A Máquina do Tempo (1960)

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A Máquina do Tempo
Original:The Time Machine
Ano:1960•País:EUA
Direção:George Pal
Roteiro:David Duncan, H.G. Wells
Produção:George Pal
Elenco:Rod Taylor, Alan Young, Yvette Mimieux, Sebastian Cabot, Tom Helmore, Whit Bissell, Doris Lloyd, Bob Barran, Paul Frees

Uma das mais sonhadas invenções da História do Mundo somente teve a sua concretização a partir das páginas de H. G. Wells. Foi o primeiro passo no universo das impossibilidades, e serviu para modificar muitos dos principais conceitos da Ficção Científica. O engenhoso escritor não apenas desenvolveu a Máquina do Tempo, como permitiu que a humanidade pudesse idealizar o futuro com a visão da experiência adquirida com o passado. Com sua criação, viajar através de períodos históricos, atravessando épocas, com o olhar atento à evolução da sociedade, despontou reflexões sobre nossas próprias atitudes em ensinamentos que poderiam até mesmo prever catástrofes. Provavelmente o próprio autor, falecido em 1946, ficaria bastante orgulhoso dos estudos que seu texto inspirou, assim como da influência promovida na literatura e na Sétima Arte. E o filme A Máquina do Tempo, de 1960, é uma excelente comprovação disso.

Não foi a primeira versão da obra de H. G. Wells. Em 25 de janeiro de 1949, foi ao ar ao vivo pela BBC uma adaptação estrelada por Russell Napier e Mary Donn. Como não houve gravação da apresentação, somente ficaram os registros por fotos, além do roteiro, de Robert Barr. Pelas evidências e testemunhos da época, parece que foi bem fiel ao texto original, apesar das limitações técnicas, principalmente na concepção da máquina do tempo. Já a seguinte foi o clássico absoluto de George Pal, um dos pioneiros da animação stop-motion com inúmeras indicações ao Oscar. Contou com o desenho de produção de Bill Ferrari para a construção do veículo de viagem por Wah Chang, que deu à máquina a aparência de um trenó, mas com observação ao detalhe da alavanca de funcionamento.

Com filmagens ocorridas na Califórnia, EUA, apesar da ambientação em Londres, o filme custou menos de U$1 milhão de dólares, e recebeu um misto de críticas positivas e negativas. Os críticos que não gostaram do filme apontaram como falha seu teor melodramático, o ritmo de narrativa e a ausência de alívio cômico; enquanto os demais curtiram a aventura de viagem no tempo, a concepção do futuro e até mesmo o visual aterrorizante dos Morlocks. Com uma visão atual, pode-se dizer que se trata de uma produção muito bem feita, empolgante, e que respeita com carinho a obra original, e ainda faz uso da liberdade de criação para criticar as guerras e a passividade da população diante das ameaças – um tom que acompanhou boa parte das produções cinematográficas do período.

Começa em 5 de janeiro de 1900, com a impaciência de quatro amigos de George (Rod Taylor), nome dado ao Viajante do Tempo em referência ao nome do meio de H. G. Wells, aguardando-o para jantar. Ele surge todo sujo, ferido e maltrapilho para espanto de todos e se senta para contar o que aconteceu. Na obra original, os acontecimentos são cronológicos, mostrando a conversa inicial, dias antes. Às vésperas da virada do século, George tenta convencer seus amigos Dr. Philip Hillyer (Sebastian Cabot), Anthony Bridewell (Tom Helmore), Walter Kemp (Whit Bissell) e David Filby (Alan Young) sobre suas teorias envolvendo a quarta dimensão, possibilitando a viagem no tempo. Apenas Filby é nomeado no livro de Wells, enquanto os demais são referidos pelas profissões que exercem.

Ele mostra um protótipo em escala menor, e, ao pressionar a alavanca, faz a máquina desaparecer com um charuto. Explica aos demais que não se trata de um truque, mas se deve à viagem proporcionada ao objeto, que estaria no mesmo local anos no futuro. Os rapazes não acreditam no fenômeno testemunhado e se despedem para comemorar o Ano Novo com suas famílias, ao passo que George escreve uma carta e vai ao seu escritório, onde a máquina em tamanho real está. Sentado no veículo, ele aciona a alavanca lentamente, observando pela janela as transformações em um manequim da loja à frente, com efeitos de troca de roupa em stop motion. George estaciona em 1917, em uma sequência interessante, mas que não acontece na literatura.

