Perdidos no Vale dos Dinossauros (1985)

3.7
(3)

Perdidos no Vale dos Dinossauros
Original:Nudo e selvaggio / Massacre in Dinosaur Valley
Ano:1985•País:Itália, Brasil
Direção:Michele Massimo Tarantini
Roteiro:Michele Massimo Tarantini, Dardano Sacchetti
Produção:Chris Rodrigues
Elenco:Michael Sopkiw, Suzane Carvalho, Milton Rodríguez, Marta Anderson, Joffre Soares, Gloria Cristal, Susan Hahn, Maria Reis, Andy Silas, Leonidas Bayer, Carlos Imperial, Samuka

Depois de um período de produções violentas, envoltas em grafismo, corpos destroçados, tortura, voracidade e sangue em profusão, o ciclo dos canibais italianos começa a se encerrar apresentando um de seus exemplares menos agressivos. Aliás, trata-se de uma “Sessão da Tarde” em sua essência, em uma aventura sexista numa floresta tropical com referência às clássicas produções do estilo ao colocar os personagens em diversos perigos que vão além de uma tribo canibal. Se não fossem as cenas de exposição de corpos femininos, Perdidos no Vale dos Dinossauros poderia muito bem ser exibido para a família como uma comédia de heroísmo e sobrevivência na mata. Contudo, o italiano Michele Massimo Tarantini, escondido sob o pseudônimo Michael E. Lemick, quis contribuir ao subgênero com um exemplar adocicado, com pitadas de erotismo e aventura. E com DNA brasileiro!

Filmado no Rio de Janeiro, embora tente emular mais uma vez a floresta amazônica, o longa traz em seu elenco brasileiros como Suzane Carvalho (que fez filmes como As Aventuras de Mário Fofoca e pontas em novelas como O Bem-Amado e Vereda Tropical), Gloria Cristal (de O Coronel e o Lobisomem), Joffre Soares (de Os Trapalhões e o Mágico de Oróz e também de O Coronel e o Lobisomem) e Carlos Imperial (de O Escorpião Escarlate), além é claro de coadjuvantes que deram à produção um aspecto de “filme realmente feito aqui” que muitas produções ambientadas no Brasil não foram capazes. Estreou nos cinemas brasileiros em 2 de outubro de 1986, dividindo a atenção nas telas com Karatê Kid II, A Hora do Lobisomem, FX, Top Gun e Força Sinistra – bons tempos em que você ficava perdido no vale das opções!

Apesar do título sonoro (em inglês ainda tinha o exagerado “Massacre“; enquanto na Itália, quando não usavam o original e adequado Nudo e Selvaggio, tentavam apelar para Cannibal Ferox 2) e que remete a produções como o clássico Mundo Perdido (1960) e Quando os Dinossauros Dominavam a Terra (1970), não há dinossauros além de pegadas pré-históricas e alusão à região onde a aventura se desenvolve. Até chegar a esse ponto, o que se tem é a apresentação dos personagens, principalmente do protagonista, e algumas sequências de humor pastelão, com a trilha sonora contribuindo para que se entendam o tom leve que acompanhará quase o filme todo, destoando apenas em dois momentos.

O herói, Kevin Hall (o americano Michael Sopkiw, de Tubarão Vermelho, 1984), é apresentado comendo bananas na traseira de um caminhão. Ele chega ao hotel, onde pouco tempo antes chegaram Eva Ibañez (Suzane Carvalho) e seu pai, o paleontologista Pedro (Leonidas Bayer), ansiosos para chegar ao tal Vale dos Dinossauros. Quando Kevin, em vias de ir para Manaus, descobre o trajeto, resolve se oferecer para embarcar na aventura, não sem antes arrumar confusão com dois brutamontes, numa sequência ao estilo Trapalhões. No hotel também estão um fotógrafo e suas duas modelos, Monica (Susan Hahn) e Belina (Marta Anderson); além do capitão John Heinz (Milton Rodríguez) e sua esposa Betty Heinz (Marta Anderson).

Todos embarcam na aventura à selva, até que o avião sofre uma pane e faz um pouso forçado – em um efeito risível que envolve caras e bocas do elenco e um aviãozinho em miniatura. Na queda, morrem o Prof. Pedro, o piloto e Belina, enquanto os demais se embrenham na mata para buscar proteção e aguardar um possível resgate. Como o capitão já tivera experiências na Guerra do Vietnã, resolve assumir o comando já demonstrando sua condição de um dos vilões do filme ao impor atitudes e não se importar com os feridos, até mesmo no momento em que elimina o fotógrafo, parcialmente ferido por piranhas. Antes do encontro com os canibais, os sobreviventes encontrarão todo o cardápio de produções do estilo, como serpente, jacaré, queda de cachoeira, sanguessugas e até areia movediça.

Apesar do cerco dos canibais e até uma sequência em que arrancam um naco para se alimentar, a maior ameaça vem de um homem branco. China (Andy Silas) está na região em busca de esmeraldas, com um grupo de escravos e a mulher Myara (Gloria Cristal). Ele não vai querer que suas descobertas sejam levadas às mídias e irá realmente incomodar o grupo, mantendo Kevin preso – sabe-se lá por que – entre porcos, e se aproveitando de Eva e Monica. Uma ação heroica será necessária para evitar que todos sejam mortos e possam encontrar o caminho de casa.

Com os apelos eróticos nas cenas de exposição de corpos e sexo, Perdidos no Vale dos Dinossauros se distancia de outras aventuras como Indiana Jones e Tudo por uma Esmeralda. O que poderia tornar o filme mais acessível, sem a necessidade de cortes para um alcance maior de público, acaba por dar a ele uma condição quase obscura, com mais proximidade das pornochanchadas. Com a exclusão das cenas mais ousadas, como a da voracidade canibal e o estupro de uma personagem, o que resta é uma Sessão da Tarde despretensiosa, uma curiosa produção de exploração da mata selvagem e dos perigos que a envolvem. É provável que se explorasse mais esse tom ingênuo de paquera, lutas coreografadas e atuações caricatas, o filme seria apenas um genérico de filmes mais conhecidos.

Não se deve colocá-lo na mesma lista dos filmes de canibais italianos. Não tem a mesma importância para o período, e nenhum grafismo que justifique a associação. Talvez por essas diferenças os fãs de Cannibal Holocaust e Cannibal Ferox, entre outros, tenham se decepcionado com o resultado final. Já aqueles que assistiram pela curiosidade em acompanhar uma produção ítalo-brasileira de aventura na mata, tendo consciência que verá mais peitos do que terror em cena, irão apenas se saciar com o básico, sem que alcance destaque ou relevância.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Perdidos no Vale dos Dinossauros (1985)

  • 17/07/2022 em 13:11
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    Um sério candidato a “ melhor filme já feito “ … e divertido demais d no YouTube tem cópia em alta definição e dublagem brasileira que ficou muito show … o duelo do Michael com o China e SENSACIONAL … puta filme legal demais …Mesmo não tendo dinossauro nenhum e mais divertido do que todos os Jurassic Parks juntos …

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