A Máquina do Tempo (1895)

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A Máquina do Tempo
Original:The Time Machine
Ano:1895•País:UK
Autor:H.G. Wells•Editora: Objetiva

A primeira obra de Herbert George Wells (1866 – 1946) é também uma de suas publicações mais fascinantes. Escrita numa época de dificuldade financeira em que a necessidade acelerou o processo de sua produção, o livro já denota muitas das características que iriam vigorar em sua literatura posterior, como a capacidade imaginativa, a criatividade no desenvolvimento de cenários bem descritivos e a crítica social evidente. Uma grandiosa referência ao universo da ficção científica, Wells significaria suas criações como objetos de teorias pessoais a partir de estudos e pesquisas, e com A Máquina do Tempo não foi diferente, mesmo distante da maturidade que seus textos alcançariam com o passar dos anos.

Em um posfácio escrito em 1931 e presente em algumas das edições – como a lançada pela Editora Objetiva com tradução e notas de Braulio Tavares -, o próprio autor expõe a gênese de seu livro, assumindo suas falhas na construção narrativa, principalmente o modo acelerado de algumas passagens, embora reserve muito orgulho do produto final. Como em outros de seus trabalhos, este já antecipava pensamentos sobre a evolução natural do planeta e a grande distância entre as classes sociais, escondidas numa obra de aventura futurista ambientada inicialmente na Inglaterra vitoriana. A representatividade dos Morlocks e dos Elois, mesmo em suas condições aparentemente primitivas e seus medos, reflete a sociedade em todas as épocas, como um espelho de ignorância e domínio.

O primeiro conceito de viagem no tempo de Wells surgiu em seu conto “The Chronic Argonauts“, publicado em um jornal da faculdade em 1888. Nele, o inventor Dr. Moses Nebogipfel passa a ocupar uma casa abandonada após a morte de seus donos. Quando os locais passam a acreditar que o novo morador esteja realizando feitiçarias em seu interior, é descoberta a tal máquina do tempo e que permitiu, em um interessante paradoxo, que o próprio Moses tivesse voltado no tempo e matado os donos daquela casa onde ele futuramente iria residir. Com a ideia bem aceita, Wells tinha a pretensão de escrever uma série de artigos sobre o tema para o periódico Pall Mall Gazette, mas foi convencido pelo editor a escrever um romance serial, publicado aos poucos nas edições da revista. Posteriormente, desta série seriam finalizados dois livros oriundos de materiais diferentes: manuscritos com pensamentos sem edição e a própria publicação do jornal, sendo que esta, a cargo da Editora Heinemann, foi a que se tornou popular.

Curto e dinâmico, A Máquina do Tempo apresenta um inventor residente em Richmond, Surrey. Apenas denominado pelo autor-narrador como Viajante do Tempo – e ele faz o mesmo com quase todos os outros personagens, identificados pelas profissões -, ele é descrito como um homem inteligente e bem eloquente, que resolve em uma reunião social anunciar sua criação. Depois de explanar sobre sua teoria referente à quarta dimensão, com base científica na reflexão sobre espaço e tempo, o Viajante apresenta ao grupo um protótipo do que seria a tal máquina do tempo, acionada diante dos olhares incrédulos dos presentes, com a sugestão de que uma em tamanho maior, capaz de transportar um humano, foi construída.

No jantar da semana seguinte, enquanto os senhores criam teorias absurdas sobre a ausência do Viajante, ele aparece em um estado físico que chama a atenção. E resolve então contar sua experiência de viagem no tempo, quando conseguiu chegar ao ano de 802.701 d.C. Tudo bem detalhado e descritivo, assim como a movimentação da máquina no avançar dos anos, o Viajante conta sua experiência com a sociedade do futuro, os chamados Eloi, que seriam humanoides pequenos e ignorantes, simpáticos e infantis, que aparentam felicidade e temem o escuro. Na exploração do mundo novo, ele percebe que sua máquina desaparecera, e, na busca por ela,  conhece uma raça de seres que vivem no submundo, os tais Morlocks, criaturas descritas como macacos brancos e cegos, que vivem à margem, protegendo-se dos raios solares.

O próprio viajante conclui que os Elois representariam os ricos, acomodados e incapazes; enquanto os Morlocks deveriam ser a evolução da classe operária, que segue regras, teme a luz (conhecimento) e só aceita sua condição inferior. Esse conflito mantém as diferenças evidentes entre as classes, e à medida em que convive com os Elois e entende os Morlocks, o Viajante compreende mais sobre a natureza humana. Com a narrativa expondo momentos de suspense e terror, como a sensação de insegurança do protagonista em um ambiente sem luminosidade alguma, sentindo a presença dos seres do submundo em toques e mordidas, A Máquina do Tempo apresenta o dinamismo que permite uma leitura voraz aos que quiserem conhecer a obra.

Indispensável para os fãs de Ficção Científica e que querem conhecer o ponto de partida das viagens no tempo, A Máquina do Tempo ainda flui como uma literatura deliciosa e consciente, bem à frente de seu tempo, antecipando um universo de inventividades sem limites e que construiria a história do gênero. Parece que o autor realmente viajou no tempo através de sua narrativa e está convidando o leitor a acompanhá-lo em sua máquina fantástica.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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