Ele conhece o filho de David Filby, e fica sabendo que o seu amigo morreu anos antes na Primeira Guerra Mundial. Acionando mais uma vez a alavanca, ele observa as passagens dos dias e das noites, as mudanças climáticas e as transformações no manequim. Estaciona em 1940, durante a Segunda Guerra, exatamente no momento em que acontecia a Blitz, a sirene que soa para alertar sobre bombardeios para que as pessoas busquem abrigo. Reencontra o filho de Filby mais velho em 1966, que, incrivelmente, lembra daquele homem que conversou com ele por poucos minutos em 1917. Bombas caem, o chão estremece, um satélite é destruído, um vulcão libera lavas, indicando o início de uma nova guerra, na imaginação do roteiro de David Duncan, antecipando novos conflitos nucleares ainda mais intensos.

O Viajante aciona a máquina no momento da destruição local, com a narração de seus pensamentos sobre mudanças climáticas, nascimento e morte de flores, passagem dos dias. Ele então chega ao longínquo ano de 802.701, próximo ao que parece ser uma esfinge. Ao explorar o local, conhece os tais Elois, que seriam uma sociedade alienada, que não trabalha e não tem preocupações. A caracterização é bem diferente do texto original, uma vez que Wells descreveu pessoas pequenas quase como anões. Também difere o fato dos Elois saberem se comunicar em inglês, sendo que a comunicação na literatura foi bem complicada e dificultou a vida do Viajante do Tempo, precisando entender as diferenças sociais pela própria experiência.

Tal qual no livro, ele salva um dos Elois, uma moça chamada Weena (Yvette Mimieux), que passa a ajudá-lo a entender aquele novo mundo, e temer os terríveis Morlocks, habitantes do submundo, canibais e e exploradores dos Elois. Nota-se nesta versão que a intenção não foi diferenciar classes sociais, apresentando os operários e os burgueses, numa crítica às distâncias e aos dominantes e dominados. Duncan faz de seu roteiro uma mensagem anti-guerra até mesmo com o soar de um sirene, similar ao visto no passado, para hipnotizar os Elois em direção ao abrigo, aceitando suas condições sem questionar. Também são mensagens valiosas e que dão ao filme uma boa profundidade narrativa.

Indignado pela passividade dos Elois e também pelos maus tratos dados aos livros, George planeja voltar para casa, mas a máquina está em poder dos Morlocks no interior de uma esfinge. E assim que Weena é atraída pela sirene, ele não vê alternativa que não seja invadir o submundo para salvá-la das criaturas que temem a luz em um confronto que trará muitos ensinamentos para os Elois e modificará o modo deles lidarem com seus problemas.

Com algumas diferenças significativas, ainda assim A Máquina do Tempo se mostra eficiente e divertido. Respeita muitas das ideias de Wells, traz um visual abominável para os monstros e ainda propõe debates sobre valorização e relacionamentos. Conta com a boa atuação de Rod Taylor, que traz a mescla da inteligência do inventor com o espírito aventureiro que irá exigir de seu personagem. Os demais também estão bem, incluindo a ingênua Weena, na interpretação de Yvette Mimieux, de Cão do Diabo (1978), falecida em janeiro deste ano. Diferente de sua versão literária, ela se mostra apaixonada por George, e o leva a acreditar que possa levá-la com ele de volta ao presente.

Pelas qualidades do texto original e que poderia render uma curiosa série de TV, somente esse filme foi capaz de representá-lo de maneira digna. Em 78, foi feita uma versão mediana, dirigida por Henning Schellerup, tendo John Beck como protagonista. E depois viria aquela infeliz versão de Simon Wells, bisneto do escritor, com Guy Pearce como inventor, motivado pela morte da mulher amada. Esse, sim, um trato melodramático, com efeitos exagerados e pouco conteúdo. Se querem realmente conhecer a obra, além do texto original, viajem até 1960 para acompanhar a melhor máquina do tempo que o cinema já construiu!

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “A Máquina do Tempo (1960)

  • 22/06/2022 em 12:54
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    Ótimo filme. Yvette Mimieux atua com graça, beleza e sensualidade saindo pelos poros.

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  • 18/06/2022 em 16:04
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    Adoro esse filme.

    No fim ele deixa ainda aquela dúvida sobre qual foi o livro que o personagem levou para o futuro, já que nem a própria governanta soube falar.

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