitem o levantamento de teorias sobre o que pode estar por trás de tudo, embora as imagens possam também enganar. Somente os mais atentos irão perceber detalhes que, aparentemente sem propósito, constroem a trama de mistério e fazem sentido na famosa sequência do veredito.

Mesmo com todo o elenco de estrelas e o mistério em torno de um assassinato, Morte Sobre o Nilo é notadamente inferior ao longa anterior. Pela necessidade de tornar os personagens mais íntimos do público, as ações são conduzidas aos poucos, em um quebra-cabeça de muitas peças, até despontarem as inúmeras possibilidades. Até então são apresentadas as conexões entre a futura vítima e os demais passageiros, em diálogos que testam a atenção do público: um cochilo ou distração e você pode perder um elemento importante no trajeto. Peter Ustinov, ainda não muito à vontade no papel, não desperta o mesmo carisma de Albert Finney, embora tenha uma boa química com David Niven, que interpreta seu apoio nas investigações, Coronel Race, falecido antes que possa retornar ao papel na adaptação seguinte.

Conquistando o Oscar de Melhor Figurino, além de indicações para o Globo de Ouro e o BAFTA, Morte Sobre o Nilo é mais uma interessante adaptação da eterna Rainha do Mistério, a primeira que a escritora não pode assistir. Foi uma produção bastante complicada, realizada com o sol escaldante do Egito, e que envolveu desde mudanças constantes de estadia em hotéis na cidade, dificuldades de assistir ao próprio material de filmagem, como também problemas na movimentação da embarcação, mas que, mesmo assim, teve a satisfação de Guillermin, contando com um elenco que se divertia nas filmagens e estabeleceu uma boa amizade de trabalho, além da nossa, consciente de ter experimentado mais um delicioso biscoito fino, agora acompanhado de um bom vinho.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